O que você quer fazer com seu tempo?

Ninguém vai ajudar os homens, se eles não se ajudarem. E isso pode ser feito facilmente. Basta não esperarem nada, do céu ou da terra, e simplesmente parar de arruinar as próprias vidas.
Liev Tolstoi

Às vezes faço para as pessoas que atendo algumas perguntas que não são fáceis de responder. Alguns deles brincam: “lá vem você com essas questões existenciais!”. É verdade, não é fácil falar sobre o nosso propósito na vida, sobre como queremos viver ou até mesmo pensar na nossa finitude e no limite do tempo. Mas o fato é que essas perguntas, tão incômodas que fazem com que prefiramos evitá-las, são essenciais para a terapia e para a vida como um todo.

Em algum determinado momento, costumo fazer essas indagações, que podem assumir diversas formas:

O que você quer fazer com seu tempo?
Como você quer viver?
Que tipo de pessoa você quer ser?
O que você quer ser capaz de fazer?
Você pensa na sua própria morte?

Esses questionamentos servem para traçarmos algum tipo de direção na vida, bem como para colocar algumas coisas em perspectiva, pois alguns problemas podem ficar mais simples ou mais fáceis de lidar quando enxergamos as coisas de forma mais ampla.

Nem sempre temos respostas prontas para essas perguntas, o que pode até ser bom, pois nos faz parar para pensar. No fim das contas, não importa qual seja a nossa história, nossa classe social, nossa crença, a única coisa que realmente temos é um punhado de tempo. Se formos além, veremos que “tempo” é um conceito abstrato, e por não sabermos quanto dele temos, o único “tempo” que de fato temos é esse exato momento.

Por conta disso, não costumo fazer essas perguntas em termos de um direcionamento para metas. Se eu perguntasse “aonde você quer chegar?”, a resposta dificilmente seria algo que depende apenas da pessoa. Um objetivo é útil apenas na medida em que conseguimos nos direcionar para ele no presente. Posso querer um determinado emprego, um relacionamento harmonioso ou até mesmo ser feliz, mas a questão é: “o que você pode fazer nesse exato momento para ir na direção do que você quer?”. Esses objetivos podem ou não se concretizar, mas o que está realmente sob o nosso controle é se queremos nos dedicar a atingi-los, se queremos usar nosso tempo em função deles.

A noção de que o nosso tempo é limitado pode ser assustadora. Sabemos que dificilmente seremos numa só vida um músico habilidoso, um grande matemático, uma mãe extremamente dedicada aos filhos e um atleta olímpico. Nossa limitação implica em escolhas, e por serem escolhas muito importantes, muitas vezes elas nos paralisam. Às vezes simplesmente não conseguimos decidir o que queremos e usamos o nosso tempo tentando achar o caminho ideal, enquanto a vida real passa. Não há saída para isso que não seja abrir mão do que não é essencial e entender que a vida tem seus limites. Não somos super-homens capazes de tudo e se esperarmos que é natural podermos usufruir, em uma vida, de todas as maravilhas da existência, terminaremos muito desapontados. Basta pensar nas pessoas que perdem a vida muito cedo.

Pensar na morte pode ajudar a nos tirar da letargia de uma rotina insatisfatória e nos colocar em movimento. É um bom exercício nos imaginarmos num caixão, com nada mais a ser feito. Vislumbrar a finitude dessa existência, paradoxalmente, pode nos levar a aproveitá-la melhor. Não importa se você acredita ou não em algo depois dessa vida: o fato é que temos esse tempo, esse momento. Não sabemos se vamos realizar nossos sonhos, se vamos conseguir ser felizes, se vamos ter muitos ou poucos anos pela frente. A única coisa que temos como realmente certa é de estarmos vivos nesse exato momento. Você tem esse tempo, esse agora. Como você quer passar por ele?

Resultados da psicoterapia

Os resultados e a efetividade da psicoterapia estão entre as principais questões de quem procura um psicólogo para trabalhar problemas emocionais e comportamentais. É comum ouvir questões como:

“Terapia funciona?”
“Como a terapia pode me ajudar?”
“Como saber se a terapia está funcionando?”

A resposta mais simples e geral para se a psicoterapia funciona é que sim. Existem centenas de estudos e revisões de estudos mostrando a décadas a sua efetividade. Entretanto, precisamos lembrar que existem muitas formas de psicoterapia e existem muitas dificuldades que levam as pessoas a procurar terapia. Então, saber que no geral as terapias funcionam não responde a pergunta mais básica que as pessoas se colocam, que é “a terapia pode me ajudar?”.

Para responder essa pergunta específica, vamos lembrar que existem diversas abordagens, ou métodos de trabalho, na terapia. Algumas são mais orientadas para um resultado, outras menos. Algumas são mais focadas no trabalho que é feito na sessão, dentro do consultório, pois partem do pressuposto que conversar sobre o problema e percebê-lo de formas diferentes podem gerar mudanças. Outras são mais diretivas e buscam a mudança através da forma de atuar no mundo “real”, no dia a dia da pessoa atendida.

O que é mais importante, para que haja resultado, é que você se identifique com a forma de trabalho do seu psicólogo. Tanto que a relação terapêutica é o que mais influencia o resultado da terapia¹, mais até do que a forma como o psicólogo trabalha.

