Os descondicionadores

Existem alguns preconceitos sobre a psicologia comportamental. Pessoas que atendo já me relataram que, ao dizerem que fariam terapia com um psicólogo comportamental, foram alertados que essa linha era um “adestramento” ou que a pessoa seria “condicionada” de acordo com a vontade do terapeuta. Embora meus colegas de abordagem fiquem incomodados com esse tipo de rótulo, acho que devíamos considerar que esses preconceitos têm sim uma base na realidade, especialmente quando consideramos a história da abordagem comportamental.

Vejamos, por exemplo, um livro clássico da área, “Prática da Terapia Comportamental”, de Joseph Wolpe, publicado por aqui nos anos 1970. Nele, encontraremos técnicas de reversão de homossexualidade e terapias aversivas descritos com precisão técnica, no melhor estilo Laranja Mecânica. É claro que, de lá pra cá, esse tipo de procedimento foi sendo abandonado, mas já foi o suficiente para que gerar uma desconfiança geral em relação à abordagem, especialmente por quem se preocupa com uma psicologia humanista e humanizada.

Entretanto, existe uma diferença entre o conhecimento e o uso que se faz dele. A psicologia comportamental é um campo do conhecimento que busca entender as relações entre o nosso comportamento e seus contextos. As terapias comportamentais são a utilização desse conhecimento para um determinado fim. O conhecimento, por si só, é sempre neutro; quando o conhecimento é utilizado numa tecnologia, ele se torna moral, pois indica um resultado desejável. A radiação, por exemplo, pode ser usada para construir bombas ou combater o câncer.

Querendo ou não, se vivemos em sociedade, somos condicionados. Pela nossa família, pela escola, pelo ambiente de trabalho, pela cultura. Isso está acontecendo o tempo todo. E, quase sempre, estamos sendo condicionados em função de interesses que não são os nossos e sim de quem está realizando o condicionamento. O desejável é ser uma criança que não dá trabalho, um bom aluno, um funcionário exemplar. Também é comum que não percebamos esses processos acontecendo. Muitos deles são aversivos e geram consequências emocionais pesadas — basta olhar o quanto estamos ansiosos, deprimidos e esgotados, às vezes sem nem entender direito o porquê.

E aí, da mesma forma em que os conceitos da psicologia comportamental podem ser utilizados no controle e condicionamento das pessoas, eles podem ser utilizados na direção oposta. Em terapia, por exemplo, ela pode se tornar cada vez mais consciente dos condicionamentos às quais ela é e foi sujeita e se libertar deles. A terapia pode ser uma das poucas — senão a única — situações em que alguém com conhecimento sobre psicologia está atuando apenas pelos interesses de quem é atendido, e não pelos interesses de uma instituição como uma escola, uma empresa ou um governo. A parte difícil do trabalho continua sendo da pessoa, pois libertar-se de condicionamentos requer mudanças de atitudes e um rearranjo da vida que permita o máximo de liberdade, mas na terapia a pessoa terá uma aliada nesse processo.

Então, quando ouço os preconceitos sobre as terapias comportamentais, consigo entendê-los. Também desconfio de psicoterapias que perseguem resultados específicos independentemente da vontade da pessoa atendida, como processos manualizados ou protocolos. O que é possível fazer, na contramão disso, é o trabalho de descondicionamento. Tornar-se consciente das linhas invisíveis que podem nos manipular é cada vez mais relevante num mundo que é agressivo nas suas sofisticadas estratégias de condicionamento e adestramento. Precisamos de todos os recursos que temos disponíveis para permanecermos livres.

 

Ninguém precisa de terapia

É comum ouvirmos frases como: “acho que você precisa de psicoterapia” ou “todo mundo deveria fazer terapia”. Eu, como psicólogo, talvez devesse endossar isso. Mas, na verdade, não acho que ninguém precise de terapia. Pode ser que ter sessões com um psicólogo seja interessante, mas não que esse trabalho seja realizado no modelo de terapia, com todos os sentidos implícitos nesse termo.

