Negativismo e insatisfação

Se me fosse solicitado o conselho mais importante que eu pudesse dar, aquele que eu considerasse o mais importante para as pessoas do nosso século, eu simplesmente diria: em nome de Deus, pare um momento, interrompa seu trabalho, olhe à sua volta.
Liev Tolstói

Nós temos, ao menos na nossa cultura, uma grande tendência a focar no negativo. Somos uma geração de insatisfeitos. Gostamos de reclamar do governo, falar mal do colega de trabalho, praguejar contra o trânsito. E fazemos isso também com nós mesmos: nos martirizamos em relação às oportunidades perdidas, aos erros que cometemos, às nossas limitações. Isso parece muito evidente na geração que hoje está em torno da meia idade, que parece ter tido uma criação em que os elogios e o reconhecimento eram escassos, fazendo com que as pessoas nunca se sentissem boas o suficiente. Por outro lado, essa geração, que hoje está criando seus filhos, parece querer compensar essa falta de valorização sendo excessivamente protetora. Com isso, as crianças e adolescentes são menos tolerantes a lidar com as dificuldades. Querem o mundo do seu jeito — o que é impossível — e consequentemente também são insatisfeitos.

Isso se expressa especialmente no nosso olhar. Olhamos, o tempo todo, para aquilo que falta. Pensamos apenas em como as coisas poderiam ser. Em como as pessoas deveriam agir. Criamos constantemente um cenário ideal e ficamos comparando a realidade com essa fantasia. Como a realidade não alcança a fantasia, ficamos focados o tempo todo nessa lacuna, olhando para aquilo que falta, aquilo que poderia ser, mas não é. E isso nos causa um enorme sofrimento, pois, por conta disso, temos dificuldade em lidar com o mundo e especialmente com nós mesmos do jeito que as coisas são. Como penso o tempo todo naquilo que eu deveria ser mas não sou, sofro.

Somos levados a acreditar que olhar para a falta nos impulsiona na direção da melhora. Acreditamos que se nos contentarmos com a vida como ela é, não conseguiremos fazer mais nada. Entretanto, não é isso que vejo. Vejo que ficamos tão sobrecarregados por aquilo que acreditamos que falta que mal conseguimos nos mexer. Ou, o mais comum, tentamos apenas nos livrar dos incômodos sem conseguir mudar realmente nossas vidas. Podemos ficar presos num desejo constante por mais, sendo levados ao consumismo e ao egoísmo que ameaçam o nosso planeta e a nossa vida em comunidade. Nossa insatisfação não nos transformou em pessoas conscientes e abertas a mudanças, mas sim em consumidores vorazes e — pasme — cada vez mais insatisfeitos.

Por que não conseguimos suprir essa falta, tapar esse buraco? Porque não se consegue isso através do externo. Não se consegue isso comprando um novo eletrônico, tendo um aumento de salário ou entrando num novo relacionamento. Se não temos o hábito de olhar para o que temos, não importa o que consigamos, sempre vamos estar insatisfeitos. É uma questão de como nos percebemos e como percebemos o mundo, e não do quando tiramos dele. Se não temos a habilidade de olhar e valorizar o que temos, nada será suficiente, nunca.

E como podemos cultivar o contentamento? Passe a olhar para aquilo que já é, aquilo que você já tem, em vez de focar no que falta. Olhe em volta, olhando para o que está lá, não para o que não está. Pense em tudo que você pode ter com o dinheiro que ganha, não no que poderia ter se ganhasse mais. Seja um turista na sua própria cidade: tente imaginar o que chamaria a atenção de alguém que não conhece aquele lugar. Olhe para as pessoas significativas da sua vida como se você estivesse as encontrando pela primeira vez. Ao sentir o impulso de comprar algo novo, olhe para o que você já tem como se tivesse acabado de comprar. Esqueça o que aquele celular novo faria; pergunte-se o que o seu atual faz.

Desse forma, podemos sair dessa busca por um ideal inatingível que apenas nos deprime. A partir do contentamento, temos serenidade e alegria para viver o presente e olhar para novos horizontes não com a perspectiva de suprir uma falta, mas de criar algo em nossas vidas. Ao passar a aceitar e valorizar mais o que você é, o que você já tem e como sua vida é hoje, você não vai mais precisar fugir o tempo todo. E aí, paradoxalmente, você poderá realmente mudar.

4 Comentários

  1. Obrigada, Rodrigo, por cada texto, por cada palavra. Eles, sem dúvida, fazem parte das boas coisas a serem apreciadas na vida. Um grande abraço.

  2. O texto disse tudo. Eu conheço pessoas que tem de tudo. Moram bem, viajam para o exterior, tem boas roupas, bons sapatos, bom emprego. Nada falta. não passa fome, não mora em favela, mas sempre há algo que lhes falta na vida . São tristes orgulhosas e arrogantes. Vivem numa insatisfação que ninguém chega perto. Homens bonitos, bem sucedidos, gananciosos vivem mal humorados e são arrogantes. ´Tem cargo de poder , mas vivem insatisfeitos. E pessoas pobre sorriem mais. Ilma s. Vieira

    1. Pois é, Ilma. Acho que muitas vezes buscamos a felicidade em um lugar e, quando percebemos que ela não está lá, sofremos. Daí a arrogância, a agressividade… Frente a pessoas assim, precisamos de compreensão e compaixão, para não nos deixarmos levar por sentimentos negativos. Obrigado pela participação.

Deixe uma resposta