Aceitar o sofrimento

No meu caso pessoal, a prática mais forte e mais eficaz para ajudar a tolerar o sofrimento consiste em ver e entender que o sofrimento é a natureza essencial da vida. Ora, quando passamos por alguma dor física ou qualquer outro problema, naturalmente naquele instante há uma sensação de queixa, porque o sofrimento é muito forte. Há um sentimento de rejeição associado ao sofrimento, como se não devêssemos estar passando por aquilo. Naquele instante, porém, se pudermos encarar a situação de outro ângulo e perceber que este corpo é a própria base do sofrimento isso reduz aquele sentimento de rejeição… aquele sentimento de que de algum modo não merecemos sofrer, de que somo vítimas. Portanto, uma vez que compreendamos e aceitamos essa realidade, passaremos a vivenciar o sofrimento como algo que é perfeitamente natural.
Dalai Lama

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Michele Catania

A ideia que temos nos nossos dias é de que o sofrimento é algo fora do lugar, errado, que deve ser evitado a todo custo. Vemos nas propagandas, nos filmes, como todos parecem ser felizes ou têm promessas de viverem felizes para sempre. E  acreditamos facilmente que uma vida sem sofrimento é possível.

O que percebo nos meus atendimentos é que, por causa disso, é comum ter vergonha do próprio sofrimento, como se fosse algo proibido. As pessoas acham que elas não deveriam estar sentindo aquilo. Nessas situações, costumo mostrar pra a pessoa que tudo bem ela sofrer, que ela tem direito de se sentir mal frente a uma situação difícil e que não há nada de errado nisso. Geralmente, só isso já faz com que a pessoa se sinta melhor.

Isso está relacionado ao conceito de aceitação. Como é apresentado no trecho acima, a ideia é que o sofrimento é natural e faz parte da vida. Se acreditamos que podemos erradicar o sofrimento, tentando controlar tudo, não teremos paz: ao contrário, seremos extremamente ansiosos e infelizes, pois nossas tentativas inevitavelmente falharão. Por outro lado, uma vez que conseguimos encarar o sofrimento como natural e decidimos abraçá-lo, há uma espécie de libertação que nos permite viver melhor.

Pare para pensar um pouco: não parece ser um alívio a possibilidade de parar de fugir de tudo que nos assusta? Por mais paradoxal que pareça, aceitar o sofrimento nos faz sofrer menos.

Entendendo a ansiedade: alguns fatos

Graur Codrin
Graur Codrin

É difícil lidar com a ansiedade porque costumamos encará-la da forma errada, enxergando-a como um problema que precisa ser removido. É natural, já que não é agradável se sentir ansioso ou angustiado. No entanto, como já vimos no texto sobre evolução, a ansiedade faz parte da nossa natureza. Já que não temos escolha a não ser aprender a conviver com ela, Germer (2005) propõe uma lista de fatos — ou insights, como ele chama — que devem servir de guia na forma como lidamos com a ansiedade. Seguem alguns deles:

1. A ansiedade é um fato da vida. Ela nos protege do perigo. Ela faz parte do nosso sistema nervoso e é inevitável.

Não existe vida sem ansiedade, medo ou tensão. Essas são as formas que o nosso organismo e a nossa mente têm para se preparar e se proteger de eventos potencialmente ameaçadores. Ter a expectativa de uma vida sem isso é irreal. O primeiro passo para se lidar com a ansiedade é justamente encará-la como um processo natural e não como algo estranho a ser eliminado.

2. Não podemos controlar precisamente quando, onde e o que sentimos ou pensamos. Os eventos mentais ocorrem no cérebro, muitas vezes antes mesmo de tomarmos consciência deles.

Da mesma forma que o nosso coração bate, o nosso cérebro pensa. Da mesma forma que você não pode controlar diretamente o seu batimento cardíaco, não dá para controlar diretamente o que surgirá na sua mente em um determinado momento ou situação. O que conta, então, é lidar de uma forma saudável com o que surge: aceitar a falta de controle e perceber o que ocorre dentro da sua cabeça como um observador de si mesmo.

3. Tentar controlar ou evitar a experiência é inútil; frequentemente, só piora o problema.

Pretendo falar mais diretamente sobre o controle e a tentativa de evitar as experiências internas. Por ora, posso adiantar que lutar contra a ansiedade é justamente uma das coisas que a torna maior.

4. O cérebro comete erros. Quando entramos em pânico, o cérebro percebe perigo onde não existe.

Não precisamos acreditar em tudo que nossa mente nos diz. Uma das funções do nosso cérebro é procurar perigos em toda a parte para nos alertar. Na maior parte das vezes, ele comete falsos positivos — ok, exceto nos casos em que você está em um prédio em chamas ou tem um tigre correndo atrás de você. Nessas horas, concordo que faz parte entrar em pânico. Mas tirando essas situações, o nível exagerado de detecção de problemas nos leva a ter um grau de preocupação e tensão muito maior do que o necessário para se viver de forma segura.

5. O nosso progresso é medido não pela frequência com que entramos em pânico, mas por quanto conseguimos aceitar nossa ansiedade.

Já que a ansiedade não pode ser removida, não podemos medir o quanto estamos bem pelo número de vezes em que ficamos ansiosos, e sim pela mudança na forma como lidamos com esses eventos inevitáveis.

6. A cura significa não se iludir com os nossos medos. Eles se tornam eventos mentais comuns acontecendo no cérebro.

Perceba que viver bem não significa uma vida livre de medos e angústias, e sim uma vida em que se consiga conviver com essas sensações sem ser dominado por elas e, principalmente, sem que elas impeçam você de fazer aquilo que julga importante.

A melhor maneira de lidar com a ansiedade pode parecer contraintuitiva: envolve aceitar aquilo de que queremos nos livrar, fazer o que temos medo de fazer, entender que sentimentos negativos fazem parte da vida. Mas o que voce acha? Como você tem tentado se livrar da ansiedade? Tem funcionado? Se não, talvez seja interessante tentar uma forma alternativa.

Referência
Germer, C. K. (2005). Anxiety disorders: befriending fears. In C. K. Germer, R. D. Siegel, & P R. Fulton. Mindfulness and psychotherapy. New York: Guilford Press.