Compromisso

Vinoth Chandar
Vinoth Chandar

Quando trabalho com o aspecto da aceitação na terapia de aceitação e compromisso (ACT), é muito comum que as pessoas façam questionamentos. “Aceitar não é se resignar, se conformar?” “Aceitar não significa desistir e ser passivo?” De fato, o termo aceitação dá uma ideia de passividade. Mas não é o caso — até porque aceitar o sofrimento, a ansiedade e outras sensações negativas dá muito trabalho. A aceitação é apenas um dos componentes centrais da ACT, que abre caminho para que consigamos de fato mudar a nossas vidas. Outro componente, tão importante quanto a aceitação, é o compromisso. O compromisso é estabelecido com você mesmo, em relação à forma como você gostaria de viver, baseada nos seus valores. Vamos supor que você mereça um aumento. Você tem trabalhado duro, assumido responsabilidades, gerado resultados importantes. Só que você tem muito medo de conversar sobre isso com seu chefe. Você imagina que ele vá reagir mal, brigar com você, ou até mesmo te mandar embora. Você gostaria de tentar, de se posicionar, mas o medo e a ansiedade te impedem. Você pensa: “eu gostaria muito de conseguir pedir um aumento, mas tenho muito medo”. É exatamente esse o ponto: o fato de não querer sentir medo acaba impedindo você de agir como gostaria. Ou seja, o fato de você não aceitar o medo como parte natural da vida acaba te sabotando. Você não age em função dos seus objetivos maiores, e sim apenas para evitar incômodos no momento. Se você conseguir aceitar e tolerar o medo, você consegue agir, mesmo quando ele está presente. São duas alternativas: ou você age com medo ou não age. Não dá para esperar o medo passar para fazer aquilo que se quer, pois, ao não agir, o medo apenas aumenta. Em contrapartida, quando fazemos o que nos assusta, existe a chance do medo diminuir. Então, as coisas são justamente o contrário do que achamos: ao evitar o medo, nós o aumentamos; ao enfrentar o que nos causa medo, nós o diminuímos. A soma da aceitação e do compromisso poderia ser expressada, nessa situação, pela mudança daquele pensamento sobre pedir o aumento. Trocamos o “mas” pelo “e”: “eu gostaria muito de conseguir pedir um aumento e tenho muito medo”. E a ideia é que você peça o aumento, sabendo que vai sentir medo. O medo é uma sensação momentânea. Ele passará. Mas os resultados que você obtém ao agir de acordo com seus valores permanecerão. Temos aí mais um dos aspectos aparentemente contraintuitivos da ACT: quanto mais conseguimos aceitar o que nos incomoda, mais conseguimos fazer as mudanças com as quais nos comprometemos. Aprender a conviver com as sensações negativas nos liberta, pois rompemos com o limite que elas impõem às nossas atitudes.

2 Comentários

  1. A ACT, tem me ajudado muito; tanto do ponto de vista pessoal, como profissional.Passei a entender o significado da vida de uma forma diferente; antes eu pensava que a tristeza e sofrimento deveriam ser excluidos das nossas vidas, e que, quando algúem pensasse ou agisse diferentemente daquilo que imaginássemos, os sentimentos de resignação, de injustiça, etc.., tomariam o lugar nas nossas vidas.Tudo muda a partir do coneito de Valores; ou seja, quando temos conhecimento daquilo que nos é valoroso,e passarmos a agir com o compromisso de viver de acordo com esses valores, somos capazes de ajustar as nossas expectativas em relação aos outros, ao nosso ambiente, e entender que pessoas possuem valores diferentes . Essa postura frente a vida é libertadora, você não sentirá solidão, pois seus valores te acompanharão durante a sua jornada.

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