A tristeza é sua amiga

“Mesmo uma vida feliz não pode existir sem uma medida de escuridão, e a palavra feliz perderia seu significado se não fosse equilibrada pela tristeza. É muito melhor levar as coisas da forma como elas vêm, com paciência e equanimidade.”
Carl Jung

Foto: Jonathan Kos-Read
Foto: Jonathan Kos-Read

Aparentemente, estamos ficando cada vez menos tolerantes aos sentimentos negativos. Temos visto as dificuldades emocionais — tristeza, solidão, ansiedade, angústia — como um problema de saúde, e não como um aspecto natural da vida. Encaramos isso como algo anormal, doenças a serem tratadas. De fato, em muitos casos, a intensidade desses sentimentos pode ser tão alta que nos impede de viver normalmente e aí uma intervenção médica pode ser bem vinda; mas com isso a noção de que se sentir mal é errado e anormal se difunde.

Não é agradável se sentir mal. A tristeza dói. É natural querer livrar-se dela. Mas o que, no longo prazo, faz mais sentido? Tentar evitar toda e qualquer situação que possa causar tristeza, mesmo que isso faça com que deixemos de nos envolver em atividades que são importantes para nós? Recorrer a soluções artificiais, como medicamentos, desnecessariamente? Ou aceitar e incorporar os momentos de tristeza nas nossas vidas?

As duas primeiras soluções parecem mais lógicas e tentadoras. E é o que tendemos a fazer de imediato. Entretanto, ao tentar evitar a tristeza, seja através do entretenimento, do uso de drogas ou medicamentos, estamos criando um monstro maior. Quando ela voltar, voltará mais forte. E aí precisaremos de doses maiores de distrações, criando dependência. Querer “resolver” a tristeza nos torna, paradoxalmente, mais vulneráveis a ela.

A contrapartida também é verdadeira. Quanto mais aprendemos a tolerar e a viver com a tristeza, menos ameaçadora ela se torna. Tornamo-nos mais resistentes e fortes às adversidades, pois conseguimos continuar vivendo mesmo enquanto nos sentimos mal. Não temos que parar tudo que estamos fazendo para buscar uma saída, uma resolução para o sentimento negativo. Podemos continuar caminhando com ele ao nosso lado e eventualmente ele desaparecerá.

Os momentos de tristeza também são importantes pois são neles que refletimos e avaliamos as nossas vidas. A tristeza nos possibilita perceber o que não está bom, identificar os aspectos que nos incomodam, o que não está satisfatório. E, se soubermos aproveitar esse momento, podemos mudar. Quando estamos felizes, a mudança nos assusta pois envolve colocar em risco nossa satisfação. A tristeza, por outro lado, especialmente quando estamos nos sentindo “no fundo do poço”, nos torna extremamente abertos para a mudança, pois já não temos nada a perder.

Nossa sociedade hedonista dá a ideia, através das propagandas, filmes, seriados, de que a tristeza é algo ruim, a ser evitado ou eliminado a qualquer custo. Mas isso não só é impossível como também improdutivo, se queremos viver de maneira plena e verdadeira. Cultivar a aceitação, a compreensão e a amizade em relação à própria tristeza nos permite uma vida com mais reflexão, paciência e abertura, o que nos levará, a longo prazo, a uma maior felicidade. Por mais absurdo que possa parecer, para ser feliz é preciso também ser triste.

Enquadrando o mundo

“Quando o sábio aponta a lua, o tolo olha o dedo.”
Provérbio chinês

Foto: Julien
Foto: Julien

No último texto, falamos sobre como criamos conceitos que facilitam a nossa relação com o mundo e como esses conceitos podem nos tornar rígidos e nos afastar das experiências. Isso é o que ocorre num nível individual. Da mesma forma, podemos pensar em como os sistemas de conhecimento que temos podem levar a mesmo resultado.

A ciência é um deles. A ciência é uma forma de produzir, organizar e validar o conhecimento que temos sobre o mundo e o universo. Mas é apenas uma forma, um modelo, um método. O que a ciência diz sobre o mundo, com suas teorias, métodos e leis, não é o mundo. Assim como a filosofia ou a psicologia, ela tem uma limitação: é algo criado em nossas mentes, usando uma certa linguagem. As ciências, as disciplinas e as teorias são úteis, mas desde que não esqueçamos de que elas não são aquilo que elas descrevem. Elas são um meio, não um fim.

Na psicologia — e nas ciências humanas de forma geral — isso fica mais evidente, pois temos nela uma série de formas distintas de encarar o ser humano que podem ser bastante conflitantes. Quando esquecemos que a nossa abordagem, a nossa forma de ver o mundo, é apenas uma forma e nos apegamos demais a ela, corremos o risco de sermos o tolo que olha para o dedo que aponta para a lua. Ou pior, podemos entrar em uma discussão sobre qual é o melhor ou o maior dedo.

