Comendo uma tangerina

Na minha prática clínica, gosto de usar histórias, metáforas e outros recursos para ilustrar alguns conceitos. O legal de fazer isso é poder tomar emprestado o material de pessoas bastante sábias e que entendem a condição humana de uma maneira mais palatável — e por vezes mais precisa — do que as teorias psicológicas. O trecho abaixo é um dos meus preferidos, pois fala, de forma breve e contundente, sobre estar no presente, mindfulness e aceitação.


Comendo uma tangerina

Tenho uma lembrança de anos atrás, quando Jim e eu estávamos viajando através dos Estados Unidos pela primeira vez e nos sentamos sob uma árvore para dividir uma tangerina. Ele começou a falar sobre o que estaríamos fazendo no futuro. Sempre que pensávamos sobre um projeto que parecia interessante ou inspirador, Jim ficava tão imerso naquilo que ele literalmente se esquecia do que estava fazendo no presente. Ele colocou um gomo de tangerina na boca e, antes mesmo de começar a mastigá-lo, já tinha outra fatia pronta para colocar na sua boca novamente. Ele nem percebia que estava comendo uma tangerina. Tudo que tive de dizer foi, “Você deveria comer o pedaço de tangerina que já está na sua boca”. Jim percebeu o que estava fazendo. Era como se ele nem estivesse comendo a tangerina. Na verdade, ele estava “comendo” seus planos futuros.

Uma tangerina tem gomos. Se você consegue comer apenas um gomo, consegue provavelmente comer a tangerina inteira. Mas se você não consegue comer um gomo, não pode comer a tangerina. Jim compreendeu. Ele lentamente abaixou sua mão e focou na presença da fatia que já estava na sua boca. Ele a mastigou conscientemente antes de alcançar outro gomo. Tempos depois, quando Jim foi preso por atividades contra a guerra, me preocupei se ele aguentaria as quatro paredes da prisão e lhe enviei uma carta muito curta: “Você se lembra da tangerina que dividimos quando estávamos juntos? Você estar aí é como a tangerina. Coma-a e seja um com ela. Amanhã ela não será mais.”

Thich Nhat Hanh — The Miracle of Mindfulness

Precisamos sair do armário

Durante meus quase 20 anos fazendo atendimento psicológico, pude acompanhar diversos pacientes homossexuais em seus processos de assumirem-se perante a si mesmos, família, amigos e comunidade. Embora possa ser dolorido, esse movimento é bastante libertador e nunca vi ninguém que tenha se arrependido. Viver sob uma máscara, muitas vezes fazendo o que não se deseja por medo de perder amigos e família tem um custo muito alto. Deixá-lo para trás é como quebrar as correntes que nos privam da liberdade.

Ao longo do tempo, no entanto, comecei a perceber que viver ‘dentro do armário’ não é exclusividade de pessoas com orientação sexual que não a hetero. É algo que acontece com todos nós, em relação aos nossos atributos que acreditamos serem vistos como negativos, mas que fazem parte de quem somos.

Entre os ‘armários’ que encontrei estão as mais variadas características que, por um motivo ou outro, nos levam a querer escondê-las, mudá-las ou eliminá-las. Mas, como descobrimos nessas tentativas, a maior parte delas não são algo que podemos descartar, e acabamos precisando aprender a conviver com elas. Alguns dos aspectos que traziam sofrimento, na visão da pessoa: riqueza, pobreza, beleza, feiura, alto peso, baixo peso, preguiça, obstinação, família desestruturada, culpa, tendência a escolher relacionamentos ruins, sofrer abuso, cometer abuso, nível intelectual elevado, nível intelectual rebaixado, opiniões políticas. Ou seja, qualquer coisa que pudesse ser visto como uma falha, uma imperfeição ou uma diferença. E, como os exemplos de características antagônicas mostram, praticamente qualquer coisa pode ser vista como uma falha, dependendo do ponto de vista.

