Aproveitar a vida

“Deixe que tudo aconteça a você
Beleza e terror
Apenas continue seguindo
Nenhum sentimento é definitivo”
Reiner Maria Rilke

Um exercício que se recomenda tanto em algumas tradições espirituais como em algumas abordagens de psicoterapia é o de pensar na própria morte. A ideia é que, ao considerar a nossa finitude e a limitação do nosso tempo, possamos enxergar a vida em perspectiva e caminhar em direção a uma existência mais significativa. Em outras palavras, esse exercício nos incentiva a aproveitar a vida.

Mas o que podemos entender por aproveitar a vida? A nossa tendência é associar essa ideia com fazer coisas extraordinárias, divertidas, prazerosas e intensas. Embarcar naquelas aventuras que sempre imaginamos e concretizar desejos que sempre foram adiados. Quando nos imaginamos aproveitando a vida, nos vemos viajando para lugares exóticos, vivendo grandes emoções, pulando de para-quedas e coisas do tipo. Faz sentido: se temos um tempo limitado, certamente devemos ir atrás dos nossos sonhos e desejos.

Entretanto, se acreditarmos que aproveitar a vida é tentar espremer o máximo de coisas extraordinárias no mínimo de tempo, como alguém que come exageradamente em um dia porque sabe que no dia seguinte vai começar a dieta, entramos num movimento de negação, em que transformamos os desejos numa lista de coisas a fazer, numa incapacidade de parar e simplesmente existir. Essa negação nos leva à angústia e a ansiedade pela ideia do “tenho que aproveitar!” e nos faz pensar que, quando estamos passando por momentos ordinários, como na fila, no trânsito ou sem fazer nada, não estamos vivendo.

Aproveitar a vida envolve reconhecer a natureza da vida em sua totalidade. A inevitabilidade das coisas que acontecem conosco, os momentos bons e ruins, a alegria e a tristeza, a excitação e o tédio. Significa ter gratidão pelo fato de se ter vida, entendendo que viver não é apenas sentir prazer — como a vida seria estreita se fosse só isso! — mas sentir tudo que nos é possibilitado sentir.

Quando ouvimos de tantos sábios que devemos valorizar o fato de se estar vivo, não acredito que isso signifique que nos devemos colocar numa cruzada hedonista para extrair o máximo de prazer de cada momento. Suponho que a mensagem seja a de reconhecer tudo que a vida nos possibilita. Podemos pensar, sentir, falar, nos movimentar, comer, beber. Podemos amar e odiar, construir e destruir, ter prazer e dor, somar e dividir, aceitar e rejeitar, condenar e perdoar.

Aproveitar a vida, então, é reconhecer essa integralidade de possibilidades, tanto do que vem de fora do que vem de dentro; é usar bem a nossa existência, as nossas capacidades, e embarcar na experiência, seja ela qual for. Se enxergamos isso, a vida — e tudo que vem com ela, a cada momento — se torna extraordinária por completo, e qualquer medo de que não a estamos aproveitando se dissipa.

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