Seis maneiras em que a psicoterapia pode ser invalidante

A psicoterapia pode ser um espaço em que podemos falar livremente, nos expor, sem o receio de sermos julgados. É um ambiente em que temos a possibilidade de abandonar, ainda que brevemente, as pressões sociais, as identidades que somos forçados a abraçar, as expectativas que recaem sobre nossos ombros. Só estar num lugar livre como esse já tem um efeito terapêutico, e há quem arrisque dizer que esse é, no fim das contas, o principal benefício da terapia.

Entretanto, nem sempre o espaço terapêutico é constituído dessa forma. Ou por inabilidade do terapeuta — e reconheço que posso ter falhado nisso com algumas pessoas que já atendi — ou especialmente por desinformação e ausência de crítica. A maior parte das formações em psicologia e dos cursos de especialização não constroem uma visão crítica sobre a lógica que há por trás dos tratamentos psicológicos. Tanto os transtornos mentais como seus tratamentos são vistos como “neutros” e “científicos”. Entretanto, se adotamos a perspectiva de que o sofrimento psicológico não é uma “doença” tal qual uma tuberculose, estando ligado a questões sociais e contextuais, a forma de enxergá-lo vai necessariamente implicar num posicionamento frente a esses fatores. Consequentemente, ao não se dar conta das lógicas implícitas nos modelos de “tratamento” o psicólogo estará endossando uma certa perspectiva sem nem perceber.

Como resultado, a psicoterapia, em vez de um espaço de abertura e segurança, pode se tornar um ambiente invalidante para a pessoa que é atendida e, às vezes, até coercitivo. Vejamos algumas formas em que isso pode acontecer.

  1. Achar que a pessoa precisa se encaixar num modelo de “funcionamento”

Quando encaramos o sofrimento psicológico como uma “doença” comum, acreditamos que a “cura” é fazer a pessoa voltar a algum tipo de “normalidade” — normalidade essa que é ditada por manuais criados por “especialistas” ou baseada na opinião do próprio terapeuta. Isso significa que será construído um molde ideal relacionado aos comportamentos, pensamentos ou sentimentos que a pessoa deve ter, e o objetivo da terapia será fazer com que a pessoa se aproxime ao máximo desse modelo. Muitas vezes não se discute com a pessoa atendida sobre esse ideal, apenas parte-se do pressuposto de que será o melhor pra ela, ou até mesmo que ela não tem condições de participar dessa avaliação. Um exemplo: já vi uma supervisora dizendo a uma terapeuta iniciante que esta deveria convencer sua cliente a não engravidar, pois, segundo a supervisora, a cliente não tinha condições de ter filhos.

  1. Encarando experiências como distorcidas ou disfuncionais

Visão encontrada especialmente na Terapia Cognitivo Comportamental, argumenta que os transtornos mentais são, em sua essência, erros de interpretação. A pessoa sofreria porque interpreta a realidade de maneira errada — as tais distorções cognitivas — e por isso precisaria aprender a enxergar a realidade de uma maneira “adequada”. Embora eu concorde que há um valor terapêutico em tentar ver as coisas como elas são, essa perspectiva pode ser muito invalidante por negar ou diminuir a experiência da pessoa, especialmente ao considerar que as reações emocionais são “exageradas” ou “desproporcionais”. Veja que, para se dizer isso, parte-se da opinião do terapeuta (ou dos livros) sobre o que deveria ser uma reação “adequada” para uma certa situação. Há também, nas entrelinhas, a lógica liberal ocidental de que devemos agir sempre baseados na racionalidade.

  1. Achar que tudo está na sua cabeça

Uma derivação do ponto anterior é que passa-se a ter a ideia de que todos os problemas que a pessoa enfrenta são “coisas da cabeça dela”, ou da sua incapacidade de se relacionar com o mundo de uma forma “correta”. Com isso, é muito fácil que o terapeuta desconsidere contextos históricos, sociais e econômicos na vida da pessoa. Encara-se alguém que está tendo crises de pânico num momento de vida em que sofre assédio do chefe, ganha pouco e trabalha muito como tendo “um padrão de funcionamento ansioso” que precisa ser ajustado. O resultado disso é que a pessoa que já está em sofrimento ainda tem que resolvê-lo, sendo que as causas do seu sofrimento estão fora de seu alcance! Essa perspectiva certamente leva a mais sofrimento, em vez de amenizá-lo.

