A prática da meditação — Dogen

Tradução livre de trecho do livro Buddhism and Zen de Nyogen Senzaki and Ruth McCandless (1997) e publicado no Daily Zen.

A verdade é perfeita e completa em si mesma. Ela não foi descoberta recentemente; sempre existiu. A verdade não está distante; ela está sempre presente. Não é algo a se atingir, pois nenhum dos seus passos leva para longe dela.

Não siga as ideias de outros, em vez disso aprenda a ouvir a sua voz interna. Seu corpo e sua mente se tornarão claros e você compreenderá a unidade de todas as coisas.

O que é a verdade? A verdade é a realidade da mente que não tem forma e permeia as dez direções. Ela está acontecendo nesse exato momento bem na frente dos seus olhos, mas as pessoas não confiam nela o suficiente. Então, elas aceitam termos e expressões, buscando avaliar o budismo conceitualmente nas palavras escritas. Elas estão tão longe quanto o céu está da terra.

O mais leve movimento do seu pensamento dualístico impedirá que você entre no palácio da meditação e da sabedoria. O Buda meditou por seis anos, Bodidarma por nove. A prática da meditação não é um método para atingir a realização — é a própria iluminação.

A sua busca nos livros, palavra por palavra, pode levar às profundezas do conhecimento, mas não é a maneira de receber o reflexo do seu verdadeiro eu. Quando você tiver se desfeito das suas ideias sobre mente e corpo, a verdade original surgirá por inteiro. O Zen é simplesmente a expressão da verdade; sendo assim, ansiar e esforçar-se não são as verdadeiras atitudes do Zen.

Para realizar a bênção da meditação, você deve praticar com intenção pura e determinação firme. Seu local de meditação deve ser limpo e silencioso. Não permaneça entre pensamentos de bom ou mau. Apenas relaxe e esqueça que você está meditando. Não deseje a iluminação, pois esse pensamento vai lhe confundir.

Sente-se numa almofada da maneira mais confortável possível, usando roupas largas. Deixe seu corpo reto, sem pender para a esquerda ou direita, para frente ou para trás. Seus ouvidos devem estar alinhados com seus ombros, e o nariz na mesma linha do umbigo. Mantenha sua língua no céu da boca e os lábios fechados. Os olhos um pouco abertos, e a respiração é silenciosa pelas narinas.

Antes de começar a meditação, respire profunda e lentamente várias vezes. Mantenha seu corpo ereto, permitindo que a respiração volte ao seu normal. Muitos pensamentos surgirão na sua mente; ignore-os, deixando-os ir. Se eles persistirem, perceba-os com a percepção que não pensa. Em outras palavras, pense sem pensar.

A meditação Zen não é um exercício físico, nem é um método para se obter algo material. É a própria paz e bem-aventurança. É a realização da verdade e da sabedoria.

Na sua meditação, você é a o espelho refletindo a solução dos seus problemas. A mente humana tem liberdade absoluta dentro da sua verdadeira natureza. Você pode atingir a sua liberdade intuitivamente. Não lute pela liberdade, em vez disso permita que a própria prática seja a liberação.

Quando você quiser sair da meditação, mova seu corpo lentamente e levante-se em silêncio. Pratique essa meditação pela manhã ou à noite, ou em qualquer tempo livre durante o dia. Você logo perceberá que seus fardos mentais estão se desfazendo um por um, e você está ganhando um poder intuitivo até então desconhecido.

Existem milhares e milhares de estudantes que praticaram a meditação e colheram seus frutos. Não duvide daquilo que ela pode possibilitar por conta da simplicidade do método. Se você não puder encontrar a verdade onde você estiver, onde mais espera encontrá-la?

A vida é curta e ninguém sabe o que virá no próximo momento. Abra sua mente enquanto você tem a oportunidade, ganhando assim os tesouros da sabedoria, que, por sua vez, você poderá compartilhar abundantemente com os outros, trazendo-lhes felicidade.

Dogen (1200-1253)

Photo de Zoltan Tasi.

4 Comentários

  1. Rodrigo, que bom que encontrei novamente seus textos maravilhosos! Estão me ajudando muito nesta tarde chuvosa e gostaria de não esquecer destes conceitos tão importantes sobre meditar, ser, aceitar e acalmar (preciso me lembrar todos os dias, rs).
    Se você pudesse, gostaria de lhe pedir para um dia escrever sobre o papel dos pais na educação dos filhos que vá além da postura comum de avaliação, crítica e correção com a intenção de formar um indivíduo bom e integrado à sociedade. Porque eu sinto que isso é massacrante para pais e filhos mas também não sei como é possível e se é saudável agir de forma de diferente.
    Um abraço pra você e sucesso sempre.

    1. Oi, Lilian, tudo bem? Que bom ver você novamente por aqui. Obrigado pelo comentário e pela sugestão de texto. Vou pensar com carinho no que eu poderia dizer. É um assunto desafiador, ainda mais porque agora também sou pai 🙂
      Um abraço.

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