Estamos todos no mesmo barco

Foto: Raymond Larose
Foto: Raymond Larose

Uma vez, eu estava questionando as expectativas que uma paciente que eu atendia tinha sobre as outras pessoas mudarem. Ela respondeu de forma bastante franca: “você tem expectativa de que eu mude; por que eu não posso ter a mesma expectativa em relação aos outros?”. Era uma boa resposta. Argumentei que a nossa situação era diferente, pois ao procurar terapia ela estava, de certa forma, dizendo que queria mudar, então seria natural que eu esperasse isso dela. Por outro lado, as pessoas na vida dela não estavam, necessariamente, pedindo a ela ajuda para mudar.

Esse diálogo, no entanto, serviu para que eu percebesse o quanto um terapeuta e seu (ou sua) paciente estão no mesmo nível. O terapeuta pode ter as mesmas atitudes que ele procura mudar na pessoas atendida. Além disso, de forma mais ampla, ambos estão procurando formas de viver bem, de diminuir o sofrimento, de serem felizes. Muitas vezes, quando o paciente está sofrendo, se vê sem saída, o terapeuta se vê na mesma situação. Quando as técnicas falham e o cliente não sai do lugar, o psicólogo pode experimentar na própria pele a angústia que a pessoa atendida vem sentindo há tempos.

Na faculdade, pela forma como a psicologia é ensinada, temos a ideia de que ao nos formarmos psicólogos, estaremos num nível diferente daquele que nos procura. Pensamos que, por conta do nosso conhecimento, entendemos mais sobre a vida, a personalidade, o comportamento, nos colocando num patamar acima dos outros. Imaginamos que, do alto da nossa sabedoria, sobre os ombros dos mestres como Freud, Jung, Skinner, Rogers, estenderemos a mão para quem nos pede ajuda e curaremos a angústia do outro facilmente.

Basta um pouco de prática para perceber o quanto estávamos enganados. Logo nos damos conta que na psicologia as coisas não são tão exatas, que as técnicas não são assim tão poderosas, e que as dificuldades que as pessoas apresentam são muito mais complexas do que aquelas que os livros nos contam (e geralmente os livros só falam dos casos em que tudo dá certo!). Hoje temos acesso à literatura científica com seus milhares de estudos randomizados e controlados, suas revisões sistemáticas. Contudo, todo esse conhecimento — embora extremamente útil para sabermos o que é mais ou menos efetivo em termos gerais — não nos diz muita coisa sobre aquele indivíduo específico que está na nossa frente. Não importa quantas pessoas já atendemos no passado: com cada pessoa que nos procura, começamos sempre do zero.

Tudo isso poderia ser um grande problema, mas na verdade é uma ótima oportunidade para que o psicólogo — assim como qualquer outro profissional de saúde ou que lide com pessoas — desenvolva uma forma mais humana de trabalho: uma relação horizontal com seu paciente, falando de igual para igual. Afinal de contas, ambos têm o mesmo objetivo: que o cliente se sinta melhor, atinja seus objetivos, saiba lidar melhor com a vida e aproveitá-la. Se o psicólogo consegue abandonar essa posição superior ilusória, assumindo que ele não é o dono da verdade, e estabelecer uma aliança com seu paciente, ambos têm a ganhar. Nessa aliança, cada um tem seu papel, que são igualmente importantes.

Isso pode se aplicar para a vida como um todo, não apenas para esse tipo de relação. Pois, apesar de nos vermos como muito únicos, nós somos todos muito parecidos. Todos nós queremos a mesma coisa, a felicidade. Nossas alegrias são semelhantes: pela paz, por estar no meio de pessoas queridas, pelas conquistas profissionais. Sofremos da mesma forma, pelos mesmos motivos: perdas, frustrações, ao sermos injustiçados ou atacados. Todos nós sentimos fome, rimos e choramos. Se conseguirmos enxergar que o outro — mesmo aqueles de quem não gostamos — são tão humanos quanto nós e têm as mesmas dores, os mesmos medos, é possível ter uma atitude mais pacífica. E a contrapartida também é válida: ao nos permitirmos sentir dúvida, medo, angústia, incerteza, mesmo quando estamos numa posição em que acreditávamos que esses sentimentos não deveriam existir, podemos ter uma relação mais equânime com os outros e ficar um pouco mais em paz com nós mesmos.