A palavra terapia vem do grego therapeia, “curar alguém com alguma doença”. A palavra psicoterapia surgiu no século XIX juntando os termos psico e terapia, significando “influência remediativa na mente”¹. O termo descreve um processo pelo qual uma pessoa influencia a outra em aspectos mentais com o intuito de cura.

Há um pressuposto, então, que existe algo de errado com a pessoa que se submete à psicoterapia. Ela teria alguma disfunção, alguma doença ou problema que precisa ser resolvido ou curado. O psiquiatra Thomas Szasz era um grande crítico do conceito de doença mental. Para ele, essa é uma tentativa de medicalizar aspectos morais e sociais, uma vez que se coloca na mão dos médicos e profissionais de saúde a decisão do que é ou não normal. Os diagnósticos psiquiátricos, vamos lembrar, são apenas constructos, rótulos que colocamos em certos estados. Não são causas nem entidades realmente existentes, apenas descrições convenientes. Szasz fala, sobre a psicoterapia: “ficamos com o desafio de, primeiro, desmascarar a falsa conceitualização médica da psicoterapia; e, segundo, reorganizá-la numa estrutura e num vocabulário não médico, não diagnóstico e não terapêutico”. ²

Se não existe de fato nada a ser tratado, então não pode existir nenhum processo terapêutico. Não há nada a ser “terapeutizado” ou curado. Alguns psicólogos chamam as pessoas que os contratam de “pacientes”, outros “clientes”. A segunda definição é melhor, mas eu ainda prefiro falar apenas de “pessoas atendidas”. No fim das contas, o que chamamos de psicoterapia é apenas uma conversa entre duas pessoas. Se esse processo é algo que é interessante ou útil para ambas, ótimo, ele já se justifica. Mas não é preciso configurarmos esse processo como uma situação em que uma pessoa tem um “defeito” que será consertado pela outra.

Se não partirmos do modelo terapêutico, o que acontece entre um psicólogo e a pessoa atendida? As sessões continuam sendo espaços em que a pessoa pode falar, desabafar, receber um outro olhar sobre suas angústias e desenvolver sua capacidade de autoconhecimento. Não há nada a ser consertado; há muito a ser reconhecido, experimentado e vivenciado. Há uma relação de abertura, empatia, acolhimento, expressão sem julgamento e respeito. A função não é fazer com que a pessoa se torne outra, mas que ela possa viver bem e em paz com quem ela já é.

  1. Harper, D. (2019). Online Etymology Dictionary. https://www.etymonline.com/search?q=psychotherapy

  2. Szasz, T. S. (1974). The myth of psychotherapy. American journal of psychotherapy, 28(4), 517-526.

Foto: Clem Onojeghuo no Unsplash

A inadequação como caminho

Sentir-se inadequado é uma queixa que aparece com frequência em sessões de psicoterapia, revelando um dos aspectos centrais da condição humana. As pessoas descrevem uma sensação persistente de não serem pertencentes, de não conseguirem realmente se adequar a um certo ambiente ou de temerem serem descobertas pelos outros naquilo que as envergonha. Independentemente da situação de vida, a impressão de que se é vagamente “errado” continua presente.

A reação natural costuma ser a de julgar como errado o sentir-se errado. Passamos, então, a buscar formas de resolver o conflito. Existem dois caminhos mais comuns: o do escape, em que tentamos apenas não sentir o desconforto, nos distraindo ou nos dopando de alguma forma com drogas, álcool, sexo, consumo, entretenimento; ou o da adequação, em que almejamos a conformidade com aquilo que é esperado de nós, o ser adequado. Tentamos nos consertar para sermos aquilo que o nosso contexto social espera.

Esse último caminho é ainda mais nocivo do que o primeiro. Quando buscamos a adequação, recebemos incentivos, tapinhas nas costas e aprovação generalizada, o que nos traz conforto e alívio. Somos recompensados socialmente quando nos “aprimoramos” ou “realizamos nosso potencial”.  Podemos passar uma vida dentro desse lugar confortável e achar que está tudo bem. Entretanto, essa existência só se sustenta com um grande esforço psíquico — que podemos chamar de neurose — pois, no fundo, sabemos que não somos apenas aquilo que aparentamos.

