Abrir mão: chave para a flexibilidade

Foto: Mr. Teklan
Foto: Mr. Teklan

“As pessoas têm dificuldade em abrir mão do seu sofrimento. Por causa do medo do desconhecido, elas preferem o sofrimento familiar.”
Thich Nhat Hanh

Um dos temas mais frequentes nas filosofias orientais é a necessidade de abrir mão, de nos desapegar, de deixar ir, de forma que tudo flua mais naturalmente. Apesar de ser uma mensagem simples e direta, pode ser difícil, para nós do ocidente, entender a razão e o benefício de uma atitude dessas. Afinal de contas, na nossa cultura, somos estimulados ao contrário: a ter, a possuir, a nos apegar — especialmente ao material — e a conquistar. Parece que se abrirmos mão, nos tornaremos passivos, apáticos e distantes daquilo que desejamos. Só que pode ser justamente ao contrário, especialmente se encararmos isso numa perspectiva psicológica.

Uma dos principais objetivos da psicologia clínica é desenvolver a flexibilidade psicológica. Quanto mais flexíveis somos, melhor conseguimos navegar pelas tormentas a que estamos sujeitos ao longo da nossa existência. E a flexibilidade se reflete muito na nossa capacidade de abrir mão. Ao contrário do que parece, abrir mão pode tornar nossa vida e nossa experiência muito mais rica.

Imagine que você, ao longo de um caminho, vá encontrando uma série de pedras. Elas aparecem em diferentes formatos, cores e tamanhos. Você vai escolhendo algumas dessas pedras, até que enche seus bolsos, suas mãos, carregando o máximo delas que consegue. Depois de um tempo, fica difícil andar por causa do peso. Você cansa muito mais fácil, e não raramente passa muito tempo no mesmo lugar, apenas juntando forças para conseguir prosseguir, carregando todas as pedras. Como suas mãos e bolsos já estão cheios, você não pode mais pegar nenhuma pedra que encontra.

As pedras são aquilo que escolhemos levar conosco durante nosso trajeto. Elas podem ser bem concretas, como pessoas, trabalhos, bens materiais, e também podem ser intangíveis, como lembranças, regras, expectativas, desejos. Se não conseguimos nunca soltá-las, podemos ficar cada vez mais paralisados, vivendo com pesar e nos sentindo sobrecarregados. Percebemos isso quando nos dizemos coisas como:

  • Gostaria muito de trabalhar com o que gosto, mas não consigo deixar meu emprego;
  • Gostaria de parar de beber, mas preciso manter uma imagem legal para meus amigos;
  • Gostaria de ser uma pessoa diferente, mas não posso desviar do que minha família espera de mim;
  • Gostaria de aproveitar melhor o presente, mas não consigo deixar de lembrar como minha vida já foi melhor;
  • Gostaria de não brigar com meu colega, mas não posso deixar de impor minhas ideias;
  • Gostaria de mudar de cidade, mas não quero perder tudo que já investi aqui;
  • Gostaria de sair desse relacionamento que não dá certo, mas será que meu namorado(a) não pode mudar se eu insistir mais um pouco?

Podemos ver que aquilo a que nos apegamos e que nos impede de viver melhor muitas vezes só existe na nossa cabeça: é a nossa autoimagem, as nossas expectativas, aquilo que imaginamos que os outros esperam de nós, uma lembrança do passado ou uma esperança em algo futuro. Por medo da perda, da insegurança e do desconhecido, nos condenamos a uma vida frustrante e rígida. E, muitas vezes, esses pesos que carregamos nem foram escolhidos por nós mesmos: foram colocados sobre nossas costas por outros — não raro tentando aliviar o próprio fardo.

Abrir mão não significa desistir, mas sim nos libertar dos pesos que nos imobilizam, especialmente aqueles que não escolhemos e que não são reais. É deixar de lado as lembranças, as expectativas, a preocupação com a própria imagem, e tudo aquilo que vivemos que não está de acordo com o caminho que queremos traçar, como um emprego ou um relacionamento. Esvaziando os bolsos, podemos andar mais livremente, ir mais longe e caminhar com leveza. Continuaremos carregando algumas pedras, mas que sejam as pedras preciosas que dão sentido à nossa vida, aquelas que carregamos com alegria.

