Desesperança criativa

Quando nos apegamos à esperança, ela nos rouba o momento presente. Se esperança e medo são dois lados de uma mesma moeda, da mesma forma o são a desesperança e a confiança. Se desistirmos da esperança de que a insegurança e a dor podem ser exterminados, então podemos ter a coragem de relaxar na instabilidade da nossa situação.
Pema Chodrön

Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), há um conceito que é bastante difícil de trabalhar com os pacientes. Ele é chamado de desesperança criativa. Essa ideia é recebida com bastante resistência pois somos fortemente condicionados, inclusive culturalmente, a nos apoiarmos na esperança. Geralmente as pessoas dizem coisas do tipo: “se eu não tiver esperança, qual o sentido de continuar vivendo?”, “para que vou fazer terapia se não tiver esperança?” e outras frases na mesma linha. À primeira vista, isso faz sentido. A expectativa de que as coisas vão melhorar é o que parece nos possibilitar passar por momentos dolorosos e fazer com que ajamos para mudar a situação. Entretanto, se esse agir significa repetir os mesmos padrões que nos colocaram na situação de sofrimento, quanto mais fazemos, pior ficamos. Nesse sentido, viver em função da esperança também pode ser negativo.

A esperança nos tira do presente

Enquanto estamos vivendo baseados na esperança, nossos olhos estão sempre voltados para o futuro. Se por um lado a possibilidade de que exista um futuro melhor nos conforta, por outro causa uma boa dose de angústia. “Será que esse futuro vai chegar mesmo? Quando? Será que estou fazendo tudo que preciso para chegar lá? E se eu estiver fazendo algo errado? E se tiver perdido a única oportunidade que tinha para melhorar?” Esses são alguns dos pensamentos que temos ao olhar sempre para a frente. A incerteza nos incomoda muito, pois acreditamos que só um caminho é o bom. Ao rejeitar e temer todas as outras possibilidades, sofremos muito. E, como estamos sempre olhando para a frente, mesmo que o tal futuro chegue, continuaremos olhando ainda mais adiante, numa insatisfação sem fim.

A esperança nós dá a ideia de que não somos bons o suficiente

Muitas vezes a esperança surge no seguinte modelo: “se eu for melhor nisso, se eu resolver esse meu problema, tudo vai dar certo”. Ou seja, se eu for mais magro, mais rico, mais inteligente, mais qualificado, mais experiente, minha vida vai se resolver. A mensagem implícita nesse tipo de perspectiva é a de que eu não sou bom hoje, não sou bom da forma como sou. E, da mesma forma que olhar sempre para a frente nos impossibilita de viver o presente, se estou sempre insatisfeito com o que sou agora, não importa o quanto eu mude, continuarei sempre precisando de mais.

A esperança reduz nossa flexibilidade

A esperança é um desejo de que as coisas aconteçam de uma determinada maneira. A vida, no entanto, é uma infinidade de possibilidades. Quando esperamos, negamos qualquer possibilidade que não seja aquela que desejamos. Ao fazer isso, sabendo o quanto a vida é imprevisível e surpreendente, estamos nos condenando ao sofrimento. Se rejeitamos tudo aquilo que não é o que queremos, assumindo uma postura de rigidez e prepotência, estamos negando os presentes da vida e nos condenando à infelicidade.

Enquanto ainda temos esperança, tendemos a continuar tentando resolver os nossos problemas da mesma forma que sempre fizemos: imaginar uma situação ideal, estabelecer o que precisa ser feito para chegar nela e agir conforme esse plano. Mas isso é o que fizemos a vida toda, e não funciona. Nós nunca chegamos nesse ponto em que olhamos em volta e dizemos para nós mesmos: “ah, agora sim, estou onde eu queria, posso relaxar e aproveitar a vida”. Quando a nossa esperança de que podemos viver sem dor finalmente acaba e chegamos no ponto em que nos parece o fundo do poço, aí sim, finalmente podemos de fato mudar. Pois só aí, quando sentimos que não há nada a perder, nada mais a nos agarrar, podemos fazer o que nunca tivemos coragem de fazer antes. Por isso o conceito se chama desesperança criativa. A coragem para criar, para fazer diferente, só pode surgir quando abandonamos os nossos vícios de comportamento. A desesperança pode ser incrivelmente libertadora e, por mais paradoxal que isso possa parecer, ela pode ser justamente o que falta para nos direcionar a uma vida muito mais plena.

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