Prender-se ao passado

Existe um problema em potencial quando olhamos para o passado para entender o presente: podemos começar a achar que melhorar o presente depende de resolver o passado. A partir dessa crença, muitos de nós tentam refazer o passado. Mas você não pode refazer o seu passado — ele já passou. (…) Se começarmos a achar que o passado está causando as nossas circunstâncias presentes, então nos posicionamos como vítimas impotentes.
Bruce Tift

Entender o próprio passado é uma parte importante do processo terapêutico. Muitos dos padrões de comportamento que apresentamos na idade adulta podem ter se estabelecido muito cedo em nossas vidas, como formas de lidar com o ambiente em que crescemos. Olhar para esse contexto da infância e da adolescência pode ser muito útil para sabermos porque agimos como agimos no presente. A partir dessa compreensão, podemos avaliar a utilidade de antigos padrões com mais clareza e menos julgamento. É bem comum percebermos que já não é mais necessário mantê-los e que, muitas vezes, é justamente a nossa incapacidade de atualizar nossas percepções e comportamentos que nos traz problemas.

Só que, como diz a citação inicial, se ficarmos presos demais ao passado, acreditando que para seguir com a vida é preciso resolvê-lo, deixamos de usar essa compreensão da nossa história para nosso benefício e permitimos que ela nos paralise, muitas vezes nos vitimizando. É muito comum ouvir, nas sessões de terapia, clientes que dizem que querem “resolver” o passado. Pergunto, então, o que eles chamam e o que eles esperam dessa resolução. Muitos acreditam que é possível simplesmente apagar as experiências passadas, os traumas, as lembranças e as sensações ligadas à própria história. E que, só então, será possível viver completamente no presente. Por isso mesmo o texto diz que se essa é a expectativa, a terapia pode durar para sempre, pois esse tipo de resolução não é possível.

É impossível “limpar” o nosso passado porque não podemos mudá-lo. O foco na terapia, então, consiste em usar a compreensão que temos dele para mudar o presente. Isso passa pela análise da relação que temos com a ideia do nosso passado, pois as memórias e a forma como o enxergamos pode ser bem enganosa. Podemos ser seletivos e buscar confirmações que fortalecem a ideia que temos de nós mesmos, podemos esquecer informações importantes. Usamos o nosso passado para podermos saber quem somos, e vale a pena questionar tanto o que pensamos do que vivemos como aquilo que pensamos que somos, especialmente quando essas duas dimensões estão ligadas.

A real forma de “resolver” o passado pode ser bastante contraintuitiva. Para podermos nos relacionar com a nossa história, nossas experiências, nossas lembranças de forma que elas nos ajudem a mudar no presente, sem nos prendermos ou nos vitimizarmos, devemos aceitar o nosso passado. Quando entendemos, sem culpar ninguém, que temos que carregar ao longo da vida as marcas daquilo que foi feito conosco, por mais injusto ou indesejado que pareça, podemos ficar em paz com boa parte de nós mesmos e ter atitudes diferentes no presente. Entendemos mais facilmente que as velhas estratégias não são mais necessárias e que podemos agir, com confiança, em relação ao agora. Como costuma ser o caso quando falamos de aceitação, aceitar o passado é liberar-se dele.

Foto: Les Haines

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