A abordagem de um psicólogo, ou a teoria que embasa o seu trabalho, é como um quadro através do qual ele enxerga o outro. Posso usar um quadro mais rebuscado, um mais objetivo, um mais amplo ou um mais restrito. Posso usar sempre o mesmo quadro ou variá-lo de acordo com a situação. Mas o quadro é apenas uma ferramenta. O sofrimento da pessoa que procura ajuda é o mesmo, independentemente do quadro através do qual se olhe. E o alívio que ela busca também é sempre o mesmo; dificilmente ela vai estar preocupada com o quadro que o terapeuta vai usar, desde que ele consiga ajudá-la.

Nos apegamos aos quadros porque eles nos trazem segurança. Se entendemos sobre física, podemos entender — e até prever — como as coisas se movem, por exemplo. Mas a física não é o movimento. É apenas uma construção mental que tenta descrever o movimento. Posso descrever as forças que atuam numa montanha russa, mas isso nada tem a ver com estar na montanha russa. Por isso, é saudável não transformar o conhecimento em um ídolo. Menos ainda, nos prender tanto ao conhecimento a ponto de não experimentar o mundo tal qual ele é, livre de conceitos. Na psicologia, é fundamental não deixar que o conhecimento teórico impeça um contato real com o outro, pois ser não pode ser descrito ou classificado com meras palavras.

Você não tem nome

“Da mesma forma que ninguém pode amarrar um pacote com a linha do equador, o mundo real em movimento escorre como água através das nossas redes imaginárias. Por mais que a gente divida, conte, distribua ou classifique esse movimento em coisas e eventos particulares, isso é só uma forma de pensar sobre o mundo: ele não é, nunca, realmente dividido.”
Alan Watts

Foto: Beshef
Foto: Beshef

A linguagem é fantástica. Se pararmos para pensar por um instante, podemos reconhecer como é estranho e fascinante usar conjuntos de sons ou símbolos para representar alguma outra coisa. Todo nosso desenvolvimento científico e cultural depende da linguagem. Nós a usamos para tudo, até para falarmos conosco, nas nossas ruminações constantes.

Podemos pensar em quais são as implicações de usar a linguagem de maneira contínua nas nossas vidas. Faça um breve exercício: pare por alguns minutos de ler esse texto e preste atenção nos sons que você está ouvindo nesse momento. Além disso, preste atenção no que ocorre na sua mente enquanto você ouve. Pronto? Você provavelmente ouviu os sons e os nomeou (“estou ouvindo o canto de pássaros, o som de automóveis na rua, a televisão ligada”). Você pode, além disso, ter colocado todos os sons em categorias, como “gosto/não gosto”, “agradável/desagradável”, “alto/baixo”. A linguagem nos impede de experimentar a vida diretamente. Rotulamos e classificamos cada coisa que acontece conosco, no mesmo momento em que elas acontecem.

Ao classificar cada evento, cada situação, cada pessoa, podemos saber como agir frente a eles. Nos sentimos mais seguros. Mas isso também tem um custo: ficamos presos aos conceitos que temos das coisas; vivemos em função e em contato com esses conceitos, mais do que com as nossas experiências. Às vezes, criamos conceitos sobre algo e nunca mais o mudamos, não importa o quanto esse algo mude depois de certo tempo. Um outro problema é que, de forma geral, nossos conceitos são muito restritos. O mundo que eles tentam representar é muito diferente do que a nossa linguagem consegue descrever.

Pense no seu nome. No seu nome, está implícita toda a sua identidade, toda a sua história. É quase como se você fosse o seu nome. Mas, se você pensar bem, você não tem um nome. Ninguém tem. Seu nome é um mero conceito criado pelos seus pais e usado pelas pessoas que vivem com você. E o que você chama de identidade são outros conceitos atrelados ao conceito de nome. Pense em você sem o seu nome. E nas pessoas próximas de você sem os seus respectivos nomes. Em vez dos conceitos automáticos que geralmente os acompanham, talvez você consiga ver a si mesmo e aos outros um pouco mais como eles são de fato. Tente repetir o exercício dos sons, mas dessa vez prestando atenção em como você os rotula. Tente deixar de lado esses rótulos e ouvir os sons tais quais ele são, sem descrições.

Observar os conceitos que utilizamos inconscientemente o tempo todo nos permite escolher quando eles são necessários. É muito útil, de tempos em tempos, deixar de lado essas descrições e definições preestabelecidas que temos de tudo e de todos — inclusive nós mesmos. Dessa forma, podemos criar espaço para ver a nós, as coisas e as pessoas tais como elas são, sem preconceitos, julgamentos e rótulos. Pode ser um pouco desconfortável abandonar a segurança que os conceitos nos trazem, mas a abertura que ganhamos com essa atitude é um passo muito importante para uma vida mais plena.