Insegurança: nosso grande segredo

Foto: Lauren Rushing
Foto: Lauren Rushing

“A tarefa que precisamos nos colocar não é de nos sentirmos seguros, mas a de tolerar a insegurança.”
Erich Fromm

Em 2011, participei de um workshop com Kelly G. Wilson no XX encontro da ABPMC em Salvador. Um dos fundadores da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), Wilson contou que em uma de suas oficinas, solicitou que os participantes escrevessem anonimamente, qual o seu problema mais essencial, íntimo, secreto. Surpreendentemente, as declarações eram muito semelhantes: “não sou bom o suficiente”, “não sou digno de ser amado”, “não sou inteligente”, “machuquei pessoas importantes para mim”, “sou feio” etc. Todas as respostas giravam em torno dessa autocondenação que nos persegue constantemente.

Todos nós temos esse segredo essencial — você também tem o seu e deve saber qual é; se não souber, basta um pouco de reflexão para chegar lá — e tentamos ao máximo esconder isso dos outros, às vezes de nós mesmos. Quando nos sentimos muito mal com esse nosso problema, olhar para as pessoas à nossa volta pode criar uma angústia ainda maior. Pois, assim como você, o outro também tenta esconder muito bem suas dificuldades essenciais e mostrar apenas uma face bem resolvida, confiante, segura. Todos nós temos os mesmos problemas e todos nós tentamos ocultá-los. Irônico, não? Ou seja, quem aparenta segurança apenas esconde bem a sua insegurança. Mesmo grandes artistas tremem antes de entrar no palco, não importa quantas vezes já tenham feito isso.

Toda vez que eu recebo uma nova pessoa buscando atendimento no consultório, sinto-me inseguro: “será que serei capaz de entender essa pessoa?”, “terei habilidade para ajudá-la?”, “ela vai gostar de mim?”, “vai voltar?”, “vai melhorar?”. No começo da minha carreira, sentir isso era particularmente angustiante. Hoje, ainda é difícil, mas sei que essa sensação é uma parte natural do processo — penso inclusive que a insegurança me torna um profissional melhor, pois me leva a avaliar o que faço, pedir a opinião de colegas e a mudar sempre que for necessário. Viver com essa nossa grande insegurança pode nos levar a gastar muita energia, especialmente com atitudes compensatórias. Acreditamos que vamos nos sentir melhor com as nossas falhas se ganharmos bastante dinheiro, se tivermos um cargo importante, se estivermos num relacionamento com alguém de ótima aparência. Só que essas “conquistas” nunca conseguem realmente tapar o buraco. E às vezes não percebemos como isso é inútil, ao continuamos tentando resolver o problema da mesma forma, pensando que se não estamos felizes é porque precisamos de ainda mais dinheiro, mais status, mais reconhecimento.

O fato é que buscar segurança, especialmente externamente, é um tiro no pé. Temos muito pouco controle sobre o que acontece conosco, de modo que tentar controlar o mundo gera ansiedade e frustração. Isso não quer dizer que devamos nos acomodar. Pelo contrário, devemos sempre fazer o melhor possível. Mas porque queremos viver de acordo com o que é importante para nós, sabendo que os resultados não estão nas nossas mãos. Se você quer viver de forma menos ansiosa, viva de acordo com seus valores, não em função dos resultados que quer provocar.

Se você está familiarizado com a língua inglesa, recomendo que acesse o site PostSecret. Esse site reúne cartões postais que as pessoas enviam com seus segredos. No meio das confissões, traumas e culpas que as pessoas ali conseguem expressar apenas veladamente, percebemos o quanto a nossa condição é comum, quanto temos vergonha daquilo que somos e o quanto pode ser difícil viver. Por outro lado, é inevitável, ao ler esses segredos, sentir uma grande compaixão por essas pessoas que são nossas irmãs no sofrimento. Queremos estender a mão e dizer a elas que entendemos, que é possível superar aquilo pelo qual elas estão passando, que elas não precisam se envergonhar. Mas, ao mesmo tempo, temos uma enorme dificuldade em direcionar essa atitude compassiva para nós mesmos. Por que será? Não merecemos, tanto quanto o outro, uma boa dose de compreensão e compaixão? Acredito que sim. E que uma vida boa talvez não signifique afastar as inseguranças a ponto de não sentirmos mais nada de negativo, e sim conseguirmos estender a mão para nós mesmos frente às dificuldades.

Crises e oportunidades

“Se por acaso ficamos doentes, então sejamos apenas doentes. Sem fugir, sem nos enganar, enfrentando a doença com a postura correta, acolhendo-a de braços abertos. A doença nos abre as portas para uma nova vida, que não podemos enxergar quando estamos saudáveis. Desta maneira, até a doença pode se tornar agradável e gratificante. Podemos ver claramente a enorme bênção que é a vida.
Quanto mais conhecemos a dor, mais reconhecemos esse fato.
Com esta postura, é possível aceitar os momentos de doença, transformando a experiência do mal-estar num valioso recurso.”

