Julgamentos na psicoterapia

duas pessoas conversando e tomando café

Muitas pessoas — em especial aquelas que atendo — perguntam-me sobre os julgamentos que um terapeuta faz dos seus pacientes. Quando respondo que não fico fazendo julgamentos da maneira que a pessoa imagina, isso gera uma certa desconfiança. O julgamento sobre o qual está se discutindo, nesses momentos, é um julgamento moral, ou seja, uma avaliação do que é certo ou errado. A principal preocupação das pessoas é saber se a postura de não julgar do terapeuta não é falsa e como eu lido quando o comportamento ou as ideias de uma pessoa atendida destoam das minhas. 

Acho que esse é um questionamento muito válido. Afinal de contas, quando as pessoas chegam num contexto de psicoterapia, elas quase sempre esperam os mesmos tipos de julgamentos aos quais estão sujeitas em outras situações. Além disso, acham muito difícil que uma pessoa, por mais neutra que pareça, não esteja, lá no fundo, tecendo uma série de avaliações sobre se o que a pessoa faz ou pensa é ou não adequado. Muitas vezes elas imaginam que o terapeuta esteja fazendo julgamentos que, na verdade, são elas mesmas que estão fazendo.

Por incrível que pareça, a postura de não julgar moralmente é sim possível e acaba sendo cada vez mais natural para o terapeuta com o tempo. Em psicologia comportamental, se dá o nome para essa postura de audiência não punitiva. A ideia é que o terapeuta seja capaz de ouvir sem gerar qualquer consequência negativa para a fala da pessoa que está sendo atendida. Pois, só assim, ela será capaz de se sentir realmente à vontade para trazer todos os conteúdos que julgar relevantes, em especial aqueles que ela não pode falar com outras pessoas pelo receio do julgamento. Esses conteúdos podem justamente ser os mais importantes no processo terapêutico.

Naturalmente, para que a pessoa se sinta assim, ela precisa ter certeza de que a postura de não julgamento por parte do terapeuta é de fato genuína. Eu geralmente argumento que ela é sim genuína, por alguns motivos. O primeiro deles é que, quando uma pessoa chega para a terapia, nós estamos muito preocupados em entendê-la. E entendê-la de uma maneira humana e técnica, utilizando o referencial teórico de base do profissional. No caso da psicologia comportamental, entendemos que o que a pessoa pensa e faz deriva de incontáveis variáveis nos níveis biológico, social e de história de vida. Então, nos momentos iniciais da terapia, estamos buscando identificar algumas peças desse enorme quebra-cabeças que nos faça ver o sentido na maneira com que aquela pessoa age ou pensa. Ao montarmos essa narrativa, observando a pessoa de perto, entendemos que o que a pessoa é sempre faz sentido. Se não faz sentido, é porque não olhamos de perto o suficiente, ou não temos informações suficientes. Qualquer julgamento moral seria superficial, irrelevante e até um obstáculo para esse processo. 

O outro motivo pelo qual não se julga é porque estamos ocupados com o sofrimento da pessoa. Sempre enxergamos o sofrimento como legítimo, por mais banal ou ilógico que superficialmente poderia parecer. A preocupação em acolher e apoiar é incompatível com uma postura de julgamento. A psicoterapia deve ser um espaço de compreensão, respeito e acolhimento. Se o profissional realmente acredita nisso, sua postura natural será de empatia.

Entretanto, nós, psicólogos, podemos fazer outros tipos de avaliação. Podemos, por exemplo, falar de uma avaliação funcional, tendo como base os próprios valores e princípios da pessoa atendida. Vamos supor que alguém, em terapia, diga que busca uma vida mais autônoma e tenha isso como valor. O terapeuta, por sua vez, observa que essa pessoa se comporta de forma a aumentar ou manter a sua dependência nas relações. Nesse caso, ele pode fazer uma avaliação tendo como base essa discrepância: “veja, você me disse que busca uma vida mais autônoma. Porém, essa e aquela atitude colocam você numa posição de mais dependência nesses contextos. Você concorda com isso? O que acha de tentarmos entender melhor o que está acontecendo?” Esse não é um julgamento moral — o terapeuta não está falando sobre certo ou errado. Está apenas fazendo um apontamento com base no que a própria pessoa trouxe. A partir daí, a pessoa atendida pode refletir e tomar decisões com mais consciência, com apoio do terapeuta.

No meu caso, vejo que há momentos em que lanço mão de algo que podemos chamar de um julgamento clínico, em situações em que há riscos relacionados à saúde mental. Quando uma pessoa, por exemplo, está muito deprimida, eu posso apontar que o seu quadro não é bom e que atitudes precisam ser tomadas. Do contrário, ela poderá oferecer risco para si ou para os outros. Nessas situações, ainda não é um julgamento moral: é uma avaliação técnica com base na psicopatologia — tomando os devidos cuidados, pois a psicopatologia pode ser um tanto quanto moralista, mas isso é tema para outra conversa. Quando a pessoa pode não ter clareza da gravidade da sua situação, sinto que é uma postura de cuidado e responsabilidade dizer que ela precisa, por exemplo, de mais cuidados ou condutas específicas. Isso sem perder de vista a compreensão e a empatia.

Às vezes as pessoas, ainda assim, perguntam sobre como é atender alguém que tenha opiniões muito diferentes das minhas. Voltando à compreensão de que aquilo que uma pessoa é e pensa se origina de diversos aspectos, em especial sua história de vida, é possível não só ver a opinião da pessoa como resultado disso tudo como também a minha própria. Só faço o que faço e penso o que penso por conta da minha própria história. Se as circunstâncias fossem diferentes, eu seria diferente. Isso torna possível um distanciamento em relação às ideias que permite atender quem pensa diferente, na medida que nos mantém próximos emocionalmente da pessoa. Entretanto, é possível que discrepâncias muito significativas tornem essa postura muito difícil. Na minha experiência isso é raro, e, quando acontece, o processo terapêutico não vai muito longe. O “santo não bate” e naturalmente cada um segue o seu caminho.

Algo que me anima muito em ser um psicoterapeuta é poder conviver e estar próximo de pessoas muito diferentes de mim e diferentes entre si. De diferentes idades, etnias, origens, níveis socioeconômicos, posições políticas, orientações sexuais etc., cada uma com uma multiplicidade de perspectivas e conteúdos. Isso só é possível por conta dessa postura genuína em que o julgamento moral não aparece. Quando conseguimos olhar para alguém além do julgamento, com base na compreensão e na empatia, sempre vamos ter uma experiência enriquecedora de intimidade com o outro. É essa forma distinta de se relacionar que torna o espaço da psicoterapia algo único.

Foto: Priscilla Du Preez

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