“Todos nós aprendemos e somos moldados pelas nossas interações com o ambiente. Para receber aquilo que vem do ambiente, é preciso estar nele para interagir. Isso não quer dizer que basta você estar fisicamente presente. Você precisar estar psicologicamente presente. Se, por exemplo, você tiver medo de cães ou aranhas, você precisa interagir com cães e aranhas de diversas maneiras para que o medo diminua. Sentar na classe sonhando acordado e olhando as nuvens não vai te ajudar a aprender álgebra. Para aprender álgebra, você precisa interagir com fórmulas, números, variáveis e assim por diante. Para interagir de forma efetiva com o mundo à sua volta—seu trabalho, família, amizades etc.—você precisa ter abertura àquilo que as situações que você encontra têm a lhe ensinar. Essas situações não podem e não vão ensinar a você o que funciona a menos que você encontre dentro de si a capacidade de ouvir, de prestar atenção a elas no momento presente. As coisas que lhe geram ansiedade podem, na verdade, ensinar muito sobre como você pode e deve agir no mundo.”
Kelly G. Wilson
Quando conseguimos estar no presente e ouvir um pouco o que as nossas sensações nos dizem, podemos aprender muito sobre nós mesmos. O problema é que passamos o tempo todo tentando fugir das situações e sensações negativas, impedindo qualquer chance de aprendizado e nos colocando num processo contínuo de fuga e esquiva. Ouvir o que o incômodo nos diz requer esforço, mas pode nos apontar o caminho para a resolução dos nossos problemas.
Vamos tomar como exemplo uma pessoa excessivamente ciumenta. Daquelas que cria uma confusão enorme por conta de cada deslize do companheiro ou da companheira, que briga, ameaça, vigia. Uma pessoa que age dessa forma provavelmente tem horror à ideia de ser abandonada, trocada, traída. Dá pra entender, pois de fato essas coisas não são boas. Mas o problema aí é que ela tem tanta aversão a essa possibilidade que sua prioridade é evitá-la e suas atitudes podem atropelar outros valores importantes, como o próprio afeto que ela tem pelo companheiro.
Se, em vez de reagir à aversão que surgem nessas situações e culpar o outro por causá-las, ela conseguisse permanecer um pouco com a sensação de ciúmes e a utilizasse para se entender, ela poderia perceber uma série de coisas. Primeiro, que o medo pode estar mais nela mesma—na sua própria história—do que nas atitudes do outro; que ela tem uma grande dificuldade em lidar com a possibilidade de perder o outro; e que as atitudes por conta desse medo podem justamente causar o que ela teme. A partir daí, seria possível ainda que ela percebesse que a garantia que o outro estará sempre do lado dela não existe, e que estar num relacionamento necessariamente envolve o risco de perder a pessoa amada.
Seria libertador chegar nesse ponto, ainda que isso significasse conviver com a incerteza e a dúvida que nos incomodam tanto. Mas a realidade de fato é incerta.
Ou seja, pode ser muito importante abrir espaço para nos aprofundar naquilo que tememos—não numa ruminação catastrófica, mas numa autoanálise em que nos questionamos cada vez mais a fundo sobre a raiz dos nossos medos. Se conseguirmos abraçar, em vez de fugir—como fazemos no nosso modo automático—temos uma chance de viver melhor, agir de forma mais consciente e cuidar melhor de quem está à nossa volta.
Referência
Wilson, K. G. (2010). Things might go terribly, horribly wrong. Oakland: New Harbinger.
Considere alguém que é viciado em heroína mas está tentando parar de usar a droga. A partir do momento em que ela decide parar de usar, ela se encontra no meio de uma situação muito ambígua. Ela vai continuar limpa ou vai voltar a usar? Ela vai? Ou não?
E a resposta? Ninguém sabe. A pessoa viciada não tem uma bola de cristal; ela não pode ver o futuro. Só existe uma forma de saber com certeza, apenas uma maneira em que ela pode eliminar a densa ambiguidade: enfiar a agulha no braço. No momento em que ela usa, ela tem um momento de alívio da ambiguidade. (…) Para alguns de nós, de tempos em tempos—e para alguns de nós, o tempo todo—a dor de não saber pode se sobrepor à dor da mais destrutiva das ações.
(…)
Aprender a amar a ambiguidade pode ser uma ação muito poderosa, embora contraintuitiva. Amar aqui não significa amar no sentido romântico. Falamos de amar como um ato. Você pode aprender a valorizar e a se importar com a ambiguidade. Você pode convidá-la para sua casa por um tempo, oferecer-lhe uma limonada, conversar com ela e ouvir o que ela tem a dizer. Frequentemente, você descobre coisas em meio à ambiguidade que não pode ver ou experienciar em nenhum outro lugar.
Kelly G. Wilson
Nosso desconforto com a ambiguidade é extremamente poderoso. Detestamos não saber o que vai acontecer. Por isso, fazemos muitas coisas que não queremos ou gostamos simplesmente para nos livrar de situações ambíguas. Podemos, por exemplo, desistir de um curso por não sabermos se não vamos conseguir nos sair bem. Ou permanecer num relacionamento infeliz por não saber como será nossa vida após o término. Preferimos a infelicidade certa do que a felicidade incerta.