Evitação experiencial

“Estar disponível para a vida — é possível falar disso uma existência inteira, sem que se saiba o que de fato seja. Estar à disposição da existência supõe não ter certeza alguma, ouvir sem julgar, sem preferir, sem escolher. Ser disponível é ser livre ainda que por alguns instantes. Uma vez provada, a liberdade retorna sempre.”
Luiz Carlos Lisboa

Foto: Lauren Rushing
Foto: Lauren Rushing

Imagine que alguém convidou você para uma festa. Você realmente gostaria de ir, conhecer pessoas novas, se divertir um pouco, fazer algo diferente. Ao mesmo tempo, você é uma pessoa tímida, tem alguma dificuldade em fazer contato com estranhos, não sabe ao certo como se vestir e como se comportar. Você sabe, então, que se for a essa festa, sentirá tensão, desconforto e correrá o risco de se sentir mal por fazer algo errado. Quando tudo isso vem à sua cabeça, você agradece o convite mas diz que não poderá ir, dando uma desculpa qualquer.

Essa tendência a evitar situações que possam fazer com que nos sintamos mal é chamada de evitação experiencial. É um mecanismo natural, que visa nos proteger de situações ameaçadoras. O problema é que essa evitação pode tomar proporções tão grandes que alguns pesquisadores acreditam que ela está na raiz de muitos problemas psicológicos graves.

Imagine que um trabalhador está retornando para casa, no seu carro. Ele teve um dia difícil, com muitas cobranças no emprego e a possibilidade de ser mandado embora. É tarde, está chovendo e o trânsito está caótico. Preso no engarrafamento, ele repassa o dia na sua cabeça e visualiza todas as possibilidades catastróficas que tem pela frente. Os filhos para sustentar, as contas a pagar, as prestações da casa. Seu coração começa a bater mais forte. Ele percebe suas mãos suadas. De repente, ele é invadido por um desespero, uma sensação de sufocamento, com a nítida impressão de que vai morrer. Imediatamente, sai do carro e o deixa no meio da rua. Depois de um tempo, as sensações diminuem e ele consegue ficar mais calmo. Mas a experiência foi tão intensa e dolorosa que a partir daquele momento ele não consegue mais dirigir, e nem mesmo entrar num automóvel novamente. Sabemos que o problema não é o carro em si, mas como foi nele que o ataque de ansiedade teve seu pico, é essa a associação que permanece. A evitação experiencial está no medo de voltar a sentir tudo isso de novo, levando-o a um quadro chamado de síndrome do pânico.

Esse é um exemplo de como a evitação experiencial pode levar a um quadro sério. Mas podemos pensar em algo mais corriqueiro, como uma mulher que já teve diversas desilusões amorosas e não consegue mais se envolver com ninguém. Ela até consegue sair, conhecer pessoas novas e ficar com alguém interessante por uma noite, mas quando há um desejo do outro por algo mais sério, ela desaparece. No fundo, ela até gostaria de tentar — ela se imagina num relacionamento estável, casando e talvez até tendo filhos — mas o risco de se desiludir novamente é forte demais. Muitos filmes românticos exploram justamente essa fórmula: dos personagens que encontram um amor tão forte que os fazem vencer a evitação experiencial decorrente das frustrações passadas.

A evitação experiencial, então, é algo cuja função é nos proteger. Só que, quando exagerada, ela acaba também nos privando daquilo que queremos viver. O percurso para a vida que desejamos não é o desprovido de dificuldades e sofrimentos. Pelo contrário, é justamente o que passa por aquilo que não queremos sentir. A solução — que é fácil de ser descrita mas difícil de ser executada — é parar de fugir e enfrentar o que nos assusta. Pois, se conseguimos tolerar os riscos e o sofrimento que estão no caminho até o que acreditamos ser a nossa felicidade, nada pode nos segurar.

