A liberdade no “eu não sei”

Na mente do principiante existem muitas possibilidades, mas na do expert há poucas.
Shunryu Suzuki

Fiz todas as minhas etapas da pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) no Instituto de Psicologia da USP. Éramos um grupo de pesquisa bastante competitivo — interna e externamente. Uma das principais regras implícitas nas aulas e nas reuniões de equipe é que, numa instituição desse porte e num grupo tão produtivo, não existia espaço para se dizer “eu não sei”. Toda pergunta deveria ter uma resposta, e não as ter significava receber uma avaliação negativa dos pares e dos professores.

Só notei que eu continuava funcionando de acordo com essa regra depois de já ter concluído meus projetos e estar longe da instituição por um tempo. Percebi que ainda me sentia na obrigação de ter uma boa resposta para tudo que me perguntavam, em especial nos meus atendimentos. Mesmo perguntas complicadas como “o que você acha que está acontecendo comigo?”, “você acha que eu posso melhorar?” ou “quanto tempo até que eu veja algum resultado da terapia?” eram respondidas com algum tipo de explicação que buscava dizer o que a pessoa queria ouvir. Se eu não desse essa resposta, a pessoa, além de se decepcionar, poderia descobrir que eu era uma fraude. Eu tinha que dar uma resposta.

Em algum momento me dei conta disso e, gradualmente, passei a assumir a minha ignorância e incapacidade de responder coisas irrespondíveis — e outras respondíveis, mas que eu só não sabia mesmo. Comecei a dizer “eu não sei” e, para minha surpresa, isso foi extremamente libertador. Mesmo em situações em que o “eu não sei” poderia significar perder uma pessoa que buscava atendimento ou decepcionar alguém, no fim a sensação de não ter me enrolado tentando dar uma resposta falsa compensava a perda. A pessoa estava me vendo pelo que eu era e podia pensar o que quisesse; de alguma forma, a vida continuava.

Animado com esse desprendimento, passei a ir mais longe. Comecei a admitir para as pessoas que atendo que, em alguns momentos, não faço ideia do que estou fazendo como terapeuta. Nas aulas que dou, falo dos casos que não deram certo — os que dão certo existem aos montes nos livros. Digo para pessoas que querem que eu seja um tipo de terapeuta que não bate com meu perfil que não consigo ser aquilo que elas precisam. Comento com pessoas em impasses nos atendimentos que já não sei mais o que fazer de diferente com elas.

As consequências dessa postura foram ainda mais marcantes. Não era só eu que me sentia melhor ao ser honesto sobre meus conhecimentos ou capacidades; as pessoas com quem estava trabalhando em consultório ou aulas se sentiam extremamente aliviadas e reconfortadas com essa honestidade. A resposta segue um padrão, que não é de julgamento, e sim de empatia e autocompaixão: “bom, se você que é o psicólogo/professor/doutor não sabe, então tudo bem eu não saber também”. Cheguei a perceber alunos literalmente suspirando de alívio quando eu apresentava, nas aulas, meus fracassos terapêuticos. Muito mais relevante do que uma tonelada de conhecimento era mostrar que alguém que está numa posição em que deveria ter todas as respostas era tão “imperfeito” e vulnerável como eles.

Vivemos num mundo em que se fala constantemente de excelência, produtividade, aperfeiçoamento, resiliência. Nenhum desses aspectos é de fato uma receita para uma vida melhor (independentemente do que se ouça nos meios acadêmicos e corporativos). Nesse contexto, há muito pouco espaço para que a nossa humanidade apareça. Conseguir conviver bem com o que se é, com o que se sabe ou não num determinado momento, é mais importante para a vida do que ter todas as respostas.