Mas o fato é que na verdade nunca realmente sabemos o que vai acontecer. A nossa vida é pura ambiguidade. Nos apegamos a certezas e rotinas que nos dão uma sensação de controle, mas se pensarmos bem, perceberemos que esse controle, essa segurança, é puramente ilusória. Para conseguirmos viver da maneira que queremos, ou seja, agir em função dos nossos valores, é fundamental tolerar a ambiguidade. Pois tentar evitá-la é justamente o que nos faz adiar nossos sonhos e aspirações, em nome dessa pretensa segurança. Além disso, se temos a ambiguidade como aversiva, permanecemos o tempo todo ansiosos, já que a ambiguidade é praticamente constante.
A vida pode mudar radicalmente de um dia para o outro: você pode perder o emprego ou ganhar na loteria; e a vida também pode não ter nada de surpreendente por algum tempo. E é justamente essa incerteza que a torna tão fantástica, se você conseguir mergulhar nela. Você pode enxergar o desconhecido com curiosidade e até excitação, como alguém que espera o próximo capítulo da novela. E aí, pode-se ter um ganho enorme de liberdade, pois deixamos de agir para escapar de situações de incerteza e passamos a guiar nossas atitudes a por aquilo que queremos para nós mesmos.
Referência
Wilson, K. G. (2010). Things might go terribly, horribly wrong. Oakland: New Harbinger.
Nas tradições psicológicas ocidentais, desenvolvimento saudável significa ser bem individuado, não depender excessivamene dos outros, ter conhecimento das próprias necessidades e ter respeito pelos próprios limites, com um senso de identidade claro e estável e um senso de si mesmo marcado por coesão e autoestima. Embora essa visão tenha sido criticada por teóricos relacionais contemporâneos, ela continua a formar o pano de fundo tanto para as abordagens psicodinâmicas como comportamentais.
Não é surpresa, então, que as queixas trazidas para a psicoterapia por ocidentais seja justamente a falta de alguma dessas características. Tanto o curso de desenvolvimento em direção a essa concepção ideal de pessoa como as formas pelas quais as pessoas se desviam desse caminho são determinadas culturalmente. Naturalmente, a psicoterapia busca levar os indivíduos a se adequar de forma completa a essa concepção social do que é uma pessoa normal.
Planos de tratamento frequentemente expressam ideais culturais. Dizemos que o tratamento tenta “melhorar a autoestima… identificar as próprias necessidades numa relação… estabelecer um senso de si mesmo mais coerente… estabelecer limites e aprender a mentê-los nos relacionamentos” e assim por diante. Nossa ênfase na autonomia do indivíduo (muitas vezes contra evidências das ciências sociais) levou a um amplo vocabulário técnico para descrever transtornos do self e os consequentes prejuízos nas relações.
Paul R. Fulton & Ronald D. Siegel
Nós temos alguns valores e concepções tão universalizados na nossa cultura que é difícil perceber que eles são apenas um ponto de vista. Um deles é essa ideia de que temos que ser essa pessoa autônoma, independente, coerente, assertiva, bem resolvida e cheia de autoestima. Você conhece alguém assim? Eu também não.
Mas nós achamos que essa é a forma como temos que ser, e quando não somos, achamos que tem algo errado conosco. E, como o texto diz, é muito comum que as pessoas procurem a terapia porque acreditam nesse ideal, e se cobram por atingi-lo. De fato, é possível que alguém tenha uma visão excessivamente negativa de si, e a terapia pode ser útil para que essa perspectiva seja mais positiva. Mas isso não significa que o extremo oposto seja saudável.
Uma das coisas que aprendi na minha própria terapia é a dificuldade que temos para reconhecer os nossos próprios conflitos, as nossas incoerências. Vivemos constantemente em lutas internas, em conflitos angustiantes, mas fazemos todo o esforço para não reconhecer ou demonstrá-los. Acreditamos que mudar de ideia é sinal de fraqueza, ser incoerente é amostra de insanidade. Tentamos nos livrar, internamente, de uma posição contraditória a abafando com racionalizações e justificativas. Afinal de contas, temos essa imagem de que o ser humano ideal é equilibrado, decidido, tem clareza sobre o que pensa e o que quer. Quando estamos numa posição de indecisão, de não saber, parece que precisamos resolver isso o mais rápido possível.
Quando reconhecemos que esse ideal é algo cultural e relativo, temos a opção de deixar de lado essa farsa. Ao enxergar que os nossos conflitos, nossas incoerências e nossas atitudes irracionais são parte da nossa natureza, ganhamos um pouco de paz. Se pararmos de lutar tanto contra nós mesmos e abandonarmos a luta para tentar mostrar para os outros que somos algo que não somos, também paramos de alimentar essa concepção comum de que esse é o jeito certo de ser. Ao se desprender dessa cultura do ideal, você possibilita que os outros também o façam.
Referência Germer, C. K., Siegel, R. D., & Fulton, P. R. (2005). Mindfulness and psychotherapy. New York: The Guilford Press.