Depressão: andando no escuro

Foto: Magdalena Roeseler
Foto: Magdalena Roeseler

Pessoas que estão passando por um período de depressão frequentemente dizem que não conseguem enxergar a luz no fim do túnel. Sentem-se desamparados, desesperançosos, sem perspectiva. Geralmente enfrentam momentos de melancolia profunda, crises de choro e, nos casos mais graves, pensamentos suicidas e tentativas de fato de tirar a própria vida.

A depressão é um dos quadros de saúde mental mais comuns na atualidade. Para se encaixar no diagnóstico de depressão, a pessoa precisa apresentar pelo menos cinco dos seguintes sintomas, segundo o DSM-5:

  • Sentir-se deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias
  • Perda ou ganho de peso significativo
  • Insônia ou sono excessivo quase todos os dias
  • Agitação ou lentidão psicomotora quase todos os dias
  • Fadiga ou perda de energia quase todos os dias
  • Sentir-se sem valor ou com culpa excessiva, quase todos os dias
  • Habilidade reduzida de pensar ou se concentrar, quase todos os dias
  • Pensamentos recorrentes sobre morte, pensamentos suicidas sem um plano, tentativa de suicídio ou plano para cometer suicídio

Para que se considere que a pessoa esteja em depressão, os sintomas precisam causar impacto significativo no convívio social, no trabalho ou em outras áreas importantes.

Embora a depressão seja um quadro que pode apresentar risco de morte para o paciente, muitas vezes ela é vista com negligência, como se fosse “frescura” ou “bobagem” por parte da pessoa que está sofrendo. Um documento do Ministério da Saúde aponta que algumas concepções erradas sobre a depressão podem atrapalhar seu diagnóstico e tratamento, como:

  • depressão é fraqueza de caráter
  • a pessoa pode se curar apenas com força de vontade
  • depressão é uma consequência natural do envelhecimento
  • confundir depressão com estresse

É muito importante, especialmente para profissionais de saúde, não minimizar sintomas depressivos. As pessoas não entram em depressão porque querem; estar em depressão é angustiante, e se dependesse apenas da pessoa, ela certamente não permaneceria nesse estado. A depressão precisa de tratamento, que é feito com psicoterapia, medicamentos ou uma combinação de ambos.

Enquanto psicoterapeuta, uma das grandes dificuldades que enfrento ao lidar com pacientes depressivos é justamente a falta de perspectiva em relação à melhora. Quando estamos no meio de uma crise depressiva, não conseguimos perceber que ela é um estado temporário; que a angústia que estamos sentindo é passageira. Em outras palavras, é difícil ver a tal luz no fim do túnel. A atenção da pessoa se estreita e ela não consegue ver as coisas de outra forma que não a negativa. É difícil colocar eventos e situações em perspectiva.

O trabalho do terapeuta, em parte, é fazer com que a pessoa continue caminhando, ainda que ela se sinta no escuro. Incentivá-la a continuar agindo — trabalhando, fazendo aquilo que já lhe deu prazer no passado, tendo contato com outras pessoas — dia após dia, mesmo que não se veja graça ou sentido naquilo. O terapeuta consegue ver a luz no fim do túnel — ainda que muitas vezes o paciente tente convencê-lo de que não há luz nenhuma — e o seu papel é andar naquela direção ao lado da pessoa que está em depressão, até que ela consiga ver a saída por conta própria e continuar a sua caminhada.

Referências:
American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.
Ministério da Saúde. (2009). Prevenção do suicídio: Manual dirigido a profissionais da saúde da atenção básica. Campinas: Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Unicamp.

Com a colaboração de Ester Bergsten Mendes.

Como a terapia não deve ser

Foto: Yasin Hassan
Foto: Yasin Hassan

Um amigo é alguém que lhe dá total liberdade para ser quem você é — especialmente para sentir, ou não sentir. O que quer que você esteja sentindo num momento está bom para ele. É isso que significa o verdadeiro amor — deixar uma pessoa ser quem ela realmente é.
Jim Morrison

Atuo como terapeuta cognitivo-comportamental. Isso significa que o trabalho clínico que faço tem base em teorias e técnicas originadas tanto da psicologia comportamental como da cognitiva. Como qualquer abordagem psicológica, é um modelo que tem suas forças e suas fraquezas. Um dos pontos fortes desse modelo é a preocupação com a efetividade dos tratamentos, ou seja, há sempre muita ênfase em saber o que funciona melhor.

