Pelo direito de se sentir mal

A fala mais comum das pessoas que eu atendo, em especial no começo da psicoterapia, segue mais ou menos essa linha: “tenho a sensação de que só eu estou sofrendo; todo mundo parece estar bem”. Em seguida, geralmente a pessoa descreve aquilo que sente, questionando-se se são as únicas a ter sofrimentos como: pensar demais, sentir ansiedade mesmo em situações cotidianas, preocupar-se com o futuro, com a morte, ter dificuldade em superar as perdas e assim por diante.

Não é curioso que se tenha a sensação de ser a única pessoa a passar por sofrimentos tão comuns à condição humana? O que poderia estar acontecendo? Um dos fatores pode estar ligado à nossa cultura, muito influenciada pela cultura americana, em que se percebe um fenômeno cada vez mais forte nas últimas décadas: a busca incessante pela felicidade.

Nós estamos obcecados com a felicidade. Cada um de nós tem a sua fórmula para buscá-la. Podemos acreditar que a felicidade está ligada ao sucesso, ao dinheiro, ao status, aos relacionamentos ou a uma ideologia. Acreditamos que o nosso objetivo na vida é sermos felizes, e partimos em busca desse estado como se estivéssemos partindo numa caça ao tesouro. Toda essa obsessão trouxe, com ela, um efeito colateral: nós nos tiramos o direito à tristeza. Mostrar-se triste passou a ser algo menos aceito. Temos que estar sempre bem, sorrindo, dispostos. Mesmo as pessoas próximas, com as melhores das intenções, ao verem você triste, tentam deixar você pra cima e te animar. Não só temos dificuldade em conviver com a própria tristeza; também a tristeza do outro é um incômodo do qual queremos nos livrar rapidamente.

E é justamente isso que leva muitas pessoas para a psicoterapia. Elas têm a sensação de estarem erradas por estarem tristes ou sofrendo. Mais do que isso, sentem-se mal por acharem que aquele sentimento é errado e porque percebem estar incomodando os outros com o seu mal estar. Diversas pessoas que já atendi diziam que a terapia era o lugar em que podiam falar sobre a dor, já que em todos os outros isso era muito pouco aceito. E além de um lugar para se expressar, essas pessoas buscam uma solução, pois acreditam que tem algo “quebrado” nelas.

Nos últimos anos, tem havido um movimento na tentativa de remover o estigma dos transtornos mentais. Isso poderia ser um passo na direção da tolerância frente ao que sentimos, mas o efeito pode ser justamente o contrário, já que esse movimento – geralmente financiado pela indústria farmacêutica – se baseia na perspectiva de que essas condições são transtornos ligados à desequilíbrios químicos. Como, nessa perspectiva, o sofrimento é visto como doença, reforça-se a ideia de que a tristeza, a ansiedade, a apatia, a falta de concentração são problemas a serem corrigidos, e não o tecido que compõe a experiência de estarmos vivos. Com isso, a pessoa que se vê com essas características continua se sentindo errada, embora ela passe a ter uma justificativa: “sinto-me mal porque tenho depressão”.

Em 1984, a escritora britânica Lesley Hazleton publicou um livro chamado The Right to Feel Bad (O Direito de Sentir-se Mal), em que ela afirma:

Sentir-se bem não é mais simplesmente um direito, mas um dever social e pessoal. Como podemos ver a depressão como uma emoção legítima? Como podemos evitar ser chamados de doentes ou errados quando a sentimos? Como podemos retomar a depressão das garras daqueles que defendem que qualquer coisa além de sentir-se bem é errada? Ver a depressão como patológica – ou seja, como doença – é uma forma de invalidá-la. Se tivéssemos permissão para nos sentirmos deprimidos – se permitíssemos a nós mesmos nos sentirmos assim – seria muito mais fácil tolerá-la.

Ou seja, parece que querer fazer com que as pessoas se sintam sempre bem e enxergando a depressão como doença pode ter o efeito oposto: as pessoas cobram-se tanto ao estarem deprimidas que isso pode deixá-las ainda pior, fazendo com que o sofrimento se prolongue ou se multiplique. É o mal estar causado por estar mal.