Shundo Aoyama Rôshi

Foto: Margot Gabel
Foto: Margot Gabel

Soa banal falar que crises são oportunidades. É provável que você já tenha lido isso em algum livro de autoajuda ou em alguma revista de economia. No entanto, existem algumas verdades que são banais. Quando estou com as pessoas que atendo, vejo que essa é uma delas. Muitas mudanças se originam de um problema, de uma situação difícil — geralmente o próprio ato de procurar uma psicoterapia vem como tentativa de passar pela crise. O trabalho do psicólogo é oferecer apoio e conforto, mas sobretudo fazer com que a pessoa aproveite da melhor forma aquilo pelo que ela está passando.

Quando alguém chega no consultório com uma crise complicada, sempre me pergunto: “será que essa pessoa vai sucumbir a isso ou emergirá desse momento mais forte e mais feliz”? O esforço sempre é para que a segunda alternativa aconteça. Cada pessoa terá que encontrar o próprio caminho em meio às suas dificuldades, mas há algumas etapas que podem facilitar esse processo. São elas:

1. Conviva com os sentimentos negativos
Quando estamos em crise, queremos tanto nos livrar do que estamos sentindo que podemos ficar cegos a todo o resto. Se nossa única preocupação for acabar com aquele sentimento — algo que está fora do nosso controle — podemos ter o resultado contrário, que é prolongar a crise e não conseguir olhar para o que a situação nos mostra. Nessa hora, é importante lembrar que aquilo que estamos sentindo vai mudar, de um jeito ou de outro, mas que por um tempo vamos ter que conviver com essa sensação desagradável, que pode ser tristeza, raiva, decepção, luto. Tente enxergar esse sentimento como um companheiro que vai estar presente nesse momento, indicando o caminho para a mudança.

2. Descubra o que a situação diz sobre como você age
Existem coisas ruins que simplesmente acontecem, mas tem outras que podem dizer muito sobre a forma como vivemos. Podemos prestar atenção nas nossas atitudes que podem ter relação com as crises, especialmente quando estas são recorrentes. Será que a crise diz algo sobre a sua forma de encarar a vida? Sobre as expectativas que você cria? Sobre a forma como você se relaciona com outros? Sobre como você lida com seu trabalho? Sobre a forma como você tem tentado ficar bem? Você pode buscar, nas horas de tristeza e dificuldade, um momento de paz para que possa refletir sobre o que tem dado certo ou não na própria vida. Nós não costumamos ter essas reflexões quando está tudo bem. A crise, então, abre um espaço para que isso aconteça.

3. Tenha gratidão
Passar bem por crises significa desenvolver nossa capacidade de tolerar os sentimentos negativos, criar momentos para reflexão e de solucionar problemas. Muitas vezes, é quando conseguimos deixar para trás algo que nos fazia mal. A partir disso, é possível enxergar a situação como positiva apesar da dor que ela causa, e até agradecer por ter a oportunidade de ter mais liberdade para encaminhar a vida da forma que se deseja.

4. Tenha compaixão
Muitas das crises pelas quais passados são causadas por outras pessoas. Um familiar, um colega de trabalho, alguém com quem temos um relacionamento afetivo, ou até mesmo um desconhecido que nos faz algum mal. Se você consegue enxergar a crise como positiva, pode também ver com bons olhos quem iniciou essa crise. Além disso, em diversas situações em que somos agredidos ou atacados, quem faz isso faz por conta dos seus próprios problemas. Desenvolver uma visão mais compassiva do outro é algo que nos ajuda a tolerar a própria crise e os sentimentos negativos gerados por ela.

5. Use o que você aprendeu com a crise para mudar
A partir do momento em que você é capaz de conviver com os sentimentos negativos e reconhecer quais as atitudes que você vem tomando e que têm trazido dificuldades, há um cenário muito favorável à mudança. Além disso, quando estamos mal, temos menos a perder, então é o momento propício para fazer aquilo que sempre almejamos mas não tivemos coragem. Quanto mais perdemos, mais abertura temos para experimentar as mais variadas possibilidades.

Já tive a chance de trabalhar com pessoas que conseguiram usar momentos de crise para impulsionar mudanças incríveis nas próprias vidas. Não é um processo fácil. É doloroso e envolve abandonar muitas formas de agir mais confortáveis. Mas a recompensa é significativa para aquele que decide deixar para trás o “ruim conhecido” e se arriscar com o novo.