David Smail e sua crítica à psicoterapia

Não sei exatamente como cheguei nos livros e David Smail. Sei que, em 2015, li o primeiro, chamado Illusion and Reality, e cheguei a publicar um texto aqui sobre o mito da normalidade. Esse era o título do primeiro capítulo do livro, em que o autor oferece uma guinada na visão comum da psicologia — e até então a que eu tinha: em vez de focar no indivíduo e seus “transtornos”, Smail dá muito mais atenção à sociedade em que vivemos e seus efeitos na saúde mental das pessoas. De uma maneira muito elegante, ele segue na linha de outros autores, como Thomas Szasz, que questionam os conceitos de doença mental e as práticas da psicoterapia e da psiquiatria.

David Smail era um psicólogo britânico, nascido em 1938 em Putney, um distrito no sudoeste de Londres. Filho de um corretor de seguros, ele estudou psicologia na University College London e obteve seu PhD em psicologia no ano de 1965. Desde 1961, trabalhou no NHS (o sistema de saúde britânico) e escreveu vários livros sobre a relação entre questões sociais e psicologia e a prática da psicoterapia. Faleceu em 2014, aos 76 anos.

Há um trecho de seu livro Illusion and Reality que costumo compartilhar com as pessoas que atendo.

Uma boa parte da nossa vida é gasta num esforço desesperado para persuadir os outros que não somos aquilo que tememos ser, ou o que eles podem descobrir que somos se puderem enxergar através dos nossos fingimentos. A maior parte das pessoas, a maior parte do tempo, tem uma noção profunda e infeliz do contraste entre o que elas são e o que elas deveriam ser.

Como consequência disso, gastamos uma quantidade enorme de tempo e energia em impedir os outros de ver o nosso eu ‘verdadeiro’ e vergonhoso, construindo aquilo que achamos que será uma versão pública aceitável de nós mesmos, mas que sabemos que é apenas uma casca vazia (a menos, é claro, que passemos a acreditar no nosso próprio personagem, nos deixando enganar pela nossa própria ‘imagem’).

A partir dessa visão, meu foco na terapia foi gradualmente deixando de ser a adequação das pessoas a um ideal construído socialmente e internalizado, e passou a ser uma ideia de que as pessoas são normais e nossos sofrimentos são comuns. Passei a entender que a busca por atingir esse ideal impossível era um problema maior do que não sê-lo, nos deixando emocionalmente desgastados e impedindo de viver a parcela de vida que pode existir relativamente livre de pressões sociais.

Smail aprofunda sua crítica à psicoterapia em outros livros. Em um deles, chamado The Origins of Unhapinness, ele argumenta que o nosso sofrimento advém das estruturas de poder a que estamos submetidos (algo muito negligenciado na literatura psicológica) e sobre as quais temos muito pouco controle:

Precisamos entender que, mais do que o paciente ser um problema para o mundo, o mundo é um problema para o paciente. Somos os produtos corporificados do espaço-tempo. Para fazer alguma diferença em nossas vidas, temos que ter algum tipo de influência no ambiente para fazê-lo, do nosso ponto de vista, um pouco mais benigno. Não somos nós que temos que mudar, e sim o mundo à nossa volta. Ou, colocando de outra forma, a extensão em que podemos mudar sempre dependerá de alguma mudança material nas estruturas de poder que nos envolvem.

Essa noção coloca um grande problema para a psicologia. Os psicólogos gostam de criar entidades internas obscuras para explicar o sofrimento e o comportamento das pessoas. Seja o “inconsciente”, as “crenças”, os “condicionamentos”, é sempre algo misterioso que só pode ser lido e compreendido por eles. Isso é feito porque legitimiza o poder do psicólogo e da prática psicológica, em que ele é o detentor de um conhecimento mágico — ainda que disfarçado de científico — que, se corretamente “tratado”, produzirá alterações na pessoa e ela finalmente será “resolvida”. O terapeuta, assim, cria um engodo que envolve a ele e a pessoa atendida. Não que isso seja sua intenção clara — nós aprendemos a enxergar a terapia dessa forma.

Só que, enquanto isso, as reais causas de sofrimento e problemas psicológicos, como as condições de trabalho violentas, as dificuldades econômicas, a lógica de competição e individualismo continuam fora do foco. Mas não é interessante ao psicólogo olhar para esses aspectos, pois eles estão muito além do alcance do consultório. E a pessoa atendida, se continua em sofrimento (o que é provável, já que as suas causas continuam lá) fica ainda mais angustiada, acreditando que o problema está nela mesma, mas ela não consegue achá-lo — e muito menos eliminá-lo.

Quebrar esse paradigma significa, entre outras coisas, aceitar que o alcance da psicoterapia, no modelo atual, é bastante limitado. Segundo o próprio Smail, ela pode oferecer conforto, clarificação e encorajamento. E não há nada de errado com isso, desde que ela assuma seu real caráter e suas limitações. Ao fazer isso, pelo menos ela tiraria da pessoa atendida o peso de ter que “se resolver”, enquanto continua sofrendo por causas que ela não controla — o que, se formos pensar, é extremamente cruel.

Referências:
Smail, D. (2018). The origins of unhappiness: A new understanding of personal distress. Routledge.
Smail, D. (2018). Illusion and reality: The meaning of anxiety. Routledge.
Obituário: https://www.theguardian.com/science/2014/aug/17/david-smail

Foto: Stéphane Juban

4 Comentários

  1. Perfeito!!! Infelizmente esse é um assunto tão importante mas tão pouco debatido em psicologia. Eu até hoje só me recordo de UM professor na graduação que dava uma pequena noção de que “quem só sabe de psicologia nem de psicologia sabe”. Obrigada mais uma vez por trazer lucidez nesse momento tão desafiador pra todos nós.

    1. É verdade, Bianca, a gente vê muito pouco sobre isso na nossa formação. Muito interessante essa frase do seu professor. A psicologia é muito mais rica quando consideramos todas as outras perspectivas que são complementares a ela. Obrigado pelo comentário!

  2. Interessante demais! Muito boa essa perspectiva de poder explicar ao paciente sobre o que não está no seu controle, porque a sensação que temos é que podemos e devemos ter controle sobre tudo, que ter esse controle é o que as pessoas de sucesso costumam fazer, não é? Como disse a Bianca, lucidez… Lucidez é tudo nesse terreno difícil.

    1. Pois é, mas nem sempre dá certo. Pois muitas vezes a pessoa acredita nessa falácia do controle pessoal, de que tudo depende só dela, e não aceita quando apresentamos essa outra perspectiva. Ela endossa a lógica da psicoterapia tradicional esperando que de fato vamos dar uma solução pronta em que ela resolverá algo “interno” e a partir daí sua vida será perfeita.

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