Nas terapias de terceira onda, como a ACT e a TCD, o componente de aceitação está bastante presente. Ao contrário de ser uma resignação, a aceitação é a abertura completa à nossa experiência de vida como seres humanos. Nessa perspectiva, enquanto terapeutas, nossa conduta não é consertar ninguém, e sim cultivar a abertura às experiências de vida de forma integral. Por isso, um dos componentes da nossa atuação é simplesmente estar junto com a pessoa e com o sofrimento dela, validando aquilo que ela sente. Lembro de um caso em que uma mulher, de meia idade, que tinha tido diversas perdas marcantes em sua vida, num curto espaço de tempo. Ela achava que já era hora de voltar a se sentir bem e se condenava por ainda estar triste. Eu comentei com ela:
– Considerando todas as perdas que teve, você não acha que pode ser totalmente natural que você “ainda” esteja triste?
– Você acha? – ela perguntou.
– Sim. Se eu tivesse passado pelo que você passou, é bem provável que estivesse me sentindo da mesma forma.
– Mas as pessoas dizem que eu tenho que superar, me alegrar, ficar bem.
– Bem, isso não é algo que realmente controlamos, não é verdade? Como seria para você a possibilidade de podermos ficar com esse sentimento o quanto for necessário, sem transformá-lo num problema a ser resolvido?
Depois de pensar um pouco, ela disse:
– Seria um grande alívio.

 

Foto: Guillaume Delebarre

A relação terapêutica na Terapia de Aceitação e Compromisso

Um dos fatores que destaca as terapias cognitivo-comportamentais de terceira onda, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), é o foco que se dá à relação terapêutica. Entende-se que a relação terapêutica não é apenas fundamental para que os ganhos da terapia ocorram, mas também um instrumento terapêutico por si só, pois pode fazer com que as mudanças aconteçam na própria sessão. Por conta disso, a relação terapêutica também tem uma série de características específicas, preocupada tanto com o aspecto humano e igualitário da terapia como com a busca de melhora por parte da pessoa atendida.

Entre muitos pontos que identificam a relação terapêutica na ACT, podemos falar de alguns deles, conforme descritos pelos seus criadores¹.

Terapeuta como modelo
O objetivo da ACT é promover a flexibilidade psicológica. Para isso, são utilizadas técnicas de mindfulness, metáforas e exercícios que visam levar a pessoa atendida a mudar sua percepção do mundo e sua forma de agir nele. Entretanto, para os criadores da ACT, não basta que o terapeuta “ensine” isso para o cliente: é importante que ele mesmo busque flexibilidade psicológica e que esses elementos ocorram também durante a sessão.

Juntos no mesmo barco
A ACT pressupõe que as dificuldades que enfrentamos na vida não são anormalidades; pelo contrário, ansiedade, depressão, rigidez e medo são aspectos normais do ser humano, considerados um problema apenas na medida em que atrapalham a pessoa de viver a vida que ela escolha viver. Sendo assim, o terapeuta na ACT não é um ser superior que sabe tudo: ele, como ser humano, tem que lidar exatamente com as mesmas dificuldades que a pessoa que é atendida. Ambos travam uma aliança terapêutica em tom de igualdade. É comum, por exemplo, que o terapeuta use exemplos de sua própria vida ou fale de seus sentimentos em relação a uma dificuldade apresentada pelo cliente.

Respeito profundo pelos valores do cliente
Uma vez que a ACT enxerga muitos dos processos que nos trazem sofrimento como naturais, ela não parte de um modelo de normalidade que precisa ser aplicado a quem é atendido. A única diretriz que norteia o trabalho terapêutico são os valores do cliente, ou seja, aquilo que ele escolhe para si. Mesmo num caso de agorafobia, em que uma pessoa não sai de casa, o terapeuta só considerará isso um problema na medida em que o cliente também considerar, e não como um objetivo pré-estabelecido. Costumo comentar com as pessoas que atendo que o único questionamento que faço sobre seus comportamentos é em relação a quanto eles fazem com que a pessoa se aproxime ou se afaste dos seus próprios valores.

Humor
É comum que o humor seja usado na sessão, especialmente para abordar de forma leve a maneira como nos prendemos às armadilhas da linguagem ou dos nossos padrões de comportamento. Essa é uma forma de olhar para a situação a partir de uma posição mais observadora e talvez pensar se não se está levando um problema a sério demais. O uso do humor, entretanto, depende muito do estilo pessoal do terapeuta e também do cliente. Eu particularmente costumo ter, com alguns clientes, sessões em que rimos bastante, e sei de alguns colegas que trabalham com ACT que isso acontece com frequência também com eles.

