O que você não é

Você não é o seu nome.
Você não é a sua profissão.
Você não é a sua idade.
Você não é o lugar em que você nasceu.
Você não é a sua cor.
Você não é a sua conta bancária.
Você não é o carro que dirige.
Você não é as coisas que tem.
Você não é o seu currículo.
Você não é as suas ideias.
Você não é a religião que pratica.
Você não é o time que torce.
Você não é o cargo que ocupa.
Você não é as medidas do seu corpo.
Você não é a sua posição política.
Você não é o idioma que fala.
Você não é as roupas que veste.
Você não é a sua orientação sexual.
Você não é o seu diploma.
Você não é a pessoa com quem se relaciona.
Você não é os livros que você leu.
Você não é as suas preferências.
Você não é os seus pensamentos.
Você não é as suas emoções.
Você não é os seus comportamentos.
Você não é a sua história.
Você não é as suas lembranças.
Você não é os seus traumas.
Você não é aquilo que os outros pensam que você é.
E você também não é aquilo que você acha que é.

A psicologia dos livros e a psicologia da vida real

Nas minhas relações pessoais, percebi que não é interessante, a longo prazo, agir como se eu fosse algo que não sou.
Carl Rogers

Quando lemos um livro sobre psicoterapia, geralmente encontramos um modelo teórico sobre como entender uma ou mais dificuldades que uma pessoa pode encontrar e um método de tratamento. Esse método de tratamento é costumeiramente ilustrado com descrições de casos em que a estratégia terapêutica é aplicada e a pessoa melhora consideravelmente. Se temos pouca experiência clínica, somos levados a acreditar que a psicoterapia é ilimitadamente poderosa para lidar com toda e qualquer questão humana. Mas não demora muito para descobrimos que, na vida real, isso não acontece assim.

Isso provavelmente ocorre em todas as áreas do conhecimento, e talvez seja mais comum nas áreas de humanas e saúde. Assim que iniciamos o trabalho como clínicos, percebemos que lidar com o ser humano — tanto aquele que estamos atendendo como com nós mesmos enquanto terapeutas — é muito mais complexo e impreciso do que qualquer livro ou curso costumam demonstrar. Entretanto, uma vez que ao longo da nossa formação aprendemos apenas com modelos perfeitos, enfrentamos de cara uma série de dificuldades. Como terapeutas, podemos facilmente cair nos seguintes enganos:

1. Acreditamos que há uma fórmula para tudo

Isso parece ocorrer de maneira mais comum nas terapias cognitivo-comportamentais (TCCs), que são conhecidas por seguirem um modelo científico rigoroso, pela sua objetividade e seu arcabouço de técnicas. Em livros e cursos de TCC é muito comum que realmente haja fórmulas: protocolos de tratamento para esse ou aquele transtorno. O problema é que esses protocolos são criados e testados em grupos em que pacientes muito específicos são selecionados. Eles geralmente são colaborativos, não apresentam comorbidades e precisam aderir ao tratamento, do contrário são excluídos das pesquisas. Quando vamos atender pessoas reais numa instituição ou no consultório, elas não estão restritas pelas limitações de um estudo científico, o que faz uma grande diferença.

2. Não aprendemos a lidar com os imprevistos

Quando dou aula em cursos de especialização em terapias comportamentais e cognitivas, muitas vezes vejo alunos que esperam que se fale de uma série de estratégias fechadas para lidar com cada situação. Não é raro que eles apenas esperem pela técnica a ser utilizada nesse ou naquele caso, ignorando outros aspectos da aula. O risco aí é nos tornarmos terapeutas inflexíveis, o que provavelmente vai na direção oposta das qualidades de um bom psicólogo clínico, pois as circunstâncias no trabalho cotidiano quase nunca serão iguais àquelas que vemos nas descrições das técnicas.

