Desajuste criativo

Uma boa parte da psicologia, seja na geração de conhecimento através da pesquisa, seja na aplicação desses conhecimentos na esfera clínica ou nas organizações, está preocupada com o ajustamento do indivíduo. Nós, psicólogos, nos preocupamos em adaptar a criança à escola, o adulto ao trabalho, a pessoa à sociedade. Entendemos que esse é o nosso serviço àqueles com quem atuamos e à comunidade. Geralmente fazemos isso com boa intenção, acreditando que essa é a melhor forma de promover saúde mental e bem estar. Infelizmente, boa parte da atuação dos psicólogos é baseada em premissas que não questionamos.

Quando as relações entre a pessoa e o seu ambiente não funcionam conforme o esperado, ou seja, há um desajuste entre a pessoa e o contexto no qual ela deveria se encaixar, o ônus desse descompasso cai sobre o indivíduo. Essa é uma das premissas da visão neoliberal que permeia nossa cultura e que, de tão pervasiva, passa desapercebida: a de que o indivíduo deve ser uma espécie de empreendedor de si mesmo (Adams, Estrada-Villalta, Sullivan & Markus., 2019). Um dos aspectos dessa perspectiva é a responsabilização, ou seja, a visão de que a pessoa é a única responsável pelos seus sucessos e fracassos.

Essa visão conveniente tira o foco das forças sociais e econômicas atuando sobre o indivíduo — muitas vezes determinando implacavelmente suas reais possibilidades de sucesso e fracasso. A psicologia abraça essa visão ao promover a ideia de que as pessoas em sofrimento ou que não correspondem a uma determinada norma são “desadaptadas”, “mal ajustadas” e tem visões “distorcidas”. Os livros sobre psicoterapia, por exemplo, pouco ou nada falam sobre quão “desajustados” podem ser os nossos contextos sociais, econômicos e políticos. Menos disso se fala quando partimos para os tratamentos médicos de tais “desajustamentos”.

Martin Luther King Jr., em 1967, deu uma palestra na Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association, APA). Ele disse, para uma plateia de psicólogos, o seguinte:

Vocês, que estão no campo da psicologia, nos deram uma ótima palavra. É a palavra “desajustado”. Certamente é bom declarar que o desajuste destrutivo seja erradicado. Mas, por outro lado, tenho certeza de que todos nós reconhecemos que existem algumas coisas na nossa sociedade e no nosso mundo que não devemos nos ajustar nunca. Existem algumas coisas a que devemos sempre ser desajustados se quisermos ser pessoas de boa vontade. Não devemos nunca nos ajustar à discriminação e segregação racial. Não devemos nunca nos ajustar à intolerância religiosa. Não devemos nunca nos ajustar a condições econômicas que tomam o necessário de muitos e dão luxos para poucos. Não devemos nunca nos ajustar à loucura do militarismo e dos efeitos derrotistas da violência física.
(…)
Homens e mulheres deveriam ser tão desajustados quanto o profeta Amós, que, no meio das injustiças de sua época, pôde expressar em palavras que ecoam pelos séculos, “que haja tanta justiça como as águas de uma enchente e que a honestidade seja como um rio que não para de correr;” ou desajustado como Abraham Lincoln, que no meio de seus vacilos finalmente enxergou que essa nação não poderia sobreviver meia escrava e meia livre… Através de tal desajuste criativo, nós poderemos emergir da meia-noite sombria e desolada da desumanidade do homem contra o homem, em direção ao amanhecer claro e cintilante da liberdade e da justiça.

De alguma forma, mais de 50 anos depois, aparentemente ainda não conseguimos essa mudança. E a psicologia, que muito poderia contribuir para isso, tem fechado os olhos para as questões sociais e econômicas cada vez mais opressivas e que vem gerando todo o tipo de consequência psicológica. Temos preferido enxergar essas consequências como “sintomas” de transtornos internos, em vez de clarear as suas reais origens.

Não é à toa que muitas pessoas enxergam a psicologia e os psicólogos com desconfiança. Pois o que temos feito foi endossar a lógica neoliberal de que se o indivíduo não é bem sucedido e feliz, há algo de errado com ele. E que o bem estar está ligado a sua capacidade de se ajustar e se conformar com um modo de ser que é conveniente às expectativas sociais e econômicas do nosso tempo. Se quisermos de fato ajudar as pessoas de forma mais ampla, precisamos enxergar além do que dizem os manuais de psicologia e promover ideias como o desajuste criativo, em que nos recusamos a aceitar, individual e coletivamente, todos os abusos que são cometidos por escolas, empresas, governos e instituições. A psicologia, ao promover o “ajustamento” e o condicionamento do indivíduo às lógicas neoliberais, culpa e castiga a vítima. Precisamos parar com isso.

Referências:
Adams, G., Estrada‐Villalta, S., Sullivan, D., & Markus, H. R. (2019). The psychology of neoliberalism and the neoliberalism of psychology. Journal of Social Issues, 75(1), 189-216.
King, Jr., M. L. (1968). The role of the behavioral scientist in the Civil Rights movement. American Psychologist, 23, 180–186. https://doi.org/10.1037/h0025715

Foto: Martin Luther King Jr. em marcha por direitos civis em Washington, 1963.

7 Comentários

  1. Parabéns, prezado Rodrigo, pelo seu texto. Maravilhosamente escrito, oportuno e corajoso. Felicito-lhe por sua visão de mundo, para além da visão profissional estrita! Concordo 100% com a sua mensagem, mesmo eu sendo de outra área profissional, o que vem mostrar que o seu posicionamento tem aplicabilidade ampla. Nós na Medicina, na Medicina do Trabalho – principalmente – cometemos os mesmos imperdoáveis erros. Sua leitura de mundo é correta e merece ser mais difundida e valorizada. Prossiga com coragem, ousadia e engajamento político, pois sua voz deve repercutir e ser mais conhecida e debatida! Tem o meu apreço e respeito. Parabéns!

    1. René, muito obrigado pela leitura e pelas palavras de aprovação e encorajamento. Quanto mais tempo ficamos na profissão, mais percebemos que há algo de errado com os livros, com as aulas… As coisas simplesmente não batem. E aí, relato após relato, vamos percebendo que há um estado de coisas muito mais amplo do que imaginávamos, e precisamos de novas perguntas, para buscar novas respostas. Tenho encontrado isso numa perspectiva mais política da saúde mental. Faz abrir os olhos. Um grande abraço!

  2. “Pois o que temos feito foi endossar a lógica neoliberal de que se o indivíduo não é bem sucedido e feliz, há algo de errado com ele.” Continue a nadar porque parece que tem algo importante nessa direção que está olhando. Ótima abordagem!

  3. Que orgulho ter sido tua aluna na pós graduação (cognitivo 2015/2016). Os dois dias de aula que tive contigo foram suficientes pra marcarem minha trajetória profissional. Eu sempre acompanho seus posts aqui. Obrigada por trazer à tona temas tão importantes e por vezes esquecidos por nossos colegas.
    Grande abraço, prof.! Muito obrigada 🍀

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