A relação terapêutica pode ser o aspecto mais importante de uma psicoterapia, trazendo mais ganhos até do que as técnicas psicoterápicas em si. Por isso é tão importante que ela seja compreendida e valorizada tanto pelo terapeuta como pelo cliente. Na ACT, a relação terapêutica que se busca é sólida, aberta e permeada por aceitação, respeito mútuo e amor. O ideal, nessa abordagem, é que a relação entre o terapeuta e a pessoa atendida expresse a flexibilidade psicológica que se tem como meta na terapia.

Referência

  1. Steven C. Hayes, Kirk D. Strosahl e Kelly G. Wilson. Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2a. edição). 2012. Londres: The Guilford Press.

Foto: Nick Kenrick

Prender-se ao passado

Existe um problema em potencial quando olhamos para o passado para entender o presente: podemos começar a achar que melhorar o presente depende de resolver o passado. A partir dessa crença, muitos de nós tentam refazer o passado. Mas você não pode refazer o seu passado — ele já passou. (…) Se começarmos a achar que o passado está causando as nossas circunstâncias presentes, então nos posicionamos como vítimas impotentes.
Bruce Tift

Entender o próprio passado é uma parte importante do processo terapêutico. Muitos dos padrões de comportamento que apresentamos na idade adulta podem ter se estabelecido muito cedo em nossas vidas, como formas de lidar com o ambiente em que crescemos. Olhar para esse contexto da infância e da adolescência pode ser muito útil para sabermos porque agimos como agimos no presente. A partir dessa compreensão, podemos avaliar a utilidade de antigos padrões com mais clareza e menos julgamento. É bem comum percebermos que já não é mais necessário mantê-los e que, muitas vezes, é justamente a nossa incapacidade de atualizar nossas percepções e comportamentos que nos traz problemas.

Só que, como diz a citação inicial, se ficarmos presos demais ao passado, acreditando que para seguir com a vida é preciso resolvê-lo, deixamos de usar essa compreensão da nossa história para nosso benefício e permitimos que ela nos paralise, muitas vezes nos vitimizando. É muito comum ouvir, nas sessões de terapia, clientes que dizem que querem “resolver” o passado. Pergunto, então, o que eles chamam e o que eles esperam dessa resolução. Muitos acreditam que é possível simplesmente apagar as experiências passadas, os traumas, as lembranças e as sensações ligadas à própria história. E que, só então, será possível viver completamente no presente. Por isso mesmo o texto diz que se essa é a expectativa, a terapia pode durar para sempre, pois esse tipo de resolução não é possível.

É impossível “limpar” o nosso passado porque não podemos mudá-lo. O foco na terapia, então, consiste em usar a compreensão que temos dele para mudar o presente. Isso passa pela análise da relação que temos com a ideia do nosso passado, pois as memórias e a forma como o enxergamos pode ser bem enganosa. Podemos ser seletivos e buscar confirmações que fortalecem a ideia que temos de nós mesmos, podemos esquecer informações importantes. Usamos o nosso passado para podermos saber quem somos, e vale a pena questionar tanto o que pensamos do que vivemos como aquilo que pensamos que somos, especialmente quando essas duas dimensões estão ligadas.

A real forma de “resolver” o passado pode ser bastante contraintuitiva. Para podermos nos relacionar com a nossa história, nossas experiências, nossas lembranças de forma que elas nos ajudem a mudar no presente, sem nos prendermos ou nos vitimizarmos, devemos aceitar o nosso passado. Quando entendemos, sem culpar ninguém, que temos que carregar ao longo da vida as marcas daquilo que foi feito conosco, por mais injusto ou indesejado que pareça, podemos ficar em paz com boa parte de nós mesmos e ter atitudes diferentes no presente. Entendemos mais facilmente que as velhas estratégias não são mais necessárias e que podemos agir, com confiança, em relação ao agora. Como costuma ser o caso quando falamos de aceitação, aceitar o passado é liberar-se dele.

Foto: Les Haines