Isso torna evidente que o maior obstáculo para nossa autoaceitação somos nós mesmos. Frequentemente atribuímos ao outro o julgamento que nós mesmos fazemos. Quando nos assumimos, sofremos muito menos rejeição do que imaginávamos. A principal rejeição é interna, talvez aprendida ao longo da vida ao interiorizarmos expectativas irrealistas e modelos ideais. É um exercício importante observar as próprias regras, a voz da autocrítica, os medos que nos guiam diariamente, questionando-os.

Diversos aspectos podem ser aprimorados, mas uma boa parte não pode, especialmente aquela que não são nossas escolhas — como nossa aparência ou a família em que nascemos. E aí sim temos uma escolha. Podemos passar a vida toda tentando suprimir ou esconder aquelas características ou podemos assumi-las, encarando-as como parte de quem somos e da nossa história de vida. Quem sabe, podemos até ter orgulho daquela nossa falha que, inicialmente, parecia tão vergonhosa.

Da mesma forma que é libertador para uma pessoa assumir a sua sexualidade, também pode ser uma mulher cujo corpo não esteja nos padrões ideais usar um biquíni; um rapaz não sentir culpado por ter nascido numa família rica; um homem de meia idade reconhecer que seu abuso de drogas está sendo prejudicial. Isso nos permite ter a coragem para mudar o que é possível mudar e aceitar aquilo que não é possível, o que, nos dois casos, nos leva a ficar em paz com nós mesmos. Essa aceitação possibilita viver o melhor possível dentro das nossas limitações e das nossas possibilidades, que não são infinitas no absoluto, mas são imensas dentro do nosso contexto.

Às vezes brinco com as pessoas que atendo, dizendo: “meu trabalho é ajudar você a se deixar em paz”. E, sinceramente, espero dessas pessoas que elas possam perceber com leveza seus potenciais e limitações, respeitando-se e levando uma boa vida dentro delas mesmas.

Foto de Caitlin Venerussi.

O que você está esperando?

Nós geralmente acreditamos que um modo ansioso de pensar — em que antecipamos, imaginamos cenários, preparamos e planejamos — é indispensável para a ação. Achamos que se pudermos prever todas as possibilidades e desenhar cursos de ação, nos cobrarmos por condutas e soluções perfeitas, conseguiremos fazer aquilo que desejamos e finalmente transformar a nossa vida naquela que idealizamos.

Só que a ansiedade é baseada no medo. Nosso pensamento ansioso — e as ações que derivam dele — tem uma única função: evitar qualquer tipo de problema. Não queremos fracassar, falhar, fazer algo a menos do que achamos que deveríamos. Procuramos evitar qualquer possibilidade de vergonha, avaliação negativa, julgamento e risco.

Dessa forma, criamos uma série de condições para a ação: farei isso no dia em que tiver mais tempo, mais dinheiro, mais estabilidade. Em suma, tudo aquilo que nossa mente diz que significa mais segurança. “Vou agir, mas apenas quando me sentir totalmente seguro para isso.”

Como podemos agir se a base para as nossas ações é o medo? Ações significam mudança; como podemos mudar algo se estamos apegados à ideia de segurança?

O modo ansioso de pensar e funcionar não é um motor para a ação; é um obstáculo. Ele nos coloca na espera de condições perfeitas — que nunca chegam — para agir. Ou, quando a ação acontece, por conta de todos os medos, é uma ação travada, como se estivéssemos com o freio de mão puxado.

Isso não significa que a alternativa sejam as atitudes inconsequentes e impulsivas. É possível agir de forma natural, dentro do que as circunstâncias permitem, reagindo ao desenrolar das situações. Com base na vontade, no desejo, no sentido, as nossas ações podem seguir um fluxo em consonância com o que é apresentado a nós. Pode significar estar parado ou correr. Essa ação natural não força nem resiste. Sem as barreiras criadas pela mente, ela apenas flui em conjunto com todo o resto.

 

Foto por Alina Grubnyak no Unsplash.