A luta contra nós mesmos

Vivemos numa época em que a nossa imagem tem uma grande importância. Ou, pelo menos, é o que os nossos esforços indicam. Nas redes sociais, tentamos mostrar conhecimento através de nossas opiniões; competência e qualificações profissionais positivas; momentos de alegria e sucesso, seja em viagens, shows ou eventos. Somos, aparentemente: equilibrados, confiantes, seguros, bem-sucedidos e saudáveis.

Só que não. Nós sabemos que não somos tudo aquilo que tentamos mostrar. Conhecemos as nossas limitações, as nossas inseguranças, os nossos vícios, as nossas gafes. Conhecemos bem os pensamentos e sentimentos negativos que aparecem o tempo todo: obsessões, raiva, agressividade, medo, ideias absurdas, impulsos infantis e por aí vai. Só a percepção de que tudo isso existe já traz grande angústia: como podemos manter a nossa aparência de segurança e saúde se o nosso interior é esse caos?

Nossa resposta natural é a de tentar eliminar nosso lado “ruim”. Tentamos suprimir pensamentos, controlar nossa ansiedade, negar nossa insegurança. Buscamos combater nossos vícios e superar a nós mesmos. Até o momento em que percebemos que isso é inútil. Podemos conseguir controlar algum hábito, mudar algum comportamento, mas percebemos que muito em nós simplesmente não está nas nossas mãos. Ainda que estejamos vencendo uma batalha, o conflito não tem fim. E os efeitos colaterais de todo esse controle, por vezes, é pior do que o incômodo original.

Podemos até perceber a inutilidade da luta, mas olhamos em volta e achamos que todos parecem estar conseguindo viver bem. Então, decidimos fazer a outra coisa lógica: esconder aquilo que há de errado em nós. Nos esforçamos para buscar a imagem perfeita, ideal, da pessoa equilibrada, organizada e sem defeitos. Podemos até chegar tão próximos disso que acreditamos ser aquilo que idealizamos. Mas basta um deslize para percebemos que a nossa imperfeição continua lá. Falhamos e nos sentimos péssimos, já que, aparentemente, só nós estamos perdendo a batalha.

Podemos continuar lutando e fugindo. Mas há uma alternativa: parar de lutar contra si. Voltar-se e encarar aquilo que vemos como negativo em nós com uma postura de abertura e compaixão. Aceitarmos nossos enganos, reconhecermos nossas recaídas e, principalmente, abandonarmos o ideal rígido que construímos sobre nós mesmos. Quando ficamos mais em paz com nossa própria trajetória e a ideia de que somos mais uma pessoa com as mesmas dificuldades de qualquer outra, dá para levar a vida menos a sério.

Para quem é psicólogo, não é diferente. Às vezes as pessoas que atendemos acreditam que, por sermos terapeutas, estamos com tudo isso resolvido. Na verdade, somos — ou pelo menos eu sei que sou — tão inseguros como qualquer outro. Temos dúvida sobre o que falar, o que fazer, nos perguntamos se estamos indo no caminho certo… E muitas vezes simplesmente erramos mesmo. Diversas vezes fiz um comentário numa sessão do qual me arrependi no momento em que saiu da minha boca. Em muitas outras ocasiões, senti que não pude ajudar a pessoa o tanto quanto gostaria. Apenas há alguns anos passei a me permitir dizer “eu não sei” quando a pessoa esperava uma opinião profissional e eu não tinha ideia de como responder.

Tenho melhorado em admitir minhas limitações. Nesse reconhecimento não há um tom de autocrítica excessiva ou lamentação; é apenas isso, um reconhecimento. E tenho seguido, mesmo de maneira conscientemente imperfeita. Pois a alternativa seria fugir de mim mesmo, montar uma imagem de infalibilidade ou simplesmente desistir. E vejo que, continuando dessa forma, o resto continua caminhando. Nada desmorona porque assumi alguma vulnerabilidade. O que tem me feito confiar nisso: aquilo que simplesmente acontece é a única medida para entender a vida, mais do que qualquer julgamento obscuro que a minha mente possa criar.

 

Foto: Simon Wijers

2 Comentários

  1. Oi Rodrigo, amei seu texto, exatamente isso né, como é mesmo difícil para nós também enquanto psicoterapeutas, lidarmos com nossas limitações e imperfeições! Aceitar como algo natural e seguir adiante é mesmo o melhor caminho, apesar de não ser algo fácil. Abraços! Luciene.

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