Pessoas difíceis

“Para um praticante espiritual, os inimigos têm um papel crucial.
No meu entender, a compaixão é a essência de uma vida espiritual. A fim de ser plenamente recompensado pela prática do amor e da compaixão, o treinamento da paciência e da tolerância é indispensável.
Não há coragem alguma que se assemelhe à da paciência, como também não há desconforto pior que o da raiva.
Em consequência, nossos esforços devem ser todos empenhados não para morrer de raiva contra nosso inimigo, mas para revigorar nossa prática da paciência e da tolerância.”
Dalai Lama

Foto: Brendon Burton
Foto: Brendon Burton

Todos nós temos aquela pessoa difícil nas nossas vidas. Às vezes, mais do que uma. Pode ser um familiar, um colega de classe, de trabalho, um vizinho. Desenvolvemos uma animosidade que não raro chega ao ponto em que tudo que a pessoa faz nos irrita. Fazemos longas listas mentais com todos os defeitos e atitudes problemáticas que esse outro tem. Chegamos à conclusão que a vida seria melhor se a pessoa fosse diferente, se estivesse longe ou até se não existisse.

Quando estamos listando todos os seus defeitos e fantasiando sobre como tudo seria melhor se as coisas fossem diferentes, o que estamos realmente fazendo? Na verdade, estamos criando uma versão ideal do outro, baseada na nossa perspectiva do que é bom ou ruim. Nessa versão ideal, o outro não faria nada de errado, seria diferente, agiria de outra forma. Mas essa é uma visão irreal. Essa pessoa idealizada simplesmente não existe. Veja quanto sofrimento causamos a nós mesmos por esperar que as pessoas fossem do jeito que gostaríamos.

Vemos isso o tempo todo: dizemos como todo mundo deve se comportar e pensar. “As pessoas deveriam ser mais honestas, mais responsáveis, mais civilizadas, mais ativas, etc.” Adoramos falar o que o outro deve fazer. Acreditamos ter a receita certa sobre como o mundo deveria funcionar; não é incomum que pensemos mais ou menos dessa forma: “se todo mundo agisse do jeito que eu acho certo, tudo seria ótimo”.

O problema é que acreditar muito nisso — ou pior, tentar convencer os outros disso — pode ser muito estressante, além de pouco prático. Se você realmente quer viver melhor, pode ser uma boa ideia fazer justamente o contrário. Olhe para esse outro que tanto incomoda e agradeça por ele ser como é. Essa pessoa pode lhe ensinar muito sobre você mesmo(a). Basta olhar a fundo a raiz do incômodo que ela lhe causa. Você pode perceber que esse incômodo tem mais a ver com você mesmo do que com o outro. E, quando você olha para o outro e reconhece aquilo que não gosta, que não quer, que não é, você está se definindo: você percebe quem é, o que é, o que quer. Esse outro que parece atrapalhar tanto nos ajuda a estabelecer a nossa própria identidade.

Além disso, uma pessoa difícil possibilita uma grande oportunidade: você tem a chance de desenvolver sua compaixão, sua paciência, sua tolerância. Alguns valores na nossa cultura parecem ser apenas da boca pra fora: ouvimos desde cedo sobre como é esperado que amemos o próximo, que nos coloquemos no lugar do outro, que não falemos mal das pessoas. Mas quando realmente fazemos isso? Amar alguém da nossa família, amar uma pessoa boa, amar uma pessoa agradável, é muito fácil. Agora, amar aquele que nos corta no trânsito, o colega inconveniente do trabalho, a cunhada maldosa, o radical de quem discordamos, o político corrupto, isso sim é difícil. Essas pessoas são o verdadeiro teste do nosso amor, e por isso é importante valorizá-las.