Identificação e apego

Compreender significa descartar o seu conhecimento.
Thich Nhat Hanh

Nós costumamos ouvir de tradições religiosas ocidentais e orientais que o apego traz sofrimento. Os ensinamentos centrais do budismo são as quatro nobres verdades, que descrevem a natureza do sofrimento e o caminho para superá-lo. A segunda nobre verdade aponta as causas para o sofrimento: o desejo e o apego. O Alcorão, livro sagrado do islamismo, adverte contra a cobiça. No cristianismo, essa noção também está presente, como em Mateus 19:21, quando Jesus diz: “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me”.

Geralmente, pensamos que o apego está exclusivamente ligado aos nossos bens materiais. De fato, estar muito ligado a algo tão passageiro quanto aquilo que compramos, vestimos ou usamos certamente trará sofrimento. Mas há um outro tipo de apego, mais sutil, que também nos leva a dificuldades: o apego à nossa identidade.

Nossa identidade é a história que contamos sobre aquilo que acreditamos ser. Criamos, mentalmente, uma narrativa que descreve nossas origens, nossa trajetória, nossas “conquistas”, nossa “personalidade”. Usamos, para montar essa história, uma série de aspectos como o emprego que temos, o tempo que se passou desde que nascemos, a pessoa com quem estamos e, claro, nossos bens materiais. Uma possível narrativa sobre si mesmo seria: “sou o fulano, administrador, 52 anos, casado com a fulana, dono de uma casa no bairro tal, com tantos filhos; sou decidido, firme, mas amoroso com meus familiares”.

Com o tempo, essa narrativa se torna cada vez mais rígida. Começamos a acreditar que essa narrativa é algo sólido e imutável. O “eu sou” vai se tornando mais forte. Podemos, inclusive, agir ativamente para manter a coerência da narrativa. Se acreditamos que somos e temos que continuar sendo bem-sucedidos, por exemplo, vamos agir de acordo com isso, mesmo que não queiramos. Vamos gastar dinheiro com algo que não queremos, usar uma roupa que não desejamos, conviver com pessoas que não nos fazem bem, apenas para não desafiar a nossa história.

Nossa narrativa também pode ser negativa. Podemos dizer: “não sou capaz disso”. E passamos a vida deixando de fazer aquilo que gostaríamos, mas que acreditamos não poder.

Isso é identificação: o apego a história que contamos constantemente sobre nós mesmos e que lutamos tanto para manter. O sofrimento vem quando a realidade torna impossível manter a história coerente. Como tudo é impermanente e as coisas estão bem mais fora do controle do que desejamos, é impossível mantê-la eternamente. Perdemos o emprego, dinheiro, relacionamentos acabam, pessoas morrem, envelhecemos.

Se estou muito identificado com um relacionamento, não suporto a ideia de que ele acabe. Se estou muito identificado com meu papel de pai ou mãe, tenho dificuldades em conduzir a vida após os filhos saírem de casa. Se estou muito identificado com meu trabalho, sofro ao ser mandado embora ou me aposentar. Se estou muito identificado com minhas posses, sofro quando elas são perdidas. Se estou muito identificado com uma ideia ou uma posição política, sofro ao ver uma posição diferente — e frequentemente transformo meu sofrimento em comportamento agressivo.

Por mais que estejamos acostumados a viver com essa história sempre presente, na verdade ela não passa de uma ficção. Tanto o passado quanto o futuro são conceituais. Quanto mais tomarmos essa narrativa sobre o que somos de uma maneira rígida, maior será o nosso sofrimento quando ela se choca com a realidade, em seu constante movimento.

Um outro aspecto bastante presente nos textos religiosos é a ideia de morrer e nascer de novo. É possível que, entre outras coisas, eles estejam se referindo à nossa identidade. Morrer significa deixar de lado a narrativa sobre quem achamos que somos, abandonando a ideia de um eu sólido, fixo e estável. Quando reduzimos nossa identificação, passamos a nos abrir para a vida que se apresenta e para a possibilidade real de mudança. Nesse espaço, muito pode surgir: flexibilidade, amor, alegria e disponibilidade. Nosso real desenvolvimento começa quando nos tornamos menos.

Foto de Alex Wigan.

6 Comentários

  1. Rodrigo,

    Em sociedades com indivíduos cada vez mais materialistas e egocêntricos, esse discurso de desapego se torna mais necessário mesmo para levarmos uma vida mais saudável e serena. Abnegação não apenas ao que é material — as nossas posses –, mas, como você bem defende no texto, principalmente, ao que é imaterial — ao nossos pensamentos e conceitos e teorias. A pergunta que fica de pano de fundo a partir disso, porém, é: “Se não somos “matéria” e se não somos “conceitos”, o que somos, então? O que fazemos? Como agimos? O que decidimos?”.

    Abraço e obrigado pelo texto inspirador!

    1. Oi, Alessandro
      Muito obrigado pelo seu comentário, bem pertinente. E adorei as questões, acho que é bem por aí mesmo. Se nos fizermos essas perguntas podemos ir a fundo em nós mesmos.
      Grande abraço!

  2. Adorei o texto, Rodrigo! mais uma vez , muito obrigada pela sua contribuição! Na verdade esse texto é muito libertador; somos de fato maiores do que a nossa narrativa. Acredito ser um grande desafio para todos nós, enquanto seres em relação ao outro e a nossa história de vida, assimilar esse conceito e viver plenamente o momento presente.

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