A mente é como um rádio

A mente pode ir em mil direções, mas nesse belo caminho, eu ando em paz. Com cada passo, o vento sopra. Com cada passo, uma flor desabrocha.
Thich Nhat Hahn

Você já parou para pensar como a linguagem é útil no nosso aprendizado? É através dela que passamos a saber a maior parte daquilo que devemos fazer para produzir certos resultados e evitar outros. Se não tivéssemos essa ferramenta, teríamos que aprender tudo pela própria experiência. O conhecimento não poderia ser passado de geração para geração e cada pessoa teria que redescobrir tudo sobre a vida. Não é à toa que o desenvolvimento da humanidade passou a realmente ser significativo quando o ser humano começou a criar símbolos, usados para a fala e a escrita.

Desde cedo, aprendemos a valorizar muito do que ouvimos, pois assim conseguimos lidar com muito mais situações do que se só aprendêssemos na experiência. Ouvimos dos nossos pais: “não faça isso, ou você vai se machucar”. E eventualmente percebemos que é verdade, o que geralmente é fortalecido por um “eu não disse?”. A linguagem ajuda a descrever o mundo, a prever consequências, a reagir antecipadamente a eventos. Ela é tão poderosa que podemos ter reações emocionais mesmo que nunca tenhamos passado pelas circunstâncias que ela descreve (imagine uma criança assustada ao ouvir uma história de terror).

E é justamente porque a linguagem é tão útil e poderosa que ela também nos traz problemas, pois passamos a confiar excessivamente naquilo que ouvimos. Além disso, não é apenas o que é dito pelos outros que nos influencia: criamos as nossas próprias regras sobre a realidade, regras que dificilmente testamos ou contestamos. Muitas dessas regras podem ser irreais ou desatualizadas. Imagine uma criança que, por alguma crítica ou dificuldade que enfrenta, pensa: “eu não sou capaz”. Essa regra sobre si mesma pode permanecer até a idade adulta e influenciar suas atitudes, mesmo que novas circunstâncias surjam para desmentir essa regra. É bem comum que continuemos agindo de acordo com essas perspectivas, pois mais que a vida dê sinais de que aquilo não é mais verdade — e talvez nunca tenha sido.

Nós temos dificuldade em enxergar que a nossa mente — e os pensamentos que produzimos — com crítica. Acreditamos piamente em tudo aquilo que pensamos. Parece que se a linguagem está dentro da nossa pele, ela é totalmente verdadeira. Mas por que seria? Entre outras coisas, nossa mente está o tempo todo buscando nos proteger. Por conta disso, ela pode ser catastrófica, ansiosa, exagerada. Pense nela como um rádio que toca incessantemente. Qual é programação que estaria na sua mente-rádio? Um programa de notícias ruins, que desperta medo? Um programa de histórias do passado que sempre traz arrependimento e tristeza? A transmissão de um julgamento em que você é sempre o réu, por tudo o que faz de errado?

Infelizmente não há um botão que possa facilmente desligar esse rádio. Uma das maneiras de aprender a lidar com isso é ter consciência e lembrar, sempre que possível, que você está apenas ouvindo rádio. Eventualmente, ele fornecerá informações úteis, mas, na maior parte do tempo, é apenas a programação que foi montada ao longo da sua vida, se repetindo dia após dia. O nosso desafio é conseguir viver em contato com a nossa experiência, as nossas sensações e os nossos valores, independentemente do que esteja tocando no rádio.

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