Como o caminho da adequação é o valorizado socialmente, ele também é bastante difundido na própria psicoterapia. É possível encontrar em livros da área termos como: mal adaptativo, disfuncional, treinamento, habilidades, sublimação e afins. Isso sem falar em técnicas mais agressivas de condicionamento que buscam “corrigir” a pessoa. Essa postura não é exclusiva de uma ou outra abordagem. Qualquer base teórica pode ser usada a favor ou contra a liberação do indivíduo.

Muitas vezes, o próprio terapeuta pode acreditar que o caminho do ajustamento é o correto. Quando isso acontece, uma vez que ele tem as ferramentas necessárias para isso, cria-se o contexto ideal para uma terapia de fortalecimento das neuroses do indivíduo, e afastando-o da possibilidade de liberação. Um alívio que distancia da cura. Já comentei antes que acredito que a psicoterapia não deveria ser um instrumento de ajustamento social.

Existe um terceiro caminho para lidar com o estranhamento que sentimos sobre estarmos no mundo, que é o de não optar pelo escape ou pela conformidade. Quando ouço de alguém que atendo em terapia frases como: “estou perdido”, “me sinto inadequada”, “não sei o que fazer da vida”, acho que é um bom sinal. Se você já não está perfeitamente ajustado às normais sociais, ótimo! Não ande para trás!

Eu já falei para pessoas que atendo frases como: “eu não vou ajudar você a emagrecer”, “não vou ajudar você a estudar melhor”, “não vou ajudar você a ser socialmente habilidoso”, pois percebia que esses objetivos resultariam num aprofundamento dos padrões neuróticos. Cheguei a deixar claro que se era isso que a pessoa buscava, seria melhor procurar outro terapeuta. E algumas pessoas preferiram essa opção. Isso não me deixa desconfortável, pois acredito que a minha função, na terapia, é defender você radicalmente. Das imposições sociais, das expectativas externas, das demandas dos pais. E até — às vezes especialmente — de você mesmo.

 

“Ajudas” que não ajudam

Da mesma forma que não gostamos de sofrer, também não gostamos de ver as pessoas próximas em sofrimento. Quando nos deparamos com a dor do outro, ela também nos incomoda e, naturalmente, queremos que ela vá embora. Ainda que a intenção seja boa, muitas vezes tentamos fazer isso de maneiras que não apenas não resolvem, como podem aumentar o sofrimento. As falas abaixo descrevem algumas dessas formas de ajuda que não ajudam.

1. “Por que você não faz…”

Oferecer soluções é uma das respostas mais naturais frente a algo que enxergamos como problema. Só que nem sempre a pessoa está precisando de uma solução — é bem provável, inclusive, que ela já tenha pensado em muitas alternativas. Nem todo sofrimento se refere a algo a ser feito; às vezes o nosso sofrimento até é causado por estarmos sempre tentando resolver tudo.

2. “Você precisa mudar sua maneira de pensar”

Infelizmente, isso não é algo simples. Podemos, de fato, ter uma visão muito negativa das coisas. Mas isso geralmente é consequência de anos de condicionamento dentro de uma cultura, uma família, das nossas próprias experiências. Também não estamos acostumados a olhar para nossos pensamentos com distanciamento ou crítica. Ainda que essa ajuda possa ter algum fundo de sentido, não é algo possível de se fazer do dia para a noite, ainda mais quando estamos sofrendo. E, em muitas situações, a dor não tem a ver com nosso ponto de vista, mas por ser simplesmente uma causa universal de sofrimento, como a perda de alguém.

3. “Tem gente em situação muito pior”

Por mais que racionalmente saibamos que sempre existirão pessoas em situação melhor ou pior do que a nossa, a nossa experiência de sofrimento é única. Ouvir isso não só não ajuda como faz com que nos sintamos inadequados por estarmos sofrendo.

4. “Você não tem motivo pra se sentir assim”

Essa é uma extensão do comentário acima. Podemos ouvir que temos tudo que precisamos e, por isso, não deveríamos sofrer. Entretanto, as emoções não funcionam dessa forma. Uma vida confortável materialmente não significa que não vamos sofrer. Ouvir isso faz com que nos sintamos invalidados, incompreendidos e culpados.

