A inadequação como caminho

Sentir-se inadequado é uma queixa que aparece com frequência em sessões de psicoterapia, revelando um dos aspectos centrais da condição humana. As pessoas descrevem uma sensação persistente de não serem pertencentes, de não conseguirem realmente se adequar a um certo ambiente ou de temerem serem descobertas pelos outros naquilo que as envergonha. Independentemente da situação de vida, a impressão de que se é vagamente “errado” continua presente.

A reação natural costuma ser a de julgar como errado o sentir-se errado. Passamos, então, a buscar formas de resolver o conflito. Existem dois caminhos mais comuns: o do escape, em que tentamos apenas não sentir o desconforto, nos distraindo ou nos dopando de alguma forma com drogas, álcool, sexo, consumo, entretenimento; ou o da adequação, em que almejamos a conformidade com aquilo que é esperado de nós, o ser adequado. Tentamos nos consertar para sermos aquilo que o nosso contexto social espera.

Esse último caminho é ainda mais nocivo do que o primeiro. Quando buscamos a adequação, recebemos incentivos, tapinhas nas costas e aprovação generalizada, o que nos traz conforto e alívio. Somos recompensados socialmente quando nos “aprimoramos” ou “realizamos nosso potencial”.  Podemos passar uma vida dentro desse lugar confortável e achar que está tudo bem. Entretanto, essa existência só se sustenta com um grande esforço psíquico — que podemos chamar de neurose — pois, no fundo, sabemos que não somos apenas aquilo que aparentamos.

Como o caminho da adequação é o valorizado socialmente, ele também é bastante difundido na própria psicoterapia. É possível encontrar em livros da área termos como: mal adaptativo, disfuncional, treinamento, habilidades, sublimação e afins. Isso sem falar em técnicas mais agressivas de condicionamento que buscam “corrigir” a pessoa. Essa postura não é exclusiva de uma ou outra abordagem. Qualquer base teórica pode ser usada a favor ou contra a liberação do indivíduo.

Muitas vezes, o próprio terapeuta pode acreditar que o caminho do ajustamento é o correto. Quando isso acontece, uma vez que ele tem as ferramentas necessárias para isso, cria-se o contexto ideal para uma terapia de fortalecimento das neuroses do indivíduo, e afastando-o da possibilidade de liberação. Um alívio que distancia da cura. Já comentei antes que acredito que a psicoterapia não deveria ser um instrumento de ajustamento social.

Existe um terceiro caminho para lidar com o estranhamento que sentimos sobre estarmos no mundo, que é o de não optar pelo escape ou pela conformidade. Quando ouço de alguém que atendo em terapia frases como: “estou perdido”, “me sinto inadequada”, “não sei o que fazer da vida”, acho que é um bom sinal. Se você já não está perfeitamente ajustado às normais sociais, ótimo! Não ande para trás!

Eu já falei para pessoas que atendo frases como: “eu não vou ajudar você a emagrecer”, “não vou ajudar você a estudar melhor”, “não vou ajudar você a ser socialmente habilidoso”, pois percebia que esses objetivos resultariam num aprofundamento dos padrões neuróticos. Cheguei a deixar claro que se era isso que a pessoa buscava, seria melhor procurar outro terapeuta. E algumas pessoas preferiram essa opção. Isso não me deixa desconfortável, pois acredito que a minha função, na terapia, é defender você radicalmente. Das imposições sociais, das expectativas externas, das demandas dos pais. E até — às vezes especialmente — de você mesmo.

 

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