A medida do sofrimento

As pessoas nunca estarão convencidas dos seus motivos, da sua sinceridade, da seriedade do seu sofrimento, exceto pela sua morte. Enquanto você viver, seu caso será duvidoso; você terá o direito apenas ao ceticismo.
Albert Camus

Não há nada tão universal quanto o sofrimento humano. Além do sofrimento em si, também compartilhamos os motivos das nossas dores. Independentemente de nossas origens, raça, gênero, idade, nacionalidade, condições socioeconômicas, todos sentiremos ao perder alguém, ao vermos quem amamos sofrendo, ao sermos rejeitados, ao percebermos o mundo como um lugar hostil, ao não termos nossas necessidades atendidas.

Se por um lado o sofrimento está sempre lá pelos mesmos motivos, por outro, a forma como lidamos com o nosso próprio sofrimento pode variar significativamente. Entre a resignação e a revolta, há muitas nuances. Mas algo que vejo com certa frequência — e que torna a experiência da dor ainda mais angustiante — é a invalidação do sofrimento, que muitas vezes é reproduzida pela própria pessoa.

“Eu não deveria me sentir assim”, “eu não deveria reclamar disso”, “tem gente pior do que eu” são frases comuns. Não é difícil imaginar porque dizemos isso: costumamos ouvir que, como há pessoas em situações piores, nosso sofrimento é descabido e injustificado. Ou, como existem pessoas que não sofrem por aquilo que sofremos, a nossa experiência é “exagerada”. A ideia é que se temos o mínimo, ou mais do que o mínimo, não temos o direito de sofrer. Segundo essa lógica, o sofrimento só seria “justo” se fôssemos a pessoa mais miserável do mundo, em todos os sentidos. Ou, se por alguma razão alguém consegue passar por uma situação parecida sem sofrer, nós também deveríamos conseguir.

Se é possível olhar de forma objetiva para condições de vida de um grupo ou até mesmo de uma pessoa, não é possível traçar uma medida do sofrimento individual. Não é possível colocar um crivo na experiência humana, seja ela qual for. Determinar se o sofrimento de uma pessoa é justo ou não a partir de uma análise da suas circunstâncias, de seu contexto, é negar à pessoa a sua própria humanidade, ou invalidá-la.

Cada pessoa tem uma trajetória, que na sua essência está muito pouco sob o seu próprio controle. Não escolhemos em que família nascemos, não controlamos sob qual sistema político e econômico estamos sujeitos, não filtramos as nossas influências nos primeiros anos de vida. Não temos controle sobre o quanto afeto receberemos, se seremos abusados ou como será nossa educação. Todas essas experiências incontroláveis compõem um amálgama de onde surgirão impressões, referências, expectativas que nos acompanharão por toda a vida. De certa maneira, essa soma de experiências vai determinando a forma como particularizamos sofrimentos universais.

Por isso, não é aceitável que alguém diga, baseado em qualquer argumento, que nossa dor está “errada” ou que estamos “exagerando”. E nos cabe notar quando nós mesmos fazemos isso, provavelmente por já termos ouvido essa avaliação vezes e vezes. Já vi até em livros de psicologia a sugestão de se comparar com gente em pior situação como estratégia para lidar com a própria dor. Comparar dores e sofrimentos de maneira objetiva não é justo com nenhum dos envolvidos. Outra sugestão em livros sobre psicoterapia é avaliar se a dor é “proporcional” à situação, dando ao terapeuta o poder de decretar como válida ou não a experiência da pessoa(!). Melhor seria reconhecermos os nossos sofrimentos como algo que é impossível de submeter a qualquer parâmetro ou possibilidade de comparação.

Aceitar a própria trajetória é um dos requisitos para se trazer alguma paz, pois é possível identificar quão pouca “culpa” temos pelos desdobramentos da nossa própria vida. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer realidade da nossa experiência. Entender o próprio sofrimento a partir da nossa história pessoal e subjetiva, mais do que apenas as circunstâncias objetivas de vida, é fundamental para podermos concluir que nossas dores são sempre certas, sempre justas, sempre válidas.

Foto de Jonatán Becerra.

David Smail e sua crítica à psicoterapia

Não sei exatamente como cheguei nos livros e David Smail. Sei que, em 2015, li o primeiro, chamado Illusion and Reality, e cheguei a publicar um texto aqui sobre o mito da normalidade. Esse era o título do primeiro capítulo do livro, em que o autor oferece uma guinada na visão comum da psicologia — e até então a que eu tinha: em vez de focar no indivíduo e seus “transtornos”, Smail dá muito mais atenção à sociedade em que vivemos e seus efeitos na saúde mental das pessoas. De uma maneira muito elegante, ele segue na linha de outros autores, como Thomas Szasz, que questionam os conceitos de doença mental e as práticas da psicoterapia e da psiquiatria.