Veja que também existe, nesse ponto, uma agenda política. Quando se foca no indivíduo e se faz acreditar que está tudo na cabeça dele, ignorando os contextos insalubres em que vivemos, tiramos qualquer possibilidade de questionar esses contextos, e mais ainda de se adotar qualquer tipo de ação para mudá-los.

  1. Culpar a vítima

Algo que vejo com alguma frequência no relato de pessoas em terapia é uma postura de culpabilização, por parte do terapeuta, em relação a algo de negativo pelo qual a pessoa passou. Alguns comentários chegam no ponto de seguir a velha linha do “se você apanhou, é porque alguma coisa deve ter feito”. Eu entendo que há, na psicoterapia, uma ideia de fazer com que a pessoa assuma responsabilidade pelas suas escolhas. Entretanto, caso isso não seja feito com muito cuidado, pode-se acabar culpabilizando pessoas que estão em situações de abuso, violência ou assédio. Mesmo o comentário: “apenas saia da situação”, nem sempre ajuda, pois pode ser difícil para alguém sair de uma situação, por mais abusiva que ela seja, sem ter apoio suficiente. As situações devem ser sempre vistas em sua totalidade, considerando de maneira cuidadosa os contextos em que a pessoa está inserida e entender todas as dificuldades que ela possa ter inclusive para reagir à violência.

  1. Tentar encaixar a pessoa atendida numa visão teórica

Psicoterapeutas amam as suas abordagens. Além de uma identificação pessoal, muitas vezes há um engajamento muito grande com uma linha específica de pensamento, com investimento em cursos, livros, congressos, supervisões. Passa-se a fazer parte de um grupo e esse pertencimento envolve falar no “idioma” da abordagem, com suas terminologias específicas e, é claro, usar as análises e técnicas correspondentes nos atendimentos. O problema é que a realidade está sempre além de qualquer modelo. Faz parte dessa realidade a experiência da pessoa atendida, especialmente em relação ao seu sofrimento. Se o terapeuta está preocupado demais com a sua análise e em como encaixar a pessoa em categorias teóricas ou diagnósticas, pode não estar presente, não estar de fato em sintonia com o que a pessoa está trazendo. Pior ainda é se a análise é invalidante, quando por exemplo culpabiliza indevidamente a pessoa pelo próprio sofrimento. A psicoterapia, para não ser invalidante, precisa colocar a pessoa atendida acima da teoria e da técnica.

  1. Ignorar que a psicoterapia pode ser (e geralmente é) uma relação de poder

A pessoa que procura e faz psicoterapia o faz, costumeiramente, a partir de uma posição de sofrimento, que implica em vulnerabilidade e exposição. O terapeuta, por sua vez, é visto como detentor de conhecimento, soluções e julgamentos clínicos. No geral, aprendemos na nossa formação em psicologia e psicoterapia que devemos falar pouco de nós mesmos. O argumento é que a terapia deve ser voltada para a pessoa atendida, mas acho que o real motivo é que se o terapeuta não se expõe, ele mantém mais facilmente esse lugar de poder. Talvez seja impossível remover totalmente esse componente de poder da relação terapêutica, mas é possível que tanto terapeuta quanto a pessoa atendida tenham consciência dele, pois assim é mais fácil evitar situações de invalidação e coerção por parte do terapeuta.

A maior parte dos terapeutas é bem-intencionada. São movidos por um desejo genuíno de ajudar o outro e são empáticos em relação ao seu sofrimento. Entretanto, as teorias e a formação em psicoterapia não explicitam claramente a relação de poder, o ideal de ser humano e as posições ideológicas e filosóficas por trás das propostas terapêuticas. Muitas delas podem levar a posturas invalidantes ou dificuldades na compreensão real da dor de quem é atendido. Tanto terapeutas quanto quem faz terapia deve estar ciente das maneiras em que ela pode ser benéfica e quando ela pode ser nociva. Apenas com essa consciência e com profissionais e pacientes falando abertamente dessas questões isso será possível.

Foto: Thabita Turner

A medida do sofrimento

As pessoas nunca estarão convencidas dos seus motivos, da sua sinceridade, da seriedade do seu sofrimento, exceto pela sua morte. Enquanto você viver, seu caso será duvidoso; você terá o direito apenas ao ceticismo.
Albert Camus

Não há nada tão universal quanto o sofrimento humano. Além do sofrimento em si, também compartilhamos os motivos das nossas dores. Independentemente de nossas origens, raça, gênero, idade, nacionalidade, condições socioeconômicas, todos sentiremos ao perder alguém, ao vermos quem amamos sofrendo, ao sermos rejeitados, ao percebermos o mundo como um lugar hostil, ao não termos nossas necessidades atendidas.