Portanto, é importante que você converse com seu terapeuta sobre como ele encara a questão dos objetivos da terapia. Veja se vocês concordam em relação a quais são os objetivos, como medi-los e como fazer para que eles sejam atingidos. Se houver concordância em relação à forma de trabalhar, maiores chances de um bom resultado.

Mas fica a questão: como medir esses objetivos, como saber se você está chegando mais perto deles ou não? Alguns profissionais deixarão essa pergunta a ser respondida pela pessoa que está sendo atendida. Outros poderão recorrer a testes e questionários para acompanhar o progresso.

No meu caso, no início da terapia, eu e a pessoa que estou atendendo estabelecemos as áreas que serão o foco do trabalho, bem como os objetivos em relação à aquela área. Entretanto, os objetivos não são ligados à fatores externos (como, por exemplo: “quero ter o cargo x no meu trabalho”), e sim ao que está no controle dela, ou seja, como ela quer conseguir agir dentro de determinada situação (como: “quero atuar de tal maneira no meu trabalho”). Geralmente isso envolve fazer coisas diferentes e que são difíceis para a pessoa. Essas mudanças necessárias podem gerar sofrimento — e por isso “se sentir bem” não é necessariamente uma boa medida de se a terapia está funcionando ou não. Uma pessoa pode estar se sentindo bem por estar acomodada e confortável nos hábitos que a afastam de tudo que ela deseja para si mesma a longo prazo.

Dessa forma, a medida de melhora para mim é o quanto a pessoa está conseguindo mudar na direção estabelecida por ela mesma, fazendo coisas mais difíceis, tolerando e enfrentando os obstáculos, se tornando mais flexível e se aproximando de uma vida ligada aos seus valores. Se fosse resumir isso em apenas uma pergunta que a pessoa poderia se fazer, seria: “o quanto estou conseguindo viver a vida que escolhi viver?”

Referência
1. Relation between working alliance and outcome in psychotherapy: A meta-analysis. Horvath, Adam O.; Symonds, B. Dianne. Journal of Counseling Psychology, Vol 38(2), Apr 1991, 139-149. doi: 10.1037/0022-0167.38.2.139

A história do fazendeiro chinês

A forma como encaramos o nosso passado pode ser um fardo para a vida atual. Isso acontece especialmente quando damos valor demais àquilo que acreditamos terem sido escolhas erradas, oportunidades perdidas ou decisões equivocadas. Nossa tendência é imaginar que, se tivéssemos feito as escolhas “certas”, hoje estaríamos vivendo uma vida feliz, e se não estamos, é porque não soubemos agir corretamente, como se o curso das nossas vidas dependesse totalmente de nós mesmos.

Esse tipo de pensamento acaba nos deprimindo. Pois é impossível ganhar quando comparamos a realidade com uma idealização imaginária. A comparação, por si só, provavelmente nos faz mal, mas quando não conseguimos aceitar nossa história e a enxergamos como um acumulado de erros, nos sentimos ainda piores. Além disso, quando ficamos presos no passado dessa forma, acreditamos que nosso tempo já passou, que não temos mais jeito, que não há mais nada a ser feito hoje. Consequentemente, ficamos paralisados e não conseguimos mudar no presente, nos condenando a uma vida lamentando por aquilo que acreditamos que poderia ter sido.

Encarar o passado dessa forma é mais do que contraproducente, é também simplesmente irreal. Essa vida ideal que imaginamos caso tivéssemos feito as coisas “certas” não existe, pois não temos como saber o que teria sido. Cada decisão que tomamos é somente uma variável numa teia incrivelmente complexa de possibilidades, e é impossível saber quais as reais consequências de cada atitude no curso de nossa vida. Para ilustrar isso, podemos lembrar uma história folclórica:

Era uma vez um fazendeiro chinês. Um dia, um de seus cavalos fugiu. Seus vizinhos vieram até ele, comentando como aquele acontecimento era um infortúnio. O fazendeiro respondeu: “pode ser”.

No dia seguinte, o cavalo que fugiu voltou, trazendo com ele sete cavalos selvagens. Os vizinhos apareceram novamente, dizendo que isso era uma grande sorte. O fazendeiro respondeu: “pode ser”.

Depois disso, o filho do fazendeiro tentou domar um dos cavalos selvagens e caiu, quebrando uma perna. Os vizinhos vieram lamentar o ocorrido, dizendo que aquilo era muito ruim. O fazendeiro respondeu: “pode ser”.

No dia seguinte, oficiais do exército que estava recrutando soldados apareceram, mas não levaram o filho do fazendeiro por conta da sua perna quebrada. Os vizinhos vieram ao fazendeiro falando sobre como aquilo era ótimo, e ele respondeu: “pode ser”.

Essa história nos faz perceber que não podemos classificar os acontecimentos como bons ou ruins, simplesmente porque não sabemos os desdobramentos de cada situação. Por mais angustiante que possa parecer, o fato é que não temos controle sobre o que irá acontecer conosco e nem mesmo sobre o resultado das nossas ações, especialmente a longo prazo. Não faz sentido, então, comparar nossa história com uma outra história ideal, pois esta simplesmente não existe.

Nos resta apenas entender que nossa história é única e aquilo que chamamos de “erro” é apenas uma avaliação muito rasa das nossas atitudes passadas. Podemos, em vez disso, ser humildes o suficiente para entender que não estamos no comando do universo e escolher valores que guiem nossas ações em vez de voltá-las para resultados que não dependem apenas de nós.