A busca do equilíbrio psicológico

Foto: D. Sharon Pruitt
Foto: D. Sharon Pruitt

Oração da Serenidade

Deus, me conceda a graça para aceitar com serenidade
as coisas que não podem ser mudadas,
Coragem para mudar as coisas
que devem ser mudadas,
e Sabedoria para distinguir
umas das outras.

Vivendo um dia de cada vez,
Aproveitando um momento de cada vez,
Aceitando a dificuldade como um caminho para a paz,
Tomando, como Jesus fez,
Este mundo pecador tal qual ele é,
E não como eu gostaria que ele fosse.
Confiando que farás todas as coisas certas
Se eu me render à Sua vontade,
Para que eu possa ser razoavelmente feliz nessa vida
E supremamente feliz convosco na próxima.

Reinhold Niebur

Há muita sabedoria expressa nessa oração, independentemente de você ser ou não religioso, ser ou não cristão. Pois essas frases se referem ao nosso lugar no mundo, à nossa relação com o que podemos ou não fazer, e ao contato com o que realmente temos, que é o momento presente. A Oração da Serenidade faz parte dos 12 passos empregados no programa de recuperação dos Alcoólicos Anônimos, uma das formas mais eficazes de enfrentar o alcoolismo.

Como você tenta resolver seus problemas? Como tenta lidar com as situações que não saem como você gostaria? Como encara as emoções e sensações que são desconfortáveis? A maior parte de nós tenta colocar tudo isso sob controle. Buscamos soluções, tentamos influenciar os outros para que ajam da forma que nos convém, tentamos controlar aquilo que sentimos reprimindo pensamentos, emoções ou até mesmo tomando medicamentos. Essa é a típica maneira ocidental de lidar com as dificuldades, uma vez que aprendemos desde cedo a valorizar a nossa individualidade e a tentar fazer com que as circunstâncias se ajustem aos nossos desejos. Nossa imagem de pessoa bem sucedida é aquela de quem impõe suas vontades, faz as coisas do seu jeito e exerce poder sobre as outras pessoas. Entretanto, sendo uma visão cultural, ela é relativa e questionável.

Num artigo de 1984, o psicólogo americano John Weisz, junto com seus colegas, contrapôs a maneira ocidental e oriental de se relacionar com o mundo. No ocidente, somos ensinados que devemos exercer controle: sobre os outros, sobre a natureza, sobre nós mesmos. Controlando, conseguimos obter recompensas e evitar punições, o que nos garantiria o bem estar. Até mesmo as formas de psicoterapia ocidentais, como a terapia comportamental e a psicanálise, estão voltadas para esses objetivos. Por outro lado, as psicoterapias orientais ressaltam a necessidade do indivíduo de se adequar ao seu ambiente, cumprindo o que é esperado de seu papel social e familiar, sendo empático com os outros e aceitando as suas emoções e pensamentos, sem tentar exercer controle direto, e sim indireto, aceitando suas emoções e conflitos. Essas duas formas distintas de atuação da psicologia clínica refletem a cultura em que estão inseridas, e em que tais valores estão presentes na educação das crianças ou no trabalho.

Weisz chama isso de controle primário ou secundário. No primário, tentamos controlar o mundo para se ajustar à nossa vontade. No secundário, tentamos ajustar nossas expectativas para se adequar ao mundo. Em ambos os casos, há a busca pela felicidade e bem estar. E ambos os extremos carregam lados negativos. No controle primário, do mundo ocidental, sofremos porque nem sempre conseguimos fazer as coisas da nossa maneira. Além disso, nos sentimos isolados, fracassados e dependentes das satisfações externas. Já no controle secundário, pode-se sentir alienado pela constante necessidade de se ajustar às normas externas e, quando não se consegue cumprir com a expectativa do grupo em que se está inserido, como a família ou o ambiente profissional, a pessoa sente-se extremamente inadequada e sem valor.

Uma vez que esses extremos também trazem problemas, a alternativa, então, parece ser buscar harmonia, justamente o que a oração propõe: controlar o que está sob nosso controle e aceitar o que não está. Formas de terapia mais recentes, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) ou a Terapia Comportamental Dialética (TCD) parecem ter levado em consideração esse dilema e tentam estabelecer esse equilíbrio entre o que está ou não nas nossas mãos, oferecendo recursos para conseguir realizar as mudanças possíveis e aceitar as circunstâncias inevitáveis. Pois é justamente ao tentar controlar aquilo que não é possível que alimentamos a ansiedade, a preocupação, a insatisfação.

