Como a terapia não deve ser

Foto: Yasin Hassan
Foto: Yasin Hassan

Um amigo é alguém que lhe dá total liberdade para ser quem você é — especialmente para sentir, ou não sentir. O que quer que você esteja sentindo num momento está bom para ele. É isso que significa o verdadeiro amor — deixar uma pessoa ser quem ela realmente é.
Jim Morrison

Atuo como terapeuta cognitivo-comportamental. Isso significa que o trabalho clínico que faço tem base em teorias e técnicas originadas tanto da psicologia comportamental como da cognitiva. Como qualquer abordagem psicológica, é um modelo que tem suas forças e suas fraquezas. Um dos pontos fortes desse modelo é a preocupação com a efetividade dos tratamentos, ou seja, há sempre muita ênfase em saber o que funciona melhor.

Entretanto, uma limitação do modelo cognitivo-comportamental talvez se deva justamente a essa preocupação com a eficácia. Ocorre quando uma pessoa procura um tratamento e o terapeuta estabelece, por conta própria, qual é o modo “normal”, “ideal” ou “adequado” de se comportar, sem discutir isso exaustivamente com a pessoa atendida. Pior, muitas vezes emprega técnicas para “melhorar” o comportamento do cliente sem que isso fique claro. Algumas vezes, o terapeuta intervém em questões que nem são aquelas que trouxeram a pessoa para a terapia, por ter já em mente um padrão de normalidade a ser atingido.

Note-se que esse é mais um problema da forma como o modelo é utilizado, mais do que da teoria em si. Dentro de certos contextos (por exemplo, atendimentos com número limitado de sessões ou atendimentos dentro de instituições) essa padronização tende a ser mais acentuada. Outro fator que acentua a ideia de que a normalidade é o objetivo são os manuais de classificação, os critérios diagnósticos, que, se não compreendidos a fundo, passam a ideia de que a pessoa tem algo errado dentro dela que precisa ser consertado.

Essa forma de enxergar o processo psicoterápico pode levar a dois problemas. O primeiro é ético. Até que ponto o terapeuta pode usar do seu conhecimento para atuar sobre algo sem o conhecimento e o consentimento da pessoa que se colocou sob seus cuidados? Será que buscar tratamento psicológico significa dar carta branca ao terapeuta?

Se essa questão já é complicada com adultos, imagine com crianças e adolescentes. Pois, na maioria das vezes, crianças e adolescentes não expressam vontade de receber tratamento; na verdade, vão ao psicólogo por demanda dos pais ou, mais comumente, da escola. Nesse caso, espera-se que o profissional faça com que a criança consiga se adaptar, ou seja, se comportar de acordo com o que é esperado pela instituição ou pelos pais. Não é raro que haja conflito entre essas demandas, e o psicólogo fica na difícil posição de ter que manejar todas elas.

Há também, um outro problema relacionado à imposição de um modelo de comportamento ideal. É o fato de que muitas pessoas se sentem inadequadas, erradas ou deslocadas sem que haja, na verdade, nada de errado com elas. Elas acham que deveriam ser diferentes por conta de exigências externas: para ter aprovação dos pais, do cônjuge, dos colegas ou até acreditam que devem conseguir se comportar de acordo com algum padrão estabelecido pela mídia. Geralmente, pensam que devem conseguir ser alegres, controladas, magras, bem sucedidas e, quando isso não acontece, concluem que tem alguma coisa de errado. Mas muitas vezes, a forma de lidar com esses casos é entender a fonte dessas expectativas e, caso sejam demandas externas que levam a pessoa atendida a se sentir mal consigo mesma, o caminho de tratamento — discutido, obviamente entre terapeuta e cliente — pode ser justamente o oposto. Não se buscam formas de atingir um ideal externo, e sim de aceitar aquilo que se é.

Essa forma de trabalho só é possível se o terapeuta não tem um modelo ideal, pré-estabelecido, de como as pessoas devem agir. Ele precisa olhar para cada pessoa que atende, entender de onde vêm suas demandas, suas angústias e trabalhar com um leque de alternativas de como melhorar as dificuldades. Mas sempre discutindo com a pessoa atendida quais são os valores e objetivos dela e colocando seu conhecimento a serviço desses valores, e não das suas próprias concepções. É claro que o terapeuta pode discutir com o cliente as consequências de atuar de acordo com determinados valores. Mas, se após isso, não houver concordância, o terapeuta não deve atender a pessoa, simples assim. Terapeuta e cliente precisam estar na mesma sintonia. Ser cúmplices, aliados, com uma relação de igual para igual. E isso só é possível com honestidade, aceitação e respeito.

Com a colaboração de Ester Bergsten Mendes.

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