O estresse de fim de ano e nossa ideia de sucesso

O fim do ano, apesar de ser um momento de festas, comemorações e férias é sempre associado com o estresse. Pois parece que é muito difícil para nós prepararmos o nosso descanso e as nossas celebrações sem transformar esse processo em um peso. Talvez descansássemos mais se não tivéssemos esses momentos de lazer — e aí não precisaríamos nos preocupar tanto com o que faríamos para relaxar e descansar.

O estresse do fim do ano está relacionado com diversos fatores, em especial o consumismo, que determina que essa é uma época a comprar e gastar, como se o nosso afeto e amor por familiares e amigos só pudesse ser provado por meio de algo material. Mas há também um aspecto secundário que está presente não apenas nessa época mas em todo o ano, que pode ser exemplificado pela frase, tão comum: “estou na correria”. Esta parece ser uma resposta padrão à pergunta: “como você está?”.

Responder que se está na correria pode ser uma desculpa para não alongar uma conversa ou aceitar um convite para sair. Mas, na verdade, demonstra um certo valor atual, que é a glorificação do estar ocupado. Nós enxergamos como bem sucedidas as pessoas que têm destaque na sua vida profissional. E as pessoas que têm esse destaque parecem ter que estar sempre ocupadas; por serem importantes, estão sempre sendo requisitadas e consultadas. Dizer, então, que está ocupado passa uma impressão de importância e funciona como uma afirmação do ego, a partir do que é valorizado na nossa sociedade.

Nesse contexto, estar “estressado” é visto como algo positivo. Se estamos estressados, é porque somos muito cobrados, exigidos, e num contexto profissional, isso significa que somos importantes, mesmo que essa afirmação egoica nos custe a nossa saúde mental e física. Obviamente, nem todos valorizam o estresse ou o fato de estarem constantemente ocupados. Muitas pessoas de fato estão sobrecarregadas e infelizes com essa situação. Como terapeuta, atendo muitas pessoas que trabalham no mundo corporativo e tentam achar uma saída para a ansiedade e o estresse, ao mesmo tempo em que dão conta de um ambiente extremamente aversivo, em que não há espaço para flexibilidade, pausas ou relaxamento — tudo isso é visto como fraqueza, já que acima de tudo estão os resultados da empresa. Geralmente não há saída fácil, e a difícil passa por uma reflexão profunda sobre o que se quer fazer com a própria vida, entendendo os custos que viver num ambiente pouco saudável pode trazer.

Fico feliz quando vejo que algumas pessoas resolvem mudar de vida, embora a maioria permaneça presa numa espiral de cada vez mais trabalho, que é recompensado com mais dinheiro, mas também menos tempo e menos capacidade de aproveitar o momento. Nesses casos, o que se ganha é usado para buscar uma compensação, por meio de bens materiais. Entretanto, isso não parece ser o suficiente, pois de nada adianta usar o dinheiro sem conseguir parar e olhar para tudo que se tem. O olhar, quando se está preso nessa espiral, é sempre ávido e para a frente, focado na próxima coisa a se “conquistar” como prêmio de consolação pelas horas de vida que não voltarão mais.

Voltando à pergunta: “como você está?”. Se alguém respondesse de outra forma, por exemplo, dizendo: “não tenho feito muita coisa, ando apenas aproveitando a vida”, provavelmente causaria estranheza. Talvez até um julgamento negativo, pois temos certa aversão ao ócio. Somos levados a acreditar que é essencial ter uma semana de trabalho de 40 horas, e que parar para descansar e aproveitar a vida sem antes ter se matado de trabalhar é preguiça ou irresponsabilidade. Mas é estranho que precisemos estar sempre nos ocupando, adiando eternamente o momento de parar e viver de fato; pois de que serve todo esse sacrifício se não paramos nunca? Ou, se apenas nos permitimos parar depois de expiar nossa culpa gastando nosso tempo em atividades sem sentido?

Se o fim do ano é a hora de parar para pensar, talvez pudéssemos aproveitar esse momento para reparar em quais valores absorvemos, sem nem mesmo perceber, e incorporamos às nossas vidas. E, independentemente da sua religião ou crença, podemos refletir na ironia no que fazemos para celebrar o nascimento de Jesus, cujas palavras foram: “Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mateus 16:26).

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