 

Foto: Frank Mckenna

Os consultórios de psicologia estão cheios (e porque isso tem seu lado ruim)

Não temos dados claros sobre a demanda geral por serviços de psicologia no país. Entretanto, pelo que percebo da clínica onde estou e pelo relato de colegas, parece ter havido um aumento na demanda por atendimento psicológico nos últimos anos, apesar da crise. Há, inclusive, aumento na oferta de modalidades de atendimento, como as plataformas online, após aprovação do Conselho Federal de Psicologia.

Olhando superficialmente, isso pode parecer apenas positivo. Afinal de contas, as pessoas estão se cuidando, buscando ajuda, priorizando seu bem-estar. Percebo uma redução no estigma do fazer terapia, evidenciado pelo aumento no número de homens e pessoas mais velhas atendidas (que, de forma geral, apresentavam mais resistência). O fato de os seguros de saúde serem obrigados a arcar com as terapias psicológicas também deve contribuir, já que muitas pessoas que procuram atendimento utilizam esse recurso.

Mas olhemos mais de perto. As pessoas não procuram atendimento psicológico puramente por autoconhecimento ou porque querem se sentir ligeiramente melhor. As pessoas procuram atendimento por estarem em sofrimento, muitas vezes profundo. Considere a citação seguinte:

Nos anos 1960 e 1970, houve um movimento de diversos teóricos (Laing, Focault, Deleuze e Guattari, etc.) com argumentos sobre condições mentais extremas, como a esquizofrenia, considerando que a loucura não era uma categoria natural, e sim, política. Mas o que precisamos agora também é de uma politização dos transtornos bem mais comuns. E a questão é justamente o fato de serem tão comuns: no Reino Unido, a depressão é a condição mais tratada pelo NHS [equivalente ao SUS no Brasil]. Em seu livro The Selfish Capitalist, Oliver James propôs de forma convincente uma correlação entre o aumento nas taxas de sofrimento mental e a forma neoliberal de capitalismo praticada em países como Reino Unido, EUA e Austrália. Na mesma linha dos argumentos de James, quero argumentar que é necessário reenquadrar o crescente problema do estresse (e do sofrimento) nas sociedades capitalistas. Em vez de colocar o peso nos indivíduos em resolver o próprio sofrimento psicológico, ou seja, de aceitar essa ampla privatização do estresse que se deu nos últimos trinta anos, precisamos nos perguntar: como se tornou aceitável que tantas pessoas, em especial jovens, estejam doentes? E ‘epidemia de problemas mentais’ em sociedades capitalistas sugeririam que, em vez de ser o único sistema social que funciona, o capitalismo é inerentemente disfuncional, e que o custo em aparecer no trabalho é muito alto.

Esse é um trecho do livro Capitalist Realism (Realismo Capitalista) publicado em 2009 por Mark Fisher, que inclusive, cometeu suicídio oito anos depois justamente pelas dificuldades com a depressão.

Nós, psicólogos, estamos caindo na armadilha de considerar apenas o indivíduo ao olhar para o sofrimento humano. As teorias psicológicas costumam se basear em perspectivas biopsicossociais, ou seja, na interação entre aspectos biológicos, história de vida e ambiente social. Este último vem sendo negligenciado nos modelos mais recentes de psicoterapia, que inclusive tacham o indivíduo de desajustado, desadaptado e incompetente caso ele não consiga lidar com o mundo, pouco importando o quão hostil esse mundo seja.

As pessoas têm chegado nos consultórios ansiosas, deprimidas e esgotadas, mas o pior de tudo é que, além dessas condições, elas sofrem adicionalmente por acreditarem que isso se deve a algo que elas estejam fazendo errado. E, caso a psicoterapia não olhe para o contexto social do indivíduo — como o trabalho, a existência através do consumo, a intolerância — normalizando o sofrimento em tal contexto, ela apenas criará ainda mais sofrimento ao propor que a pessoa tem sim que se sentir bem apesar de todas as adversidades.

