Decisões

Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo “esboço” não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Milan Kundera — A Insustentável Leveza do Ser

Gary Gao
Gary Gao

Estar frente a uma decisão importante pode ser torturante. Geralmente, exploramos cada canto da nossa mente tentando achar informações que possam nos ajudar a seguir para um lado “certo”. O problema é que no máximo temos o resultado de situações passadas ou exemplos da vida de outras pessoas. E, para piorar, nunca temos como saber se as escolhas já feitas foram as melhores, como diz o texto acima. A impossibilidade de saber qual é a melhor forma de agir está entre o que nos causa mais angústia. Essa angústia é a própria essência das nossas limitações humanas, da nossa pequenez frente a um mundo que vive por conta própria. Então, mais uma vez, é essencial ver as coisas como elas realmente são, e não como gostaríamos que fossem nas nossas ilusões egocêntricas.

O fato de só podermos escolher um caminho sem saber ao certo onde ele nos levará reflete a inutilidade das tentativas de controle. Se agirmos apenas em função dos resultados que queremos obter, tendemos a criar estresse, ansiedade e nos fechamos para as possibilidade diferentes daquela que imaginamos. Corremos o risco de agir como a criança que se recusa a brincar se o jogo não for do jeito dela. O problema é que, nesse caso, a brincadeira vai acontecer ela querendo ou não.

A dúvida e a insegurança fazem parte da vida. Não existe um caminho em que elas não vão estar presentes, em que não pensemos “e se eu tivesse feito aquilo?”. Podemos tentar “acertar”, escolher em função dos efeitos que queremos promover. Mas é bom lembrar que não há nenhuma garantia de que teremos sucesso. Melhor seria decidir de acordo com os nossos valores, de acordo com aquilo que queremos assumir como nossas ações. Mas sem criar expectativas sobre os resultados. Em outras palavras: fazer o nosso melhor e aceitar, sem resistência, aquilo que o mundo nos dá de volta.

O que move você?

Michael Sissons
Michael Sissons

B. F. Skinner (1904-1990) é um dos nomes mais importantes da história da psicologia, junto com Sigmund Freud, Carl Jung, Carl Rogers, William James, entre outros. A proposta de Skinner era uma psicologia científica e objetiva. Embora tenha muitos críticos — que muitas vezes não entendem bem a sua obra — Skinner nos possibilitou compreender o comportamento humano de uma forma mais clara.

Um dos princípios básicos da teoria comportamental de Skinner é a de que agimos em função das consequências que o nosso comportamento produz. Ou seja, aquilo que conseguimos com o que fazemos é o que molda nossa forma de agir. Quando o nosso comportamento produz uma consequência agradável (por exemplo, quando tentamos puxar papo com alguém interessante numa festa e temos sucesso), ocorre um processo chamado de reforçamento positivo. Quando nosso comportamento faz com que evitemos uma consequência desagradável (por exemplo, quando deixamos de falar o que pensamos para evitar um conflito), o processo é chamado de reforçamento negativo. Nos dois casos, tendemos a continuar agindo da mesma maneira, mas a forma como nos sentimos é bastante diferente, bem como os efeitos a longo prazo na nossa vida.

Embora as situações reais sejam bem mais complexas do que isso, podemos usar esses conceitos básicos para começar a entender o nosso comportamento. Uma das coisas com as quais me preocupo quando começo a atender uma pessoa é o quanto os comportamentos dela estão relacionados ao reforçamento negativo. Uma pessoa que só age por reforçamento negativo é aquela que tem poucos prazeres na vida, poucos bons momentos, poucas situações em que se sente realizada, bem sucedida e alegre. Geralmente ela é muito preocupada com tudo que pode dar errado, é ansiosa, defensiva e tem seu comportamento voltado a evitar qualquer situação que ofereça o mínimo de risco. Embora, com isso, ela ache que está mais protegida, no fim ela deixa de fazer muitas coisas que gostaria. Por isso, raramente se sente feliz. Além disso, todos esses comportamentos de evitação a levam a ficar mais e mais ansiosa e seus medos se tornam mais intensos.

