Navegando num mar de opiniões

A mente do principiante é vazia, livre dos hábitos do expert, pronta para aceitar, para duvidar, e aberta a todas as possibilidades.

Shunryu Suzuki – Mente Zen, Mente de Principiante

Parece que hoje, mais do que nunca, é preciso ter opinião sobre tudo. Cada evento demanda um posicionamento, que costuma ser expressado não apenas para os ouvidos próximos, mas, com especial esforço, nas redes sociais tradicionais ou mais dinâmicas. Gostamos muito de falar, mas ouvimos muito pouco. Além disso, como precisamos nos posicionar sobre tudo, as análises complexas são raridade: optamos por falar a partir de uma visão superficial, ou, o que é ainda mais prático, apenas passar para a frente uma opinião pronta que julgamos ser condizente com o que acreditamos.

Esse mar de informações, dos mais diversos níveis de qualidade, junto com as opiniões decorrentes, próprias ou alheias, acabam, na verdade, nos afastando da realidade. Nosso julgamento se torna mais obtuso, raso e rígido. Categorizamos uns aos outros com muita facilidade e, se deixarmos, essa categorização guia o nosso comportamento em relação às outras pessoas. Só quando conseguimos enxergar através da ideia que temos do outro podemos ver a pessoa ali, em sua integralidade, e ter uma relação real. Do contrário, estaremos apenas nos relacionando com a ideia de quem a pessoa é. Tente perceber o seu julgamento ao pensar em pessoas que discordam de você politicamente.

Outro problema decorrente disso é que nos identificamos demais com nossas próprias opiniões. Acredito nesse ou naquele conjunto de ideias e, quando elas são questionadas, sinto-me diretamente atacado. Naturalmente, como defesa, passo a atacar o outro, ou seu conjunto de ideias. Individualmente, acabo precisando fazer um grande esforço para manter meus comportamentos coerentes com as minhas ideias — e como nunca conseguimos de fato ser coerentes, haja malabarismo mental para justificar as ações.

Não é à toa que a prática Zen, no que se refere à disposição mental, sugere abrir mão das opiniões. O terceiro patriarca do Zen, Sengan, que viveu no século VI, diz, em seu texto Hsin Hsin Ming:

O Grande Caminho não é difícil
Para aqueles que não têm preferências.
Quando o amor e o ódio estão ambos ausentes
Tudo se torna claro e sincero.
(…)
Negar a realidade das coisas é perder sua realidade.
Afirmar o vazio das coisas é perder sua realidade.
Quanto mais falares e pensares sobre isso,
Mais te desviarás para longe da verdade.
Pare de falar e de pensar,
E nada haverá que não possas conhecer.

Muitas das técnicas de psicoterapia atuais envolvem elementos de mindfulness. Algumas das práticas evocam o conceito de mente antiaderente, ou seja, aquela que enxerga os pensamentos apenas como pensamentos, palavras apenas como palavras, sensações apenas como sensações. Sem se apegar ou ‘grudar’ em nenhuma delas.

É bastante interessante quando olhamos para nossas próprias ideias de forma distanciada e nos perguntamos: “De quem é essa ideia?” “De onde ela vem?” “Eu tenho alguma coisa a ver com essa ideia?” “O que acabo fazendo ou deixando de fazer se me apego a essa ideia?” Uma boa dose de sofrimento pode ser aliviada quando praticamos dessa forma. Percebemos o quanto da nossa paz pode ser sequestrada simplesmente pela identificação com um pensamento.

Por fim, não se esqueça de que esse texto também é apenas um conjunto de opiniões e de frases. A verdade não está nas palavras.

 

Foto: Jessica Favaro

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