A psicologia dos livros e a psicologia da vida real

Nas minhas relações pessoais, percebi que não é interessante, a longo prazo, agir como se eu fosse algo que não sou.
Carl Rogers

Quando lemos um livro sobre psicoterapia, geralmente encontramos um modelo teórico sobre como entender uma ou mais dificuldades que uma pessoa pode encontrar e um método de tratamento. Esse método de tratamento é costumeiramente ilustrado com descrições de casos em que a estratégia terapêutica é aplicada e a pessoa melhora consideravelmente. Se temos pouca experiência clínica, somos levados a acreditar que a psicoterapia é ilimitadamente poderosa para lidar com toda e qualquer questão humana. Mas não demora muito para descobrimos que, na vida real, isso não acontece assim.

Isso provavelmente ocorre em todas as áreas do conhecimento, e talvez seja mais comum nas áreas de humanas e saúde. Assim que iniciamos o trabalho como clínicos, percebemos que lidar com o ser humano — tanto aquele que estamos atendendo como com nós mesmos enquanto terapeutas — é muito mais complexo e impreciso do que qualquer livro ou curso costumam demonstrar. Entretanto, uma vez que ao longo da nossa formação aprendemos apenas com modelos perfeitos, enfrentamos de cara uma série de dificuldades. Como terapeutas, podemos facilmente cair nos seguintes enganos:

1. Acreditamos que há uma fórmula para tudo

Isso parece ocorrer de maneira mais comum nas terapias cognitivo-comportamentais (TCCs), que são conhecidas por seguirem um modelo científico rigoroso, pela sua objetividade e seu arcabouço de técnicas. Em livros e cursos de TCC é muito comum que realmente haja fórmulas: protocolos de tratamento para esse ou aquele transtorno. O problema é que esses protocolos são criados e testados em grupos em que pacientes muito específicos são selecionados. Eles geralmente são colaborativos, não apresentam comorbidades e precisam aderir ao tratamento, do contrário são excluídos das pesquisas. Quando vamos atender pessoas reais numa instituição ou no consultório, elas não estão restritas pelas limitações de um estudo científico, o que faz uma grande diferença.

2. Não aprendemos a lidar com os imprevistos

Quando dou aula em cursos de especialização em terapias comportamentais e cognitivas, muitas vezes vejo alunos que esperam que se fale de uma série de estratégias fechadas para lidar com cada situação. Não é raro que eles apenas esperem pela técnica a ser utilizada nesse ou naquele caso, ignorando outros aspectos da aula. O risco aí é nos tornarmos terapeutas inflexíveis, o que provavelmente vai na direção oposta das qualidades de um bom psicólogo clínico, pois as circunstâncias no trabalho cotidiano quase nunca serão iguais àquelas que vemos nas descrições das técnicas.

3. Temos dificuldades em reconhecer e aprender com o que não funciona

Se a psicologia é infalível, como pode um atendimento não dar certo? Nossa primeira reação é culpar a pessoa atendida por não ser aquele paciente ideal que encontramos nos livros. Se formos um pouco mais autocríticos, podemos acreditar que não aplicamos a fórmula corretamente, mas inicialmente não questionamos a fórmula. Acho que apenas com o tempo — junto com as recorrentes e inevitáveis frustrações — que passamos a entender que o trabalho clínico é mais complexo do que imaginávamos e cada atendimento seguirá o seu curso próprio.

 

A maior parte das publicações sobre psicoterapia não abre espaço para aquilo que não está de acordo com uma lógica de pura eficiência. Uma revista científica publicaria um relato de caso malsucedido? Uma editora aceitaria um livro sobre psicoterapia que se descrevesse os momentos em que ela falhou? Vejo nos livros de terapias comportamentais de terceira onda alguma sugestão de que iremos errar e precisaremos ser criativos, mas ainda assim, é uma mera sugestão. A premissa continua sendo a de que a fórmula vai funcionar.

Essa atmosfera presente nos livros e cursos de psicoterapia nos leva a ter dificuldade com outro aspecto: o de que vamos errar. Alguns psicólogos, como Carl Rogers, escreveram sobre seus erros. Seguindo nessa linha, procuro falar dos meus insucessos nas aulas que dou. Alguns dos jovens terapeutas que as assistem se sentem aliviados ao ver que um terapeuta mais experiente pode se enganar e que a vida real não é tão antisséptica como parece nos livros. Para outros, essa perspectiva incomoda.

Tento passar a ideia de que as técnicas não são o mais importante, e sim o raciocínio clínico e a relação terapêutica: se você entender o que está acontecendo na sessão, com a pessoa atendida e com você, você entenderá o que pode ou não pode fazer, e o que está ou não ao seu alcance. Dessa forma, também é possível saber quando se erra: geralmente, não é porque não aplicamos a fórmula corretamente, mas porque não entendemos o que realmente estava acontecendo no atendimento.

Lembro com carinho de muitas pessoas que mudaram muito, de forma positiva, na terapia. Mas quando penso naquilo que aprendi como terapeuta, vejo que as que realmente me ensinaram lições profundas foram aquelas que eu decepcionei.

 

Foto: Cristin Hume

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