Não há nada de errado com você

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Foto: Davide Cassanello

A psicologia ocidental costuma adotar pontos de vista semelhantes ao da medicina na sua forma de entender as pessoas. Uma visão médica implica num modelo de funcionamento “normal” de um indivíduo. Quando algo sai dessa normalidade, denomina-se um estado chamado de doença que precisa ser curada. Essa visão é bastante útil na medicina e permitiu inúmeros avanços na área da saúde. Entretanto, quando falamos de saúde mental, esse modelo pode não ser o mais adequado.

O primeiro problema que enfrentamos é o fato de ser muito difícil, quando nos referimos ao comportamento, sentimentos e emoções, dizer o que é normal. A forma como agimos e como nos sentimos é muito diversificada. Ela varia de acordo com a situação, de acordo com a nossa história e de acordo com a cultura em que estamos inseridos. Homens esquimós, em alguns contextos, podem “emprestar” suas esposas para outros homens. Na nossa cultura, isso seria tido como um comportamento atípico. Poderíamos adotar critérios, como a frequência média de um determinado comportamento, para estabelecer um padrão de normalidade. Mas esse seria um critério arbitrário: poderia me levar a pensar que se eu não assisto tanta TV quanto o resto das pessoas, tenho algum problema. Ou seja, falar em normalidade psicológica é impossível a menos que adotemos uma referência que será inevitavelmente limitada.

Como se isso não bastasse, há uma outra complicação, que é enxergar os sintomas de doenças mentais desconectados de seus contextos. É muito diferente ter períodos de tristeza sem um motivo aparente, ou ter um período de tristeza após a morte de alguém querido, por exemplo. Embora os manuais de classificação diagnóstica como o DSM-5 façam uma ressalva em relação à observação do contexto e do impacto que os transtornos causam na vida das pessoas, muitas vezes esse detalhe é negligenciado. E aí achamos que temos algo errado dentro de nós, tal qual um vírus, que precisa ser curado ou extirpado. Essa visão favorece muito a indústria farmacêutica, que com isso pode justificar a venda de medicações para o tratamento desses quadros.

Será que precisamos considerar os transtornos mentais como doenças para justificar o tratamento? Precisamos dizer que a pessoa tem alguma coisa? Se um medicamento pode ajudar alguém a funcionar melhor, ou seja, se sentir bem o suficiente para conseguir realizar aquilo que ela valoriza, isso já não é um motivo suficiente? Parece que, ao usar a ideia de doença mental, tentamos justificar biologicamente um conceito que é, na verdade, cultural. Apesar do termo “doença” mental já ter sido abandonado — e substituído por transtorno (disorder, em inglês) — a visão de que temos um funcionamento “normal” a ser obtido permanece.

Já vi muitos pacientes que se aliviam por ter um diagnóstico, como se finalmente eles se compreendessem. Algo como: “entendi porque eu ajo dessa maneira, é porque eu tenho TOC (transtorno obsessivo compulsivo)” — ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, ou ansiedade generalizada, ou personalidade borderline ou qualquer outro quadro que você queira colocar aqui. O problema é que essa explicação não explica nada. Você não age compulsivamente porque tem TOC. Você tem TOC porque age compulsivamente, e porque foi decidido pelos psiquiatras que quem se comporta dessa maneira receberá esse rótulo. E continuamos com a questão sobre o porquê das suas ações em aberto.

É mais produtivo, então, abandonar essa explicação circular, os rótulos e os julgamentos decorrentes. Se você quer realmente entender porque age compulsivamente, é necessário olhar para a sua história de vida, seus genes, a cultura em que você está inserido e, especialmente, qual a função da compulsão na sua vida atual. E como a junção desses fatores em você é algo extremamente único, esse olhar deve ser individualizado. Tudo isso sem o julgamento que geralmente fazemos de nós mesmos. Você é essa soma, esse fluxo, e o que você é não é certo ou errado, não é melhor ou pior, não é culpa ou responsabilidade de ninguém: apenas é. Olhe para si mesmo com olhos compassivos, curiosos, e desprovidos de julgamento. O que você vê?

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