3. Temos dificuldades em reconhecer e aprender com o que não funciona

Se a psicologia é infalível, como pode um atendimento não dar certo? Nossa primeira reação é culpar a pessoa atendida por não ser aquele paciente ideal que encontramos nos livros. Se formos um pouco mais autocríticos, podemos acreditar que não aplicamos a fórmula corretamente, mas inicialmente não questionamos a fórmula. Acho que apenas com o tempo — junto com as recorrentes e inevitáveis frustrações — que passamos a entender que o trabalho clínico é mais complexo do que imaginávamos e cada atendimento seguirá o seu curso próprio.

 

A maior parte das publicações sobre psicoterapia não abre espaço para aquilo que não está de acordo com uma lógica de pura eficiência. Uma revista científica publicaria um relato de caso malsucedido? Uma editora aceitaria um livro sobre psicoterapia que se descrevesse os momentos em que ela falhou? Vejo nos livros de terapias comportamentais de terceira onda alguma sugestão de que iremos errar e precisaremos ser criativos, mas ainda assim, é uma mera sugestão. A premissa continua sendo a de que a fórmula vai funcionar.

Essa atmosfera presente nos livros e cursos de psicoterapia nos leva a ter dificuldade com outro aspecto: o de que vamos errar. Alguns psicólogos, como Carl Rogers, escreveram sobre seus erros. Seguindo nessa linha, procuro falar dos meus insucessos nas aulas que dou. Alguns dos jovens terapeutas que as assistem se sentem aliviados ao ver que um terapeuta mais experiente pode se enganar e que a vida real não é tão antisséptica como parece nos livros. Para outros, essa perspectiva incomoda.

Tento passar a ideia de que as técnicas não são o mais importante, e sim o raciocínio clínico e a relação terapêutica: se você entender o que está acontecendo na sessão, com a pessoa atendida e com você, você entenderá o que pode ou não pode fazer, e o que está ou não ao seu alcance. Dessa forma, também é possível saber quando se erra: geralmente, não é porque não aplicamos a fórmula corretamente, mas porque não entendemos o que realmente estava acontecendo no atendimento.

Lembro com carinho de muitas pessoas que mudaram muito, de forma positiva, na terapia. Mas quando penso naquilo que aprendi como terapeuta, vejo que as que realmente me ensinaram lições profundas foram aquelas que eu decepcionei.

 

Foto: Cristin Hume

A luta contra nós mesmos

Vivemos numa época em que a nossa imagem tem uma grande importância. Ou, pelo menos, é o que os nossos esforços indicam. Nas redes sociais, tentamos mostrar conhecimento através de nossas opiniões; competência e qualificações profissionais positivas; momentos de alegria e sucesso, seja em viagens, shows ou eventos. Somos, aparentemente: equilibrados, confiantes, seguros, bem-sucedidos e saudáveis.

Só que não. Nós sabemos que não somos tudo aquilo que tentamos mostrar. Conhecemos as nossas limitações, as nossas inseguranças, os nossos vícios, as nossas gafes. Conhecemos bem os pensamentos e sentimentos negativos que aparecem o tempo todo: obsessões, raiva, agressividade, medo, ideias absurdas, impulsos infantis e por aí vai. Só a percepção de que tudo isso existe já traz grande angústia: como podemos manter a nossa aparência de segurança e saúde se o nosso interior é esse caos?

Nossa resposta natural é a de tentar eliminar nosso lado “ruim”. Tentamos suprimir pensamentos, controlar nossa ansiedade, negar nossa insegurança. Buscamos combater nossos vícios e superar a nós mesmos. Até o momento em que percebemos que isso é inútil. Podemos conseguir controlar algum hábito, mudar algum comportamento, mas percebemos que muito em nós simplesmente não está nas nossas mãos. Ainda que estejamos vencendo uma batalha, o conflito não tem fim. E os efeitos colaterais de todo esse controle, por vezes, é pior do que o incômodo original.

Podemos até perceber a inutilidade da luta, mas olhamos em volta e achamos que todos parecem estar conseguindo viver bem. Então, decidimos fazer a outra coisa lógica: esconder aquilo que há de errado em nós. Nos esforçamos para buscar a imagem perfeita, ideal, da pessoa equilibrada, organizada e sem defeitos. Podemos até chegar tão próximos disso que acreditamos ser aquilo que idealizamos. Mas basta um deslize para percebemos que a nossa imperfeição continua lá. Falhamos e nos sentimos péssimos, já que, aparentemente, só nós estamos perdendo a batalha.

