Posse e possessividade

Por conta das nossas influências biológicas, psicológicas e culturais, somos levados a enxergar o mundo como se fôssemos o centro dele. Tudo aquilo que existe é visto na sua relação com o eu, ou seja, comigo mesmo. Quando nasce, o bebê não faz a distinção entre o eu e o outro: tudo é visto como parte de si. Com o tempo, as frustrações de suas vontades vão criando a noção de separação entre aquilo que sou, quero, desejo, e o resto do mundo. A forma como lidamos com isso determina a nossa atitude no resto da nossa vida, e muitos dos nossos conflitos decorrem desse embate entre o eu e o mundo.

Veja por exemplo a nossa linguagem. Pare para pensar o quanto utilizamos os pronomes “meu” ou “minha”. Minha casa, meu carro, meu computador. Mas perceba que não utilizamos esses pronomes apenas para objetos; os usamos também para as nossas relações, ou seja, para pessoas. Minha mulher, meu marido, meu pai, minha filha, meu vizinho, minha amiga. E vamos além, aplicando-os inclusive para conceitos maiores ou mais abstratos. Meu país, meu Deus, minha vida.

Essa visão egocêntrica nos dá a ideia que tudo isso está sob nossa posse, sob nosso controle. Esperamos que todos esses objetos, pessoas e conceitos “funcionem” da forma como desejamos ou esperamos. Como isso obviamente não acontece — até porque o eu que vê o outro como “meu” também é o “meu” do eu do outro — acabamos sofrendo. Por isso, poderíamos refletir sobre o que estamos querendo dizer quando falamos “meu” ou “minha”, pois com o uso desses termos, talvez acabemos enganando a nós mesmos sobre a relação que estabelecemos com as coisas e as pessoas à nossa volta.

É possível que a frequência com que você enxerga as coisas como sob sua posse ou controle esteja diretamente relacionada ao seu sofrimento. Se você conseguir ter empatia, se colocar no lugar do outro, se ver como igual e colocar os próprios interesses abaixo ou no mesmo nível do outro, a tendência é que você sofra menos. No entanto, se você tem um nível elevado de egocentrismo, provavelmente dividirá o mundo — e as pessoas — entre aquelas que têm utilidade pra você e as que não têm. E provavelmente você sofrerá bastante com o fato das coisas não saírem como você espera.

Além de causar bastante sofrimento pessoal, uma perspectiva de posse e controle sobre tudo que é externo afeta especialmente as relações interpessoais. Pois o outro não é visto como alguém íntegro, completo, uma pessoa igual, e sim como alguém que deve ser isso ou aquilo em função do desejo do eu. Se esse outro atende o desejo e a expectativa do eu, ele é bom; se não, é ruim. E se ora ele o faz, ora não, ele é visto ora como bom, ora como ruim, criando uma relação confusa de amor e ódio. Esse eu excessivamente egocêntrico não consegue enxergar que o outro é simplesmente o outro funcionando, e fica perplexo ao não entender como ele pode se encaixar e desencaixar tão facilmente de suas expectativas.

Uma descoberta importante na nossa relação com o mundo e com os outros é como a de Copérnico, ao determinar que não era o Sol que girava em torno da Terra e sim o contrário. Mais do que isso, podemos enxergar o Sol e a Terra como dançando um em volta do outro num espaço muito mais amplo, e só podemos dizer quem gira em torno de quem se adotarmos uma referência artificial. Da mesma forma, talvez seja artificial a distinção entre eu e outro. Pode ser ilusória essa noção que temos e que é acentuada na pós modernidade, em que nos enxergamos como um ser indefeso e isolado jogado num mundo cruel. Com o devido esforço, pode ser que consigamos entender que não existe nem eu nem outro, e que palavras como “meu” ou “minha” não fazem o menor sentido.

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