David Smail era um psicólogo britânico, nascido em 1938 em Putney, um distrito no sudoeste de Londres. Filho de um corretor de seguros, ele estudou psicologia na University College London e obteve seu PhD em psicologia no ano de 1965. Desde 1961, trabalhou no NHS (o sistema de saúde britânico) e escreveu vários livros sobre a relação entre questões sociais e psicologia e a prática da psicoterapia. Faleceu em 2014, aos 76 anos.

Há um trecho de seu livro Illusion and Reality que costumo compartilhar com as pessoas que atendo.

Uma boa parte da nossa vida é gasta num esforço desesperado para persuadir os outros que não somos aquilo que tememos ser, ou o que eles podem descobrir que somos se puderem enxergar através dos nossos fingimentos. A maior parte das pessoas, a maior parte do tempo, tem uma noção profunda e infeliz do contraste entre o que elas são e o que elas deveriam ser.

Como consequência disso, gastamos uma quantidade enorme de tempo e energia em impedir os outros de ver o nosso eu ‘verdadeiro’ e vergonhoso, construindo aquilo que achamos que será uma versão pública aceitável de nós mesmos, mas que sabemos que é apenas uma casca vazia (a menos, é claro, que passemos a acreditar no nosso próprio personagem, nos deixando enganar pela nossa própria ‘imagem’).

A partir dessa visão, meu foco na terapia foi gradualmente deixando de ser a adequação das pessoas a um ideal construído socialmente e internalizado, e passou a ser uma ideia de que as pessoas são normais e nossos sofrimentos são comuns. Passei a entender que a busca por atingir esse ideal impossível era um problema maior do que não sê-lo, nos deixando emocionalmente desgastados e impedindo de viver a parcela de vida que pode existir relativamente livre de pressões sociais.

Smail aprofunda sua crítica à psicoterapia em outros livros. Em um deles, chamado The Origins of Unhapinness, ele argumenta que o nosso sofrimento advém das estruturas de poder a que estamos submetidos (algo muito negligenciado na literatura psicológica) e sobre as quais temos muito pouco controle:

Precisamos entender que, mais do que o paciente ser um problema para o mundo, o mundo é um problema para o paciente. Somos os produtos corporificados do espaço-tempo. Para fazer alguma diferença em nossas vidas, temos que ter algum tipo de influência no ambiente para fazê-lo, do nosso ponto de vista, um pouco mais benigno. Não somos nós que temos que mudar, e sim o mundo à nossa volta. Ou, colocando de outra forma, a extensão em que podemos mudar sempre dependerá de alguma mudança material nas estruturas de poder que nos envolvem.

Essa noção coloca um grande problema para a psicologia. Os psicólogos gostam de criar entidades internas obscuras para explicar o sofrimento e o comportamento das pessoas. Seja o “inconsciente”, as “crenças”, os “condicionamentos”, é sempre algo misterioso que só pode ser lido e compreendido por eles. Isso é feito porque legitimiza o poder do psicólogo e da prática psicológica, em que ele é o detentor de um conhecimento mágico — ainda que disfarçado de científico — que, se corretamente “tratado”, produzirá alterações na pessoa e ela finalmente será “resolvida”. O terapeuta, assim, cria um engodo que envolve a ele e a pessoa atendida. Não que isso seja sua intenção clara — nós aprendemos a enxergar a terapia dessa forma.

Só que, enquanto isso, as reais causas de sofrimento e problemas psicológicos, como as condições de trabalho violentas, as dificuldades econômicas, a lógica de competição e individualismo continuam fora do foco. Mas não é interessante ao psicólogo olhar para esses aspectos, pois eles estão muito além do alcance do consultório. E a pessoa atendida, se continua em sofrimento (o que é provável, já que as suas causas continuam lá) fica ainda mais angustiada, acreditando que o problema está nela mesma, mas ela não consegue achá-lo — e muito menos eliminá-lo.

Quebrar esse paradigma significa, entre outras coisas, aceitar que o alcance da psicoterapia, no modelo atual, é bastante limitado. Segundo o próprio Smail, ela pode oferecer conforto, clarificação e encorajamento. E não há nada de errado com isso, desde que ela assuma seu real caráter e suas limitações. Ao fazer isso, pelo menos ela tiraria da pessoa atendida o peso de ter que “se resolver”, enquanto continua sofrendo por causas que ela não controla — o que, se formos pensar, é extremamente cruel.

Referências:
Smail, D. (2018). The origins of unhappiness: A new understanding of personal distress. Routledge.
Smail, D. (2018). Illusion and reality: The meaning of anxiety. Routledge.
Obituário: https://www.theguardian.com/science/2014/aug/17/david-smail

Foto: Stéphane Juban

O que a psicoterapia realmente oferece?