Podemos continuar lutando e fugindo. Mas há uma alternativa: parar de lutar contra si. Voltar-se e encarar aquilo que vemos como negativo em nós com uma postura de abertura e compaixão. Aceitarmos nossos enganos, reconhecermos nossas recaídas e, principalmente, abandonarmos o ideal rígido que construímos sobre nós mesmos. Quando ficamos mais em paz com nossa própria trajetória e a ideia de que somos mais uma pessoa com as mesmas dificuldades de qualquer outra, dá para levar a vida menos a sério.

Para quem é psicólogo, não é diferente. Às vezes as pessoas que atendemos acreditam que, por sermos terapeutas, estamos com tudo isso resolvido. Na verdade, somos — ou pelo menos eu sei que sou — tão inseguros como qualquer outro. Temos dúvida sobre o que falar, o que fazer, nos perguntamos se estamos indo no caminho certo… E muitas vezes simplesmente erramos mesmo. Diversas vezes fiz um comentário numa sessão do qual me arrependi no momento em que saiu da minha boca. Em muitas outras ocasiões, senti que não pude ajudar a pessoa o tanto quanto gostaria. Apenas há alguns anos passei a me permitir dizer “eu não sei” quando a pessoa esperava uma opinião profissional e eu não tinha ideia de como responder.

Tenho melhorado em admitir minhas limitações. Nesse reconhecimento não há um tom de autocrítica excessiva ou lamentação; é apenas isso, um reconhecimento. E tenho seguido, mesmo de maneira conscientemente imperfeita. Pois a alternativa seria fugir de mim mesmo, montar uma imagem de infalibilidade ou simplesmente desistir. E vejo que, continuando dessa forma, o resto continua caminhando. Nada desmorona porque assumi alguma vulnerabilidade. O que tem me feito confiar nisso: aquilo que simplesmente acontece é a única medida para entender a vida, mais do que qualquer julgamento obscuro que a minha mente possa criar.

 

Foto: Simon Wijers

Os bolinhos da velha senhora

Um viajante solitário caminhava por uma estrada em cuja margem havia uma aldeia. Nessa aldeia, existia uma casa que se aproximava bastante do caminho pelo qual o viajante passava. Ele observou que, na frente da casa, uma senhora idosa sentava-se ao lado de uma cesta cheia de bolinhos embalados cuidadosamente com papel de arroz e fechados com um belo laço. De tempos em tempos, habitantes do vilarejo passavam por ali, retiravam alguns bolinhos e deixavam moedas em troca, como pagamento. A senhora sorria e agradecia a cada um deles, ainda que não os fixasse precisamente com o seu olhar. O viajante, intrigado, notou que a velhinha era cega, e manteve-se observando o movimento à distância. Depois de algum tempo, incomodado, ele resolveu se aproximar. Cumprimentou a velhinha, que respondeu com o mesmo sorriso amável e as palmas das mãos unidas. Ele explicou:

— Boa senhora, perdoe-me pela intromissão, mas acredito que esteja sendo enganada.

— Enganada? Por que diz isso?

— Porque estive observando as pessoas passando por aqui e pegando os bolinhos da sua cesta. Primeiro, passou uma moça que pegou um bolinho e deixou duas moedas. Em seguida, passaram dois garotos que pegaram dois bolinhos e deixaram apenas uma moeda. Depois deles, um pai passou com seus dois filhos pequenos, pegou três bolinhos e deixou também uma moeda. E, por último, uma mulher grávida levou quatro bolinhos sem deixar moeda alguma. A senhora não acha que estão se aproveitando da sua falta de visão?

— O senhor é um homem bondoso — respondeu ela, ternamente. — E eu agradeço muito a sua preocupação comigo. No entanto, eu não acredito que esteja sendo enganada. Dizendo isso, alcançou uma placa que estava dentro da cesta, longe dos olhos do viajante. A pequena placa, escrita à mão, dizia: “Pegue o que precisar. Pague o que puder.”