Acho que vale a pena uma reflexão sobre esse aspecto na sua vida. Você se vê tendo momentos de prazer? Costuma fazer o que gosta? Sente que sua vida segue na direção dos seus objetivos? Ou se percebe evitando situações, não tendo coragem de ir atrás do que sonha, preocupa-se em excesso? Se você se identifica predominantemente com o segundo padrão, vale a pena pensar em mudar.

Não vou mentir: essa mudança não é fácil. Geralmente temos bons motivos para evitar certas situações e nos preocupar tanto. Nos vemos, então, no dilema entre correr riscos e nos manter seguros. Ir atrás do que desejamos envolve grandes riscos. Para chegar nessa vida boa com que sonhamos precisamos atravessar nossos maiores medos. Você pode escolher nunca ir atrás do que realmente importa. O que eu aprendi com as pessoas com que atendo, no entanto, é que enfrentar os medos e buscar viver da forma que se quer viver é sempre libertador.

Perdas

Colin Campbell
Colin Campbell

A psicanalista Judith Viorts aponta em seu livro, Perdas Necessárias (1986), que a maior parte do nosso sofrimento decorre das perdas. Ao longo de toda a nossa vida, resistimos às mudanças: desde o momento em que precisamos abrir mão das fraldas até quando, pela idade avançada, temos que parar de dirigir. As perdas são constantes e, muitas vezes imprescindíveis para o nosso crescimento.

Mas, justamente porque as perdas são dolorosas, não gostamos de vê-las como inevitáveis (Siegel, 2012). Nossa tendência é de ver o mundo como algo estável e organizado. Preferimos pensar que nosso emprego está garantido, que sempre teremos saúde e que os familiares nunca morerrão. Entretanto, uma das características da natureza é a mudança constante. E, para viver bem, é preciso enxergar o mundo tal qual ele é.

Se entendermos que o mundo não funciona de acordo com a nossa vontade, podemos abrir mão da tentativa vã de segurar tudo aquilo que nos agrada. Com isso, podemos desenvolver uma atitude menos resistente às mudanças, que deixa ir aquilo que acabou e é mais recetpiva às novidades. Quando conseguimos abrir mão de algo que nos deixava seguros, damos chance para situações que podem nos fazer melhor no longo prazo.

Já ouvi que ter consciência de que as coisas mudam e acabam parece pesado e pessimista. Por exemplo, olhar para as pessoas de quem gostamos e lembrar que elas não estarão para sempre do nosso lado realmente é muito doloroso. Mas acredito que essa mesma perspectiva pode ser bastante positiva se, ao nos darmos conta que o tempo que temos é limitado, passarmos a aproveitar melhor tudo aquilo que valorizamos.

Se soubermos valorizar cada fase da nossa vida, a companhia das pessoas queridas, o sucesso e a alegria, talvez possamos viver melhor. Especialmente se conseguirmos passar por esses momentos com mais presença, e menos preocupados em fazê-los durar para sempre. As perdas ainda serão dolorosas — mas menos do que quando temos a sensação de que não vivemos plenamente aquilo que se foi.

Referências:
Siegel, R. D. (2012). The wise psychotherapist. Em: C. K. Germer, R. D. Siegel. Wisdom and Compassion in Psychotherapy. New York: The Guilford Press.
Viors, J. (1986). Perdas Necessárias. São Paulo: Melhoramentos.

Onde você busca a felicidade?

Hamster in a wheelVocê já viu um rato andando numa roda como esse aí do lado? Não importa o quão rápido ele corra, ele nunca sairá do lugar. Talvez você se surpreenda em saber que alguns pesquisadores acreditam que a felicidade e o bem estar funcionem de forma semelhante.

Brickman e Campbell (1971) criaram a teoria da “esteira hedônica”, ou seja, uma ideia de que não importa o que aconteça na sua vida, o seu nível de felicidade sempre voltará para mais ou menos o mesmo lugar. Você pode adquirir alguma deficiência física ou ganhar na loteria, mas depois de algum tempo, seu nível de satisfação será o mesmo de antes desse evento acontecer.