Entretanto, uma limitação do modelo cognitivo-comportamental talvez se deva justamente a essa preocupação com a eficácia. Ocorre quando uma pessoa procura um tratamento e o terapeuta estabelece, por conta própria, qual é o modo “normal”, “ideal” ou “adequado” de se comportar, sem discutir isso exaustivamente com a pessoa atendida. Pior, muitas vezes emprega técnicas para “melhorar” o comportamento do cliente sem que isso fique claro. Algumas vezes, o terapeuta intervém em questões que nem são aquelas que trouxeram a pessoa para a terapia, por ter já em mente um padrão de normalidade a ser atingido.

Note-se que esse é mais um problema da forma como o modelo é utilizado, mais do que da teoria em si. Dentro de certos contextos (por exemplo, atendimentos com número limitado de sessões ou atendimentos dentro de instituições) essa padronização tende a ser mais acentuada. Outro fator que acentua a ideia de que a normalidade é o objetivo são os manuais de classificação, os critérios diagnósticos, que, se não compreendidos a fundo, passam a ideia de que a pessoa tem algo errado dentro dela que precisa ser consertado.

Essa forma de enxergar o processo psicoterápico pode levar a dois problemas. O primeiro é ético. Até que ponto o terapeuta pode usar do seu conhecimento para atuar sobre algo sem o conhecimento e o consentimento da pessoa que se colocou sob seus cuidados? Será que buscar tratamento psicológico significa dar carta branca ao terapeuta?

Se essa questão já é complicada com adultos, imagine com crianças e adolescentes. Pois, na maioria das vezes, crianças e adolescentes não expressam vontade de receber tratamento; na verdade, vão ao psicólogo por demanda dos pais ou, mais comumente, da escola. Nesse caso, espera-se que o profissional faça com que a criança consiga se adaptar, ou seja, se comportar de acordo com o que é esperado pela instituição ou pelos pais. Não é raro que haja conflito entre essas demandas, e o psicólogo fica na difícil posição de ter que manejar todas elas.

Há também, um outro problema relacionado à imposição de um modelo de comportamento ideal. É o fato de que muitas pessoas se sentem inadequadas, erradas ou deslocadas sem que haja, na verdade, nada de errado com elas. Elas acham que deveriam ser diferentes por conta de exigências externas: para ter aprovação dos pais, do cônjuge, dos colegas ou até acreditam que devem conseguir se comportar de acordo com algum padrão estabelecido pela mídia. Geralmente, pensam que devem conseguir ser alegres, controladas, magras, bem sucedidas e, quando isso não acontece, concluem que tem alguma coisa de errado. Mas muitas vezes, a forma de lidar com esses casos é entender a fonte dessas expectativas e, caso sejam demandas externas que levam a pessoa atendida a se sentir mal consigo mesma, o caminho de tratamento — discutido, obviamente entre terapeuta e cliente — pode ser justamente o oposto. Não se buscam formas de atingir um ideal externo, e sim de aceitar aquilo que se é.

Essa forma de trabalho só é possível se o terapeuta não tem um modelo ideal, pré-estabelecido, de como as pessoas devem agir. Ele precisa olhar para cada pessoa que atende, entender de onde vêm suas demandas, suas angústias e trabalhar com um leque de alternativas de como melhorar as dificuldades. Mas sempre discutindo com a pessoa atendida quais são os valores e objetivos dela e colocando seu conhecimento a serviço desses valores, e não das suas próprias concepções. É claro que o terapeuta pode discutir com o cliente as consequências de atuar de acordo com determinados valores. Mas, se após isso, não houver concordância, o terapeuta não deve atender a pessoa, simples assim. Terapeuta e cliente precisam estar na mesma sintonia. Ser cúmplices, aliados, com uma relação de igual para igual. E isso só é possível com honestidade, aceitação e respeito.

Com a colaboração de Ester Bergsten Mendes.

Materialismo e (in)felicidade

Foto: slimmer_jimmer
Foto: slimmer_jimmer

O mundo diz: “Tu tens necessidades, satisfaz-as. Tu tens tanto direito quanto os ricos e os poderosos. Não hesites em satisfazer tuas necessidades, certamente, expande tuas necessidades e exige mais.” Esta é a doutrina mundana de hoje. E eles crêem que isto é liberdade. O resultado para os ricos é o isolamento e suicídio, para os pobres, inveja e assassínio.
Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov

Existem alguns aspectos sobre os quais diversas escolas de filosofia, religiões e modelos de conduta espiritual convergem. Um desses pontos em que parece haver grande concordância é apontar o engano que há no materialismo, ou seja, em buscar a felicidade através das posses materiais. Um dos expoentes dessa perspectiva é Francisco de Assis, que levou uma vida de pobreza e mendicância. No oriente, há o exemplo do príncipe Sidarta, que deixou uma vida de riqueza em seu palácio para juntar-se a ascetas, tornando-se o Buda depois disso. Ouvimos, então, há milênios, que cultivar uma vida focada em bens materiais não é o caminho para a paz e a felicidade. Mas, se olharmos para a sociedade contemporânea, parece que estamos bastante distantes dessa mensagem.