O viajante fez uma grande reverência à senhora, pedindo desculpas por ter confundido sua bondade com ingenuidade.

 

Foto de Paz Arando.

Aceitação e mudança

Um dos pontos de maior dificuldade quando estou trabalhando com ou ensinando Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é a própria ideia de aceitação. Tanto as pessoas atendidas quanto alunos interpretam o significado de aceitação como resignação. Considerando que na nossa cultura a ideia de aceitar algo está ligada à submissão, inação e apatia, aprendemos que temos que tentar submeter o mundo à nossa vontade e fazer as coisas do nosso jeito. Há, então, pouco lugar para a ideia de aceitação.

Outra resistência muito comum para a aceitação é a concepção de que funcionamos pela nossa autocobrança. Acreditamos que precisamos condenar o que sentimos e somos para conseguir agir. O medo da aceitação, nesses casos, implica num medo de imobilidade. Mais de uma vez eu ouvi a frase: “se eu parar de me cobrar, não vou fazer mais nada”. Consigo ver que é possível que a autocobrança nos leve à ação. Mas me parece que essa é uma maneira bem miserável de existir. Quando funcionamos nesse modo, estamos sempre na falta, sempre insatisfeitos conosco e, na melhor das hipóteses, o máximo que sentiremos é alívio; dificilmente nos sentiremos plenos, realizados ou em paz. Nossa mente pode sempre criar uma nova falta que teremos que tentar suprir.

Na verdade, o conceito de aceitação na ACT não significa resignação ou inação. Alguns autores da área inclusive argumentam que essa não é uma boa palavra para se usar ao falar sobre essa ideia. Outras expressões seriam mais precisas. Em vez de dizer “aceitar a ansiedade”, poderíamos falar em “parar de brigar com a ansiedade” ou “abrir espaço para a ansiedade”. O que se tenta mostrar aqui é que temos pouco ou nenhum controle sobre nossos eventos internos. Tentar lutar contra eles apenas traz mais sofrimento e atrapalha nossa capacidade de agir. Se estamos tentando eliminar nossa ansiedade para então fazer o que gostaríamos ou poderíamos fazer, é bem possível que fiquemos travados por um bom tempo.

Quando entendemos isso, percebemos que a aceitação, na verdade, destrava a nossa ação. A partir do momento em que sou capaz de abrir espaço para minha ansiedade ou qualquer outro desconforto, sou mais livre para agir. Não preciso mais evitá-la ou fugir dela. Se não houver nenhuma sensação que eu rejeito, posso fazer literalmente qualquer coisa. Pense na pessoa tímida que topa abrir espaço para a vergonha e pode ir a um evento social ou falar em público; a pessoa que aceita as perdas que teve num momento da vida e decide seguir em frente; o alcoolista que aceita que tem um problema com o álcool e busca tratamento.

Ao praticar a aceitação, abrindo espaço para o desconforto, para as duras realidades e para aquilo que somos num determinado momento, podemos mudar. E acredito, pelo que vejo em algumas pessoas com quem trabalho e por experiência pessoal, que um tipo diferente de mudança é possível. Não estamos mais buscando sanar faltas, resolver conflitos internos ou tapar o vazio que sentimos. Entendemos que isso estará lá, sempre. Mas paramos de dedicar a vida a eles. Ficamos bem com o que somos e as mudanças acontecem de uma forma positiva. Em vez de focar na falta, buscamos acréscimo. Nossa motivação passa a ser positiva: vamos na direção daquilo que nos agrada, nos acrescenta, nos diverte. Paramos de brigar com nós mesmos.

É como se saíssemos de uma postura que poderia ser traduzida como:
— Preciso me consertar; devo resolver esse conflito; tenho que controlar essa situação.
Para outra que diz:
— A vida é boa como é; eu estou bem como sou. Posso ir em qualquer direção. Para onde eu quero ir?