Quando as pessoas falam sobre fazer psicoterapia, as perguntas que surgem costumam seguir numa determinada linha: “terapia funciona?”, “fazer terapia é necessário?”, “faz bem?”. É estranho que não tenhamos respostas muito conclusivas para isso. Temos as opiniões pessoais daqueles que se beneficiaram muito de um processo terapêutico, bem como dos que não tiveram ganhos (e às vezes, até prejuízos).

Os psicólogos, claro, defendem a sua área dizendo que a psicoterapia funciona, é útil, é importante. E a ciência psicológica tenta respaldar essa posição realizando estudos, ensaios clínicos, desenvolvendo testes, para comprovar a eficácia da psicoterapia para os mais diversos transtornos.

No entanto, talvez seja tão difícil de qualificar a psicoterapia porque as perguntas erradas podem estar sendo feitas. Quando nos perguntamos se a terapia funciona, o que exatamente estamos tentando responder? A forma de resposta talvez nos dê algumas dicas: os estudos realizados para demonstrar a eficácia da psicoterapia indicam que existe “redução de sintomas” num “grupo homogêneo”, em relação a um “transtorno” específico.

Essa forma de responder denota que existe uma série de premissas nas entrelinhas: que a visão adotada é a do modelo médico em que o sofrimento é uma doença que precisa ter seus sintomas reduzidos; que leva-se em consideração apenas o indivíduo e não o seu contexto, como se o sofrimento fosse uma anormalidade interna; e que o “bom” é que os “tratamentos” sejam rápidos e simples, apenas para que o indivíduo continue “funcional”, “normal”, “adequado”.

Com isso, os resultados de pesquisas em psicoterapia acabam servindo apenas para endossar comercialmente esse ou aquele tipo de terapia, garantir sucesso acadêmico para seus criadores e validar práticas que seguem uma lógica capitalista e neoliberal de retornar o indivíduo a uma pretensa normalidade que ignora todos os contextos abusivos a que ele está sujeito, no trabalho, nas cidades e na precariedade do suporte social.

O que acontece, então, é que nos consultórios, o que acabamos fazendo é algo muito diferente do que é proposto na ciência psicológica. Smail (2018) propõe que paremos de tentar provar que a psicoterapia funciona. Pois o que abordamos na psicoterapia é a questão de como viver a vida, e não há critério para medir o quanto se é bem sucedido nisso ou não.

Um psicólogo talvez esteja mais próximo de um xamã, um pajé, ou até ao sacerdote de alguns séculos atrás. Nós oferecemos escuta, conforto e, às vezes, quando as circunstâncias são favoráveis, algum tipo de descoberta ou reflexão que pode levar a alguma mudança. Nós disfarçamos nossa prática de científica pois esse é o nosso zeitgeist: a de que é necessária a chancela científica para que uma atividade seja séria. Mas isso é um mero engodo; o que fazemos é muito mais solto, mais intuitivo e com muito mais senso comum do que gostamos de admitir. Mesmo quando se verifica em estudos que um conjunto de técnicas gera um determinado resultado, fica a dúvida: a mudança é provocada pela técnica ou pelo mero fato da pessoa estar num contexto terapêutico, numa relação, sendo ouvida, acolhida?

E não nos iludamos: as possibilidades de mudança real da pessoa que está em terapia é pequena. Não por culpa da pessoa ou do seu terapeuta, e sim porque a fonte do nosso sofrimento é externa. Está num trabalho sem sentido e desolador, num custo de vida insustentável, na solidão e desamparo dos nossos tempos, na impossibilidade de realmente nos conectar e achar significado. O que permitiria reais mudanças estão além do escopo do consultório: estão na nossa sociedade. Podemos estar juntos, dar suporte, apoio, empatia. Podemos ajudar a pessoa a parar de se culpar por aquilo que não é sua responsabilidade, e quem sabe, até em se engajar em atitudes que possam gerar mudanças no nosso contexto.

Mas, ainda assim, ainda que seja apenas escuta, apenas compreensão, apenas uma hora de conversa honesta, sincera e atenta, já é valioso (o quanto conseguimos realmente ter isso hoje?). Não precisamos tentar fazer com que psicoterapia pareça mais do que realmente é. Sejamos intuitivos, soltos, espontâneos, sempre com responsabilidade e cuidado com aqueles que confiam em nós. E busquemos juntos as respostas para as perguntas difíceis que não podem ser respondidas em nenhum laboratório. Esse “pouco”, nos nossos dias, é muito.

Referência
Smail, D. (2018). The origins of unhappiness: A new understanding of personal distress. Routledge.

Foto: Annie Spratt.