A psicologia clínica, então, situa-se numa encruzilhada. Pode silenciar-se em relação ao contexto destrutivo da nossa sociedade, recebendo as pessoas que buscam alívio sem ajudá-las a compreender todas as dimensões de seu mal-estar e trabalhando para produzir pessoas mais conformadas e neuróticas. Ou pode, com consciência crítica da realidade, oferecer apoio compreendendo que importantes causas do sofrimento são contextuais, liberando o indivíduo do peso paradoxal de lutar contra si mesmo.

 

Foto: Brandon Hoogenboom

Os descondicionadores

Existem alguns preconceitos sobre a psicologia comportamental. Pessoas que atendo já me relataram que, ao dizerem que fariam terapia com um psicólogo comportamental, foram alertados que essa linha era um “adestramento” ou que a pessoa seria “condicionada” de acordo com a vontade do terapeuta. Embora meus colegas de abordagem fiquem incomodados com esse tipo de rótulo, acho que devíamos considerar que esses preconceitos têm sim uma base na realidade, especialmente quando consideramos a história da abordagem comportamental.

Vejamos, por exemplo, um livro clássico da área, “Prática da Terapia Comportamental”, de Joseph Wolpe, publicado por aqui nos anos 1970. Nele, encontraremos técnicas de reversão de homossexualidade e terapias aversivas descritos com precisão técnica, no melhor estilo Laranja Mecânica. É claro que, de lá pra cá, esse tipo de procedimento foi sendo abandonado, mas já foi o suficiente para que gerar uma desconfiança geral em relação à abordagem, especialmente por quem se preocupa com uma psicologia humanista e humanizada.

Entretanto, existe uma diferença entre o conhecimento e o uso que se faz dele. A psicologia comportamental é um campo do conhecimento que busca entender as relações entre o nosso comportamento e seus contextos. As terapias comportamentais são a utilização desse conhecimento para um determinado fim. O conhecimento, por si só, é sempre neutro; quando o conhecimento é utilizado numa tecnologia, ele se torna moral, pois indica um resultado desejável. A radiação, por exemplo, pode ser usada para construir bombas ou combater o câncer.

Querendo ou não, se vivemos em sociedade, somos condicionados. Pela nossa família, pela escola, pelo ambiente de trabalho, pela cultura. Isso está acontecendo o tempo todo. E, quase sempre, estamos sendo condicionados em função de interesses que não são os nossos e sim de quem está realizando o condicionamento. O desejável é ser uma criança que não dá trabalho, um bom aluno, um funcionário exemplar. Também é comum que não percebamos esses processos acontecendo. Muitos deles são aversivos e geram consequências emocionais pesadas — basta olhar o quanto estamos ansiosos, deprimidos e esgotados, às vezes sem nem entender direito o porquê.

E aí, da mesma forma em que os conceitos da psicologia comportamental podem ser utilizados no controle e condicionamento das pessoas, eles podem ser utilizados na direção oposta. Em terapia, por exemplo, ela pode se tornar cada vez mais consciente dos condicionamentos às quais ela é e foi sujeita e se libertar deles. A terapia pode ser uma das poucas — senão a única — situações em que alguém com conhecimento sobre psicologia está atuando apenas pelos interesses de quem é atendido, e não pelos interesses de uma instituição como uma escola, uma empresa ou um governo. A parte difícil do trabalho continua sendo da pessoa, pois libertar-se de condicionamentos requer mudanças de atitudes e um rearranjo da vida que permita o máximo de liberdade, mas na terapia a pessoa terá uma aliada nesse processo.

Então, quando ouço os preconceitos sobre as terapias comportamentais, consigo entendê-los. Também desconfio de psicoterapias que perseguem resultados específicos independentemente da vontade da pessoa atendida, como processos manualizados ou protocolos. O que é possível fazer, na contramão disso, é o trabalho de descondicionamento. Tornar-se consciente das linhas invisíveis que podem nos manipular é cada vez mais relevante num mundo que é agressivo nas suas sofisticadas estratégias de condicionamento e adestramento. Precisamos de todos os recursos que temos disponíveis para permanecermos livres.