Aprendendo com nossos demônios

Foto: Steve Mishos
Foto: Steve Mishos

“Todos nós aprendemos e somos moldados pelas nossas interações com o ambiente. Para receber aquilo que vem do ambiente, é preciso estar nele para interagir. Isso não quer dizer que basta você estar fisicamente presente. Você precisar estar psicologicamente presente. Se, por exemplo, você tiver medo de cães ou aranhas, você precisa interagir com cães e aranhas de diversas maneiras para que o medo diminua. Sentar na classe sonhando acordado e olhando as nuvens não vai te ajudar a aprender álgebra. Para aprender álgebra, você precisa interagir com fórmulas, números, variáveis e assim por diante. Para interagir de forma efetiva com o mundo à sua volta—seu trabalho, família, amizades etc.—você precisa ter abertura àquilo que as situações que você encontra têm a lhe ensinar. Essas situações não podem e não vão ensinar a você o que funciona a menos que você encontre dentro de si a capacidade de ouvir, de prestar atenção a elas no momento presente. As coisas que lhe geram ansiedade podem, na verdade, ensinar muito sobre como você pode e deve agir no mundo.”

Kelly G. Wilson

Quando conseguimos estar no presente e ouvir um pouco o que as nossas sensações nos dizem, podemos aprender muito sobre nós mesmos. O problema é que passamos o tempo todo tentando fugir das situações e sensações negativas, impedindo qualquer chance de aprendizado e nos colocando num processo contínuo de fuga e esquiva. Ouvir o que o incômodo nos diz requer esforço, mas pode nos apontar o caminho para a resolução dos nossos problemas.

Vamos tomar como exemplo uma pessoa excessivamente ciumenta. Daquelas que cria uma confusão enorme por conta de cada deslize do companheiro ou da companheira, que briga, ameaça, vigia. Uma pessoa que age dessa forma provavelmente tem horror à ideia de ser abandonada, trocada, traída. Dá pra entender, pois de fato essas coisas não são boas. Mas o problema aí é que ela tem tanta aversão a essa possibilidade que sua prioridade é evitá-la e suas atitudes podem atropelar outros valores importantes, como o próprio afeto que ela tem pelo companheiro.

Se, em vez de reagir à aversão que surgem nessas situações e culpar o outro por causá-las, ela conseguisse permanecer um pouco com a sensação de ciúmes e a utilizasse para se entender, ela poderia perceber uma série de coisas. Primeiro, que o medo pode estar mais nela mesma—na sua própria história—do que nas atitudes do outro; que ela tem uma grande dificuldade em lidar com a possibilidade de perder o outro; e que as atitudes por conta desse medo podem justamente causar o que ela teme. A partir daí, seria possível ainda que ela percebesse que a garantia que o outro estará sempre do lado dela não existe, e que estar num relacionamento necessariamente envolve o risco de perder a pessoa amada.

Seria libertador chegar nesse ponto, ainda que isso significasse conviver com a incerteza e a dúvida que nos incomodam tanto. Mas a realidade de fato é incerta.

Ou seja, pode ser muito importante abrir espaço para nos aprofundar naquilo que tememos—não numa ruminação catastrófica, mas numa autoanálise em que nos questionamos cada vez mais a fundo sobre a raiz dos nossos medos. Se conseguirmos abraçar, em vez de fugir—como fazemos no nosso modo automático—temos uma chance de viver melhor, agir de forma mais consciente e cuidar melhor de quem está à nossa volta.

Referência
Wilson, K. G. (2010). Things might go terribly, horribly wrong. Oakland: New Harbinger.

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