A cultura do ideal

Foto: Paolo Barzman
Foto: Paolo Barzman

Nas tradições psicológicas ocidentais, desenvolvimento saudável significa ser bem individuado, não depender excessivamene dos outros, ter conhecimento das próprias necessidades e ter respeito pelos próprios limites, com um senso de identidade claro e estável e um senso de si mesmo marcado por coesão e autoestima. Embora essa visão tenha sido criticada por teóricos relacionais contemporâneos, ela continua a formar o pano de fundo tanto para as abordagens psicodinâmicas como comportamentais.

Não é surpresa, então, que as queixas trazidas para a psicoterapia por ocidentais seja justamente a falta de alguma dessas características. Tanto o curso de desenvolvimento em direção a essa concepção ideal de pessoa como as formas pelas quais as pessoas se desviam desse caminho são determinadas culturalmente. Naturalmente, a psicoterapia busca levar os indivíduos a se adequar de forma completa a essa concepção social do que é uma pessoa normal.

Planos de tratamento frequentemente expressam ideais culturais. Dizemos que o tratamento tenta “melhorar a autoestima… identificar as próprias necessidades numa relação… estabelecer um senso de si mesmo mais coerente… estabelecer limites e aprender a mentê-los nos relacionamentos” e assim por diante. Nossa ênfase na autonomia do indivíduo (muitas vezes contra evidências das ciências sociais) levou a um amplo vocabulário técnico para descrever transtornos do self e os consequentes prejuízos nas relações.

Paul R. Fulton & Ronald D. Siegel

Nós temos alguns valores e concepções tão universalizados na nossa cultura que é difícil perceber que eles são apenas um ponto de vista. Um deles é essa ideia de que temos que ser essa pessoa autônoma, independente, coerente, assertiva, bem resolvida e cheia de autoestima. Você conhece alguém assim? Eu também não.

Mas nós achamos que essa é a forma como temos que ser, e quando não somos, achamos que tem algo errado conosco. E, como o texto diz, é muito comum que as pessoas procurem a terapia porque acreditam nesse ideal, e se cobram por atingi-lo. De fato, é possível que alguém tenha uma visão excessivamente negativa de si, e a terapia pode ser útil para que essa perspectiva seja mais positiva. Mas isso não significa que o extremo oposto seja saudável.

Uma das coisas que aprendi na minha própria terapia é a dificuldade que temos para reconhecer os nossos próprios conflitos, as nossas incoerências. Vivemos constantemente em lutas internas, em conflitos angustiantes, mas fazemos todo o esforço para não reconhecer ou demonstrá-los. Acreditamos que mudar de ideia é sinal de fraqueza, ser incoerente é amostra de insanidade. Tentamos nos livrar, internamente, de uma posição contraditória a abafando com racionalizações e justificativas. Afinal de contas, temos essa imagem de que o ser humano ideal é equilibrado, decidido, tem clareza sobre o que pensa e o que quer. Quando estamos numa posição de indecisão, de não saber, parece que precisamos resolver isso o mais rápido possível.

Quando reconhecemos que esse ideal é algo cultural e relativo, temos a opção de deixar de lado essa farsa. Ao enxergar que os nossos conflitos, nossas incoerências e nossas atitudes irracionais são parte da nossa natureza, ganhamos um pouco de paz. Se pararmos de lutar tanto contra nós mesmos e abandonarmos a luta para tentar mostrar para os outros que somos algo que não somos, também paramos de alimentar essa concepção comum de que esse é o jeito certo de ser. Ao se desprender dessa cultura do ideal, você possibilita que os outros também o façam.

Referência
Germer, C. K., Siegel, R. D., & Fulton, P. R. (2005). Mindfulness and psychotherapy. New York: The Guilford Press.

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