Você não tem nome

“Da mesma forma que ninguém pode amarrar um pacote com a linha do equador, o mundo real em movimento escorre como água através das nossas redes imaginárias. Por mais que a gente divida, conte, distribua ou classifique esse movimento em coisas e eventos particulares, isso é só uma forma de pensar sobre o mundo: ele não é, nunca, realmente dividido.”
Alan Watts

Foto: Beshef
Foto: Beshef

A linguagem é fantástica. Se pararmos para pensar por um instante, podemos reconhecer como é estranho e fascinante usar conjuntos de sons ou símbolos para representar alguma outra coisa. Todo nosso desenvolvimento científico e cultural depende da linguagem. Nós a usamos para tudo, até para falarmos conosco, nas nossas ruminações constantes.

Podemos pensar em quais são as implicações de usar a linguagem de maneira contínua nas nossas vidas. Faça um breve exercício: pare por alguns minutos de ler esse texto e preste atenção nos sons que você está ouvindo nesse momento. Além disso, preste atenção no que ocorre na sua mente enquanto você ouve. Pronto? Você provavelmente ouviu os sons e os nomeou (“estou ouvindo o canto de pássaros, o som de automóveis na rua, a televisão ligada”). Você pode, além disso, ter colocado todos os sons em categorias, como “gosto/não gosto”, “agradável/desagradável”, “alto/baixo”. A linguagem nos impede de experimentar a vida diretamente. Rotulamos e classificamos cada coisa que acontece conosco, no mesmo momento em que elas acontecem.

Ao classificar cada evento, cada situação, cada pessoa, podemos saber como agir frente a eles. Nos sentimos mais seguros. Mas isso também tem um custo: ficamos presos aos conceitos que temos das coisas; vivemos em função e em contato com esses conceitos, mais do que com as nossas experiências. Às vezes, criamos conceitos sobre algo e nunca mais o mudamos, não importa o quanto esse algo mude depois de certo tempo. Um outro problema é que, de forma geral, nossos conceitos são muito restritos. O mundo que eles tentam representar é muito diferente do que a nossa linguagem consegue descrever.

Pense no seu nome. No seu nome, está implícita toda a sua identidade, toda a sua história. É quase como se você fosse o seu nome. Mas, se você pensar bem, você não tem um nome. Ninguém tem. Seu nome é um mero conceito criado pelos seus pais e usado pelas pessoas que vivem com você. E o que você chama de identidade são outros conceitos atrelados ao conceito de nome. Pense em você sem o seu nome. E nas pessoas próximas de você sem os seus respectivos nomes. Em vez dos conceitos automáticos que geralmente os acompanham, talvez você consiga ver a si mesmo e aos outros um pouco mais como eles são de fato. Tente repetir o exercício dos sons, mas dessa vez prestando atenção em como você os rotula. Tente deixar de lado esses rótulos e ouvir os sons tais quais ele são, sem descrições.

Observar os conceitos que utilizamos inconscientemente o tempo todo nos permite escolher quando eles são necessários. É muito útil, de tempos em tempos, deixar de lado essas descrições e definições preestabelecidas que temos de tudo e de todos — inclusive nós mesmos. Dessa forma, podemos criar espaço para ver a nós, as coisas e as pessoas tais como elas são, sem preconceitos, julgamentos e rótulos. Pode ser um pouco desconfortável abandonar a segurança que os conceitos nos trazem, mas a abertura que ganhamos com essa atitude é um passo muito importante para uma vida mais plena.

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