Não podemos, por exemplo, controlar nossas emoções. Mas podemos controlar a forma como agimos em função delas. Não podemos controlar, de forma garantida, o comportamento dos outros em relação a nós mesmos; mas podemos controlar o nosso comportamento em relação aos outros. Não podemos garantir os resultados do nosso trabalho; mas podemos trabalhar com dedicação. Mais uma vez, chegamos à conclusão de que o caminho é fazer o melhor possível com o que está no nosso alcance neste momento. Além disso, como estamos no mundo ocidental, nossa balança pesa para o lado de tentar controlar demais o ambiente externo, as outras pessoas e até nós mesmos. Portanto, o nosso caminho para o equilíbrio envolve, entre outras coisas, conseguir abrir mão, cultivar a empatia e desenvolver a flexibilidade.

Referência
Weisz, J. R., Rothbaum, F. M., & Blackburn, T. C. (1984). Standing out and standing in: The psychology of control in America and Japan. American Psychologist, 39 (9), 955-969.

Não há nada de errado com você

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Foto: Davide Cassanello

A psicologia ocidental costuma adotar pontos de vista semelhantes ao da medicina na sua forma de entender as pessoas. Uma visão médica implica num modelo de funcionamento “normal” de um indivíduo. Quando algo sai dessa normalidade, denomina-se um estado chamado de doença que precisa ser curada. Essa visão é bastante útil na medicina e permitiu inúmeros avanços na área da saúde. Entretanto, quando falamos de saúde mental, esse modelo pode não ser o mais adequado.

O primeiro problema que enfrentamos é o fato de ser muito difícil, quando nos referimos ao comportamento, sentimentos e emoções, dizer o que é normal. A forma como agimos e como nos sentimos é muito diversificada. Ela varia de acordo com a situação, de acordo com a nossa história e de acordo com a cultura em que estamos inseridos. Homens esquimós, em alguns contextos, podem “emprestar” suas esposas para outros homens. Na nossa cultura, isso seria tido como um comportamento atípico. Poderíamos adotar critérios, como a frequência média de um determinado comportamento, para estabelecer um padrão de normalidade. Mas esse seria um critério arbitrário: poderia me levar a pensar que se eu não assisto tanta TV quanto o resto das pessoas, tenho algum problema. Ou seja, falar em normalidade psicológica é impossível a menos que adotemos uma referência que será inevitavelmente limitada.

Como se isso não bastasse, há uma outra complicação, que é enxergar os sintomas de doenças mentais desconectados de seus contextos. É muito diferente ter períodos de tristeza sem um motivo aparente, ou ter um período de tristeza após a morte de alguém querido, por exemplo. Embora os manuais de classificação diagnóstica como o DSM-5 façam uma ressalva em relação à observação do contexto e do impacto que os transtornos causam na vida das pessoas, muitas vezes esse detalhe é negligenciado. E aí achamos que temos algo errado dentro de nós, tal qual um vírus, que precisa ser curado ou extirpado. Essa visão favorece muito a indústria farmacêutica, que com isso pode justificar a venda de medicações para o tratamento desses quadros.

Será que precisamos considerar os transtornos mentais como doenças para justificar o tratamento? Precisamos dizer que a pessoa tem alguma coisa? Se um medicamento pode ajudar alguém a funcionar melhor, ou seja, se sentir bem o suficiente para conseguir realizar aquilo que ela valoriza, isso já não é um motivo suficiente? Parece que, ao usar a ideia de doença mental, tentamos justificar biologicamente um conceito que é, na verdade, cultural. Apesar do termo “doença” mental já ter sido abandonado — e substituído por transtorno (disorder, em inglês) — a visão de que temos um funcionamento “normal” a ser obtido permanece.

Já vi muitos pacientes que se aliviam por ter um diagnóstico, como se finalmente eles se compreendessem. Algo como: “entendi porque eu ajo dessa maneira, é porque eu tenho TOC (transtorno obsessivo compulsivo)” — ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, ou ansiedade generalizada, ou personalidade borderline ou qualquer outro quadro que você queira colocar aqui. O problema é que essa explicação não explica nada. Você não age compulsivamente porque tem TOC. Você tem TOC porque age compulsivamente, e porque foi decidido pelos psiquiatras que quem se comporta dessa maneira receberá esse rótulo. E continuamos com a questão sobre o porquê das suas ações em aberto.

É mais produtivo, então, abandonar essa explicação circular, os rótulos e os julgamentos decorrentes. Se você quer realmente entender porque age compulsivamente, é necessário olhar para a sua história de vida, seus genes, a cultura em que você está inserido e, especialmente, qual a função da compulsão na sua vida atual. E como a junção desses fatores em você é algo extremamente único, esse olhar deve ser individualizado. Tudo isso sem o julgamento que geralmente fazemos de nós mesmos. Você é essa soma, esse fluxo, e o que você é não é certo ou errado, não é melhor ou pior, não é culpa ou responsabilidade de ninguém: apenas é. Olhe para si mesmo com olhos compassivos, curiosos, e desprovidos de julgamento. O que você vê?