5. “Esquece isso, deixa pra lá; supere”

Acreditamos, falando isso, que basta mudar de assunto ou não falar sobre o sofrimento que ele desaparecerá. O resultado é que a pessoa se sentirá ainda pior por parecer estar trazendo à tona algo que incomoda e se sentindo um peso. É bem possível que ela pare de falar, mas não que o seu sofrimento desaparecerá. Ela apenas passará a sofrer sozinha.

6. “Vamos tomar uma pra você se sentir melhor”

Podemos sugerir algum tipo de fuga para que a pessoa se sinta melhor. De fato, certas distrações podem trazer alívio a curto prazo, mas dificilmente eliminam o sofrimento a longo prazo. E, pior, muitas delas podem gerar efeitos negativos a longo prazo ou colocar a pessoa em risco.

Como lidar, então, com o sofrimento do outro? O primeiro passo é o de validação. Isso significa partir do princípio de que o sofrimento do outro é legítimo e tem razão de ser. Não é frescura, falta de visão ou egoísmo. O sofrimento, então, não é visto como um problema a ser resolvido — pelo menos não de imediato — mas sim algo a ser reconhecido. “Sei que essa é uma situação difícil”, “acredito que eu estaria me sentindo da mesma forma se estivesse no seu lugar”, “consigo entender que você se sinta assim com o que aconteceu”, “você quer me falar mais sobre como está sendo pra você?” são frases de validação. Claro, elas só fazem sentido quando são ditas de forma verdadeira.

Outra atitude, que pode nos parecer pouco natural, é simplesmente estar com a pessoa e o sofrimento dela. Reconhecemos o direito que ela tem de estar em sofrimento. Não o enxergamos como algo a ser resolvido ou afastado. Significa, então, que aceitamos estar com a pessoa no momento de dor, compartilhando-a. Buscamos dividir o fardo com ela. Certamente é o caminho mais difícil, mas talvez seja o melhor que podemos oferecer para quem está sofrendo.

Foto: Mishal Ibrahim

Comendo uma tangerina

Na minha prática clínica, gosto de usar histórias, metáforas e outros recursos para ilustrar alguns conceitos. O legal de fazer isso é poder tomar emprestado o material de pessoas bastante sábias e que entendem a condição humana de uma maneira mais palatável — e por vezes mais precisa — do que as teorias psicológicas. O trecho abaixo é um dos meus preferidos, pois fala, de forma breve e contundente, sobre estar no presente, mindfulness e aceitação.


Comendo uma tangerina

Tenho uma lembrança de anos atrás, quando Jim e eu estávamos viajando através dos Estados Unidos pela primeira vez e nos sentamos sob uma árvore para dividir uma tangerina. Ele começou a falar sobre o que estaríamos fazendo no futuro. Sempre que pensávamos sobre um projeto que parecia interessante ou inspirador, Jim ficava tão imerso naquilo que ele literalmente se esquecia do que estava fazendo no presente. Ele colocou um gomo de tangerina na boca e, antes mesmo de começar a mastigá-lo, já tinha outra fatia pronta para colocar na sua boca novamente. Ele nem percebia que estava comendo uma tangerina. Tudo que tive de dizer foi, “Você deveria comer o pedaço de tangerina que já está na sua boca”. Jim percebeu o que estava fazendo. Era como se ele nem estivesse comendo a tangerina. Na verdade, ele estava “comendo” seus planos futuros.

Uma tangerina tem gomos. Se você consegue comer apenas um gomo, consegue provavelmente comer a tangerina inteira. Mas se você não consegue comer um gomo, não pode comer a tangerina. Jim compreendeu. Ele lentamente abaixou sua mão e focou na presença da fatia que já estava na sua boca. Ele a mastigou conscientemente antes de alcançar outro gomo. Tempos depois, quando Jim foi preso por atividades contra a guerra, me preocupei se ele aguentaria as quatro paredes da prisão e lhe enviei uma carta muito curta: “Você se lembra da tangerina que dividimos quando estávamos juntos? Você estar aí é como a tangerina. Coma-a e seja um com ela. Amanhã ela não será mais.”

Thich Nhat Hanh — The Miracle of Mindfulness