Por que não consigo ser o que gostaria?

Muitos dos nossos problemas vêm da ideia de que podemos controlar perfeitamente a nós mesmos. Mas basta tentar fazer uma dieta, entrar num programa de exercícios ou até mesmo tentar finalizar uma tarefa num prazo curto para ver que as coisas não são tão simples assim. Nós não podemos nos controlar da maneira que acreditamos que podemos. Ainda assim, continuamos tentando, imaginando que apenas não estamos fazendo isso da maneira certa — ou com a intensidade suficiente.

De onde vem a ideia de que podemos nos controlar tanto? É possível que isso esteja impregnado na nossa cultura. Na tradição judaico-cristã, a mensagem é de que devemos ser capazes de controlar até mesmo nossos pensamentos — se não o fizermos, estaremos pecando. Podemos ouvir de pais e professores sobre como devemos agir de uma maneira ou outra, ou até mesmo o que devemos, ou não, sentir. Quando olhamos à volta, podemos ver pessoas que têm imensa disciplina para algumas atividades e nos perguntamos por que não conseguimos ser como elas.

Como psicoterapeuta, percebo que uma grande parte das pessoas que me procura vem com uma grande questão: “por que não consigo fazer aquilo que sei que é o melhor para mim?” Por que não conseguimos parar de fumar, beber, comer demais ou sair daquele relacionamento abusivo, mesmo quando sabemos o quanto tudo isso é ruim?

O problema nesse momento é que as pessoas nem sempre tentam entender de fato a sua situação. Elas apenas se condenam por continuarem fazendo aquilo que decidiram que é “errado”. No momento que elas olham com mais serenidade e compaixão, percebem que, se nos mantemos em alguma situação “ruim”, é porque temos ganhos. Podemos ter prazer em fumar, beber ou comer. Um relacionamento abusivo pode trazer, além de todos os aspectos negativos, emoções e prazeres fortes, ainda que momentâneos. E mudar significa abrir mão, passar por vontades, lidar com a perda: é comum ficarmos numa situação ruim só por não querermos passar por isso.

Quando não percebemos esses fatores, ficamos apenas num grande conflito: nossa mente dizendo o que devemos fazer e a nossa incapacidade de atender a nossa própria expectativa. Não é raro que nos perceber nesse conflito faça com que nos sintamos ainda piores conosco e nos engajemos ainda mais nos nossos vícios. Além do sofrimento da situação em si, adicionamos o sofrimento de não conseguirmos ser aquilo que esperamos.

Não existe uma fórmula mágica para a mudança. O “como” da mudança é a parte mais difícil. Quando uma pessoa que atendo relata alguma mudança significativa em sua vida, eu costumo indagar com genuína curiosidade: “como você fez isso?”. As respostas são as mais variadas e nem sempre a pessoa realmente sabe como fez. O que me leva invariavelmente a uma sensação de encantamento ao perceber como nós somos influenciados por um infinito de variáveis e podemos mudar sem nem mesmo saber por quê. É uma clara demonstração de como muito pouco está sob controle da nossa estreita consciência — ainda que ela, em sua ilusão de onipotência, ache que pode controlar tudo.

O que acho possível trabalhar em terapia, então, mais do que o “como” da mudança, é a expectativa de controle. A ilusão de que basta ter uma frase em mente para que o nosso comportamento siga naquela direção é algo que, além de inútil, faz mais mal do que bem. A psicoterapia de algumas pessoas que já atendi não foi para frente por conta desse impasse: elas queriam conseguir que esse autocontrole fosse efetivo, e esperavam minha ajuda para isso. Eu, obviamente, não consegui ajudá-las dessa maneira e o processo se interrompeu.

É possível que o autocontrole funcione, por um tempo. Mas quando a pessoa está se forçando a uma certa atitude, manter esse estado traz grande sofrimento, e logo ela retorna ao seu estado anterior, o que ela encarará como um “fracasso”. Por outro lado, para muitas pessoas que conseguiram abandonar a expectativa de autocontrole, esse foi, paradoxalmente, um passo importante para ser diferente de uma maneira mais natural e positiva. Conseguir estar bem com o que se é num determinado momento pode ser uma mudança maior do que se forçar na direção de um comportamento idealizado. A autoaceitação e compreensão de si são ferramentas muito mais poderosas do que a autocobrança. Parece que a máxima de Carl Rogers, “quando aceito a mim mesmo como sou, posso mudar”, continua fazendo sentido.

 

Foto: Alexandre Chambon

2 Comentários

  1. Fantástico! No desenrolar do texto me veio à mente justamente esta frase do Rogers, que sabiamente vc utilizou no final. Estou no caminho certo então! 🙂
    Seus textos são sempre providenciais. Obrigada!

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