Se por um lado o sofrimento está sempre lá pelos mesmos motivos, por outro, a forma como lidamos com o nosso próprio sofrimento pode variar significativamente. Entre a resignação e a revolta, há muitas nuances. Mas algo que vejo com certa frequência — e que torna a experiência da dor ainda mais angustiante — é a invalidação do sofrimento, que muitas vezes é reproduzida pela própria pessoa.

“Eu não deveria me sentir assim”, “eu não deveria reclamar disso”, “tem gente pior do que eu” são frases comuns. Não é difícil imaginar porque dizemos isso: costumamos ouvir que, como há pessoas em situações piores, nosso sofrimento é descabido e injustificado. Ou, como existem pessoas que não sofrem por aquilo que sofremos, a nossa experiência é “exagerada”. A ideia é que se temos o mínimo, ou mais do que o mínimo, não temos o direito de sofrer. Segundo essa lógica, o sofrimento só seria “justo” se fôssemos a pessoa mais miserável do mundo, em todos os sentidos. Ou, se por alguma razão alguém consegue passar por uma situação parecida sem sofrer, nós também deveríamos conseguir.

Se é possível olhar de forma objetiva para condições de vida de um grupo ou até mesmo de uma pessoa, não é possível traçar uma medida do sofrimento individual. Não é possível colocar um crivo na experiência humana, seja ela qual for. Determinar se o sofrimento de uma pessoa é justo ou não a partir de uma análise da suas circunstâncias, de seu contexto, é negar à pessoa a sua própria humanidade, ou invalidá-la.

Cada pessoa tem uma trajetória, que na sua essência está muito pouco sob o seu próprio controle. Não escolhemos em que família nascemos, não controlamos sob qual sistema político e econômico estamos sujeitos, não filtramos as nossas influências nos primeiros anos de vida. Não temos controle sobre o quanto afeto receberemos, se seremos abusados ou como será nossa educação. Todas essas experiências incontroláveis compõem um amálgama de onde surgirão impressões, referências, expectativas que nos acompanharão por toda a vida. De certa maneira, essa soma de experiências vai determinando a forma como particularizamos sofrimentos universais.

Por isso, não é aceitável que alguém diga, baseado em qualquer argumento, que nossa dor está “errada” ou que estamos “exagerando”. E nos cabe notar quando nós mesmos fazemos isso, provavelmente por já termos ouvido essa avaliação vezes e vezes. Já vi até em livros de psicologia a sugestão de se comparar com gente em pior situação como estratégia para lidar com a própria dor. Comparar dores e sofrimentos de maneira objetiva não é justo com nenhum dos envolvidos. Outra sugestão em livros sobre psicoterapia é avaliar se a dor é “proporcional” à situação, dando ao terapeuta o poder de decretar como válida ou não a experiência da pessoa(!). Melhor seria reconhecermos os nossos sofrimentos como algo que é impossível de submeter a qualquer parâmetro ou possibilidade de comparação.

Aceitar a própria trajetória é um dos requisitos para se trazer alguma paz, pois é possível identificar quão pouca “culpa” temos pelos desdobramentos da nossa própria vida. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer realidade da nossa experiência. Entender o próprio sofrimento a partir da nossa história pessoal e subjetiva, mais do que apenas as circunstâncias objetivas de vida, é fundamental para podermos concluir que nossas dores são sempre certas, sempre justas, sempre válidas.

Foto de Jonatán Becerra.

David Smail e sua crítica à psicoterapia

Não sei exatamente como cheguei nos livros e David Smail. Sei que, em 2015, li o primeiro, chamado Illusion and Reality, e cheguei a publicar um texto aqui sobre o mito da normalidade. Esse era o título do primeiro capítulo do livro, em que o autor oferece uma guinada na visão comum da psicologia — e até então a que eu tinha: em vez de focar no indivíduo e seus “transtornos”, Smail dá muito mais atenção à sociedade em que vivemos e seus efeitos na saúde mental das pessoas. De uma maneira muito elegante, ele segue na linha de outros autores, como Thomas Szasz, que questionam os conceitos de doença mental e as práticas da psicoterapia e da psiquiatria.