Embora já seja motivo de atenção da filosofia e das religiões há muito tempo, as consequências do materialismo têm sido também objeto de diversas pesquisas realizadas por psicólogos. Os cientistas parecem concordar que o materialismo é um obstáculo ao bem estar. Em um artigo escrito para o jornal inglês “The Guardian”, George Monbiot levanta uma série de estudos mostrando que o apego às posses não apenas nos torna pessoas piores, mas também torna nossas vidas piores.

Talvez seja importante, nesse ponto, esclarecer um pouco mais o que se chama de materialismo. O materialismo não se refere a ser rico ou pobre, ou à satisfação das necessidades básicas que envolvem viver dignamente. O materialismo aqui é um sistema de valores orientado para a aquisição de bens materiais e para a repercussão social disso, o que significa viver em função de possuir, por conta da preocupação que se tem com a própria imagem para os outros. Nesse aspecto, não importa se você é rico ou pobre: a questão é o quanto você vive em função dos seus bens ou do desejo de possui-los. Você pode ser pobre e materialista, como também rico e não materialista.

Em seu artigo, Monbiot mostra estudos relacionando o materialismo a:

  • piores relacionamentos
  • falta de empatia
  • isolamento
  • ansiedade
  • depressão
  • falta de senso de propósito na vida
  • infelicidade

Já se sabia que o materialismo andava junto com todos esses fatores. Entretanto, estudos mais recentes mostram que pode haver aí uma relação causal: quanto mais materialista você é, menor o seu bem estar. Em vez de fazer bem, o acúmulo de posses pode aumentar suas preocupações, ansiedade e fazer com que você se torne uma pessoa mais egoísta. Parece que a aquisição de bens materiais não têm cumprido a expectativa que observamos em propagandas: a felicidade prometida não está no shopping center.

Não é difícil entender o processo. O que estamos buscando quando compramos, quando consumimos — às vezes de maneira compulsiva? O que está acontecendo quando colocamos todas as nossas expectativas na nossa próxima aquisição? Estamos querendo preencher aquele vazio essencial que todos nós temos. Queremos ser felizes e nos sentir melhor. E o materialismo parece ser uma maneira lógica, pois basta ligarmos a TV para recebermos inúmeras mensagens dizendo que se focarmos em ter mais, nos sentiremos melhor. E de fato nos sentimos melhores, por um breve momento. Até que a excitação da compra passe ou a fatura do cartão de crédito chegue. É possível que, depois, você se sinta ainda pior. As companhias não estão preocupadas com a sua felicidade, por mais que suas propagandas digam o contrário. Elas tem apenas uma função, que é gerar lucro, a qualquer custo. A única felicidade com a qual elas se preocupam é a dos seus acionistas. Ou seja, fomos enganados. Fomos levados a procurar a resposta no lugar errado.

Mas saber onde a resposta não está pode nos dar dicas sobre outras possibilidades para as quais podemos olhar. Se sabemos que o materialismo nos faz mal, talvez isso esteja apontando para aquilo que nos faz bem. E talvez o bem estar esteja justamente no lado oposto. Diversas pesquisas mostram que há duas condutas associadas a maiores níveis de felicidade: generosidade e gratidão. Reconhecer o valor daquilo que já se tem, ser capaz de se desapegar da busca por bens materiais e, mais ainda, conseguir abrir mão de algo que é seu pelo bem de outra pessoa são atitudes relacionadas com maior bem estar.

Essa é mais uma coisa que não é novidade. Ouvimos isso há milênios, mas ainda temos dificuldade em praticar essas atitudes. Sempre temos, no entanto, a chance de começar a tentar. Até porque, nesse aspecto, você não precisa de pesquisas científicas dizendo o que é melhor ou pior pra a sua vida: você pode experimentar e concluir por conta própria. E se você já buscou no materialismo uma felicidade que não alcançou, não custa nada tentar o contrário, agindo com compaixão, generosidade e gratidão. Desconfio que você vai ter uma vida melhor. E, mesmo que não dê certo, você vai ter tornado melhor a vida das pessoas à sua volta.

Fontes
http://www.monbiot.com/2013/12/09/one-rolex-short-of-contentment/
http://pss.sagepub.com/content/23/5/517
http://psycnet.apa.org/journals/psp/84/2/377/