Uma coisa que costumamos fazer com frequência é condicionar a nossa felicidade a um evento futuro. Geralmente pensamos da seguinte forma:

Serei feliz quando…
…encontrar aquela pessoa especial
…conseguir um novo emprego
…mudar de cidade
…ganhar mais dinheiro

Buscamos, então, atingir esses objetivos, que nos trará o tão sonhado bem estar. E o que percebemos? Que, na maior parte das vezes, mesmo quando conseguimos o que queremos, nossa satisfação diminui e voltamos a ter o mesmo nível de bem estar anterior. E aí passamos a querer algo novo, o que nos faz precisar ficar sempre correndo atrás para na verdade não sair do lugar em termos de felicidade.

Você pode me perguntar: “bom, então não tem como eu me sentir melhor ou ser mais feliz?” É uma boa pergunta. O que acontece é que há uma forma de se viver melhor: mudando a nossa percepção sobre a vida. As mudanças internas, a forma como pensamos, como encaramos as adversidades e as conquistas podem ajustar o nosso nível geral de felicidade. Ou seja, a busca é voltada para dentro, não para fora.

Tudo isso também não quer dizer que seja errado ir atrás de conquistas materiais. É só ter consciência de que a felicidade não está nelas e que elas não poderão fazer com que sua satisfação com a vida seja alterada por muito tempo. Podemos encarar as perdas da mesma forma, o que pode ser animador. O importante é lembrar que as mudanças mais significativas e permanentes acontecem aí dentro de você.

Referência:
Brickman, P., & Campbell, D. T. (1971). Hedonic relativism and planning the good society. New York: Academic Press. pp. 287–302.

Pensamentos “tenho que”

Muitos aspectos da psicologia moderna convergem com ensinamentos da filosofia oriental. Tomemos por base o trecho de Ajahn Sumedho, monge budista:

Robb North
Robb North

Nosso sofrimento vem do apego que temos com ideais, e da forma complexa que criamos a respeito de como as coisas são. Nunca somos o que devemos ser de acordo com nossos ideais mais altos. A vida, os outros, o país em que vivemos, o mundo em que vivemos – as coisas nunca parecem ser o que deveriam. Tornamo-nos muito críticos de tudo e de nós mesmos: “eu sei que deveria ser mais paciente, mas eu não consigo ser paciente”… Veja todos os “devos” e “não devos” e os desejos: querer o agradável, querer se tornar algo ou se livrar do feio e do doloroso. É como se houvesse alguém atrás da cerca dizendo, “eu quero isto e não gosto daquilo”. As coisas devem ser deste jeito e não daquele jeito.” Use seu tempo para ouvir a mente reclamando; traga-a para a consciência.

Na psicologia cognitiva atual, defende-se que muitas das nossas dificuldades estão baseadas em percepções errôneas sobre o mundo. Essas percepções errôneas são chamadas de distorções cognitivas.

Uma das categorias dessas concepções erradas se refere justamente à “ditadura dos deveria”, quando pensamos que deveríamos fazer isso ou aquilo, ser de um jeito ou de outro, ou que as coisas deveriam ser desse ou daquele modo. Esse tipo de pensamento causa angústia, pois, obviamente, é impossível controlar a si mesmo e a todos para que tudo seja do jeito que acreditamos que deve ser.

Uma mudança de perspectiva envolve aceitar as coisas tais como são, inclusive nós mesmos. Quando entendemos a relação entre os eventos e como cada “coisa” é apenas uma contingência para outra, percebemos que o mundo ideal que imaginamos, ou a pessoa ideal que pretendemos ser é apenas uma fantasia que causa sofrimento. Quando condicionamos a nossa felicidade ao dia em que nos tornarmos tudo aquilo que queremos ser, na verdade estamos nos condicionando à infelicidade, porque tal estado é inatingível – e, mesmo que fosse possível, ainda assim não nos traria plenitude.