David Smail era um psicólogo britânico, nascido em 1938 em Putney, um distrito no sudoeste de Londres. Filho de um corretor de seguros, ele estudou psicologia na University College London e obteve seu PhD em psicologia no ano de 1965. Desde 1961, trabalhou no NHS (o sistema de saúde britânico) e escreveu vários livros sobre a relação entre questões sociais e psicologia e a prática da psicoterapia. Faleceu em 2014, aos 76 anos.

Há um trecho de seu livro Illusion and Reality que costumo compartilhar com as pessoas que atendo.

Uma boa parte da nossa vida é gasta num esforço desesperado para persuadir os outros que não somos aquilo que tememos ser, ou o que eles podem descobrir que somos se puderem enxergar através dos nossos fingimentos. A maior parte das pessoas, a maior parte do tempo, tem uma noção profunda e infeliz do contraste entre o que elas são e o que elas deveriam ser.

Como consequência disso, gastamos uma quantidade enorme de tempo e energia em impedir os outros de ver o nosso eu ‘verdadeiro’ e vergonhoso, construindo aquilo que achamos que será uma versão pública aceitável de nós mesmos, mas que sabemos que é apenas uma casca vazia (a menos, é claro, que passemos a acreditar no nosso próprio personagem, nos deixando enganar pela nossa própria ‘imagem’).

A partir dessa visão, meu foco na terapia foi gradualmente deixando de ser a adequação das pessoas a um ideal construído socialmente e internalizado, e passou a ser uma ideia de que as pessoas são normais e nossos sofrimentos são comuns. Passei a entender que a busca por atingir esse ideal impossível era um problema maior do que não sê-lo, nos deixando emocionalmente desgastados e impedindo de viver a parcela de vida que pode existir relativamente livre de pressões sociais.

Smail aprofunda sua crítica à psicoterapia em outros livros. Em um deles, chamado The Origins of Unhapinness, ele argumenta que o nosso sofrimento advém das estruturas de poder a que estamos submetidos (algo muito negligenciado na literatura psicológica) e sobre as quais temos muito pouco controle:

Precisamos entender que, mais do que o paciente ser um problema para o mundo, o mundo é um problema para o paciente. Somos os produtos corporificados do espaço-tempo. Para fazer alguma diferença em nossas vidas, temos que ter algum tipo de influência no ambiente para fazê-lo, do nosso ponto de vista, um pouco mais benigno. Não somos nós que temos que mudar, e sim o mundo à nossa volta. Ou, colocando de outra forma, a extensão em que podemos mudar sempre dependerá de alguma mudança material nas estruturas de poder que nos envolvem.

Essa noção coloca um grande problema para a psicologia. Os psicólogos gostam de criar entidades internas obscuras para explicar o sofrimento e o comportamento das pessoas. Seja o “inconsciente”, as “crenças”, os “condicionamentos”, é sempre algo misterioso que só pode ser lido e compreendido por eles. Isso é feito porque legitimiza o poder do psicólogo e da prática psicológica, em que ele é o detentor de um conhecimento mágico — ainda que disfarçado de científico — que, se corretamente “tratado”, produzirá alterações na pessoa e ela finalmente será “resolvida”. O terapeuta, assim, cria um engodo que envolve a ele e a pessoa atendida. Não que isso seja sua intenção clara — nós aprendemos a enxergar a terapia dessa forma.

Só que, enquanto isso, as reais causas de sofrimento e problemas psicológicos, como as condições de trabalho violentas, as dificuldades econômicas, a lógica de competição e individualismo continuam fora do foco. Mas não é interessante ao psicólogo olhar para esses aspectos, pois eles estão muito além do alcance do consultório. E a pessoa atendida, se continua em sofrimento (o que é provável, já que as suas causas continuam lá) fica ainda mais angustiada, acreditando que o problema está nela mesma, mas ela não consegue achá-lo — e muito menos eliminá-lo.

Quebrar esse paradigma significa, entre outras coisas, aceitar que o alcance da psicoterapia, no modelo atual, é bastante limitado. Segundo o próprio Smail, ela pode oferecer conforto, clarificação e encorajamento. E não há nada de errado com isso, desde que ela assuma seu real caráter e suas limitações. Ao fazer isso, pelo menos ela tiraria da pessoa atendida o peso de ter que “se resolver”, enquanto continua sofrendo por causas que ela não controla — o que, se formos pensar, é extremamente cruel.

Referências:
Smail, D. (2018). The origins of unhappiness: A new understanding of personal distress. Routledge.
Smail, D. (2018). Illusion and reality: The meaning of anxiety. Routledge.
Obituário: https://www.theguardian.com/science/2014/aug/17/